Elefante (Elephant, 2003)

É um dia aparentemente comum na vida dos moradores de Portland, cidade dos EUA. Enquanto a maior parte dos alunos de uma escola secundária local se dedica às suas atividades regulares, dois estudantes aguardam, em casa, a chegada de uma metralhadora de alta precisão – item que faltava para completar o arsenal que vinham reunindo. Munidos deste aparato, os jovens partem para a escola, onde protagonizarão uma verdadeira carnificina.

Inspirado no massacre de Columbine, ocorrido em abril de 1999, Elefante rendeu a Gus Van Sant dois dos principais prêmios do Festival de Cannes de 2003 – o de melhor diretor e a prestigiada Palma de Ouro. Inicialmente recusado por alguns produtores devido às polêmicas que suscitaria, o filme apresenta uma estrutura pouco convencional: grande parte dos diálogos foi improvisada pelos atores, o que confere à obra uma atmosfera de realismo perturbador, à medida que aproxima o espectador da banalidade cotidiana que antecede a irrupção da violência, reforçando o caráter quase documental da narrativa.

O filme é narrado em blocos temporais, mas não apenas isso: ele reencena os mesmos episódios sob diferentes pontos de vista – e a cada um deles somos apresentados a novos personagens e seus conflitos: o rapaz que sofre com o pai alcoólatra; o atleta bonitão cuja namorada suspeita de uma gravidez; as amigas que seguem uma dieta severa para manter o corpo; a garota que sofre bullying das demais meninas da turma; e, claro, Eric e Alex, os dois protagonistas deste trágico evento, compondo um retrato fragmentado que dilui a centralidade narrativa e reforça a inevitabilidade da tragédia, como se ela se insinuasse silenciosamente na vida daqueles indivíduos.

Entretanto, é a câmera de Gus Van Sant que rouba o protagonismo, tornando-se ela mesma um elemento central em Elefante: ela opera, na maior parte do tempo, por meio de longos planos, que acompanham esses personagens, tal qual um observador silencioso. Trata-se de um recurso que nos transporta para dentro daquele cenário, acentuando a sensação de que algo está prestes a ocorrer a qualquer momento, mantendo o espectador em um estado constante de tensão.

Gus Van Sant é um cineasta que sempre flertou com um cinema mais contemplativo e experimental, menos comercial e interessado em formas narrativas não convencionais. Ao longo de sua projeção, Elefante condensa a trajetória de seu realizador: aqui, essas inclinações se radicalizam, como se o diretor levasse ao limite suas próprias inquietações artísticas, o que resulta em uma obra de profundas reflexões – da brevidade da vida a discussões sociais mais sérias e urgentes, como a cultura armamentista nos EUA, que em muitos estados permite a aquisição facilitada de armas de fogo. Embora Gus tenha alcançado grande prestígio com filmes como Milk – A Voz da Igualdade ou Gênio Indomável, certamente Elefante figura como um de seus melhores títulos, tanto por suas escolhas estéticas quanto pelas discussões que tensiona.