Garota Sombria Caminha Pela Noite (A Girl Walks Home Alone at Night)

Estamos em Bad City, uma cidade iraniana vazia em suas locações e sentimentos e reduto das figuras mais ordinárias: um traficante que abusa do poder, uma prostituta arruinada, um viciado sórdido, um menino que pede esmolas, entre outros tipos repulsivos. Bad City é o retrato de uma sociedade sem esperança, perdida dentro de sua própria decadência, um cenário perfeito para o aparecimento de uma estranha garota que passa a seguir de perto as almas mais repugnantes daquele local. No entanto, o encontro dessa misteriosa personagem com um rapaz solitário fará florescer uma inusitada história de amor.

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Com roteiro e direção de Ana Lily Amirpou, Garota Sombria Caminha Pela Noite é uma trama vampiresca incomum, saudada inclusive como uma das melhores produções do gênero nos últimos anos. Para o espectador mais atento, o longa é repleto de alegorias – como a própria Bad City, praticamente uma cidade “fantasma”. Seus poucos moradores vivem em uma incrível sensação de isolamento. Arash, o jovem que sofre com o pai viciado e endividado, é o mais puro exemplo disso: ele aparenta estar isolado a todo instante, como se não se encaixasse naquele ambiente, como se pertencesse a outro lugar – o que pode justificar sua inexplicável aproximação com a intrigante vampira (que parece estar ali com o único pretexto de alimentar-se daquelas pessoas problemáticas).

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A narrativa lenta (que flerta com o suspense, mas sem muito causar a tensão deste gênero) perde sua força no decorrer da fita, funcionando apenas na primeira parte da produção. A partir disso, o público acompanha o desenrolar da história apenas pela curiosidade, afinal Garota Sombria Caminha Pela Noite não deixa de ser uma obra, no mínimo, instigante – e isso se deve muito ao seu excelente apelo estético-sonoro. Enquanto a fotografia em preto-e-branco já chama a atenção logo nos minutos iniciais (que nos remete em alguns momentos aos quadros expressionistas de outrora), a seleção musical incomum enriquece bastante o filme, mesclando variados estilos que se encaixam perfeitamente à trama. E são esses pontos que tornam Garota Sombria Caminha Pela Noite uma experiência cinematográfica interessante, mesmo que o argumento em si não tenha muito vigor.

A Dança dos Vampiros (The Fearless Vampire Killers)

Analisar hoje A Dança dos Vampiros, de 1967, é uma tarefa complicada. Isso porque esse longa de Roman Polanski percorre dois gêneros: ora é um terror, ora é uma comédia, mas nunca assusta totalmente ou faz rir por completo. Na verdade, A Dança dos Vampiros pode ser encarado muito mais como uma sátira aos filmes de terror de outrora do que um filme necessariamente “sério” – o que não o rebaixa, mas sim o torna um dos melhores exemplares da cultuada e diversificada carreira de Polanski.

02A Dança dos Vampiros traz a história de Abronsius, um professor universitário especialista em vampiros, que viaja à Transilvânia (acompanhado de seu fiel e medroso assistente, Alfred) para comprovar a existência desses seres macabros. Na cidade, ao se hospedarem em um estalagem local, eles presenciam o rapto de uma bela jovem, por quem Alfred se apaixona logo de início. Persuadido por seu assistente, Abronsius parte rumo ao castelo do Conde Krolock para tentar resgatar a bela dama.

O tom humorístico de A Dança dos Vampiros concentra-se basicamente nas trapalhadas de Abronsius e Alfred – que o próprio Polanski interpreta com muito empenho. Seu tipo carismático, atrapalhado e “pamonha” talvez tenha inspirado o perfil que, anos mais tarde, Woody Allen imortalizaria em seus filmes. Os demais personagens da vila ou mesmo os tipos vampirescos do castelo são perfeitamente caricatos, garantindo os momentos mais cômicos da película e deixando o longa muito mais divertido.

Na parte técnica, não se pode dizer que o filme possua muitas qualidades louváveis – o que pode ser justificável, sobretudo, pelos recursos da época e pelo próprio tom “pastelão satírico” da produção. No entanto, deve-se destacar a trilha assustadora composta por Krzysztof Komeda – parceiro de longa data de Polanski que mais tarde assinaria também a banda sonora de O Bebê de Rosemary. As tomadas mais extensas de perseguição em meio à neve também demonstram um trabalho de câmera hábil, assim como a cenografia e figurino que explicitavam o perfeccionismo do diretor e justificavam os milhões gastos durante sua produção (especialmente na ótima cena do baile vampiresco, já ao final do filme).

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Os produtores decidiram lançar dois filmes: uma versão do diretor e uma versão de estúdio (carregado ainda pelo título The Fearless Vampires Killers, or Pardon Me, But Your Teeth Are in My Neck), o que, obviamente, irritou o artista. No entanto, foi a versão de Polanski que se tornou uma espécie de clássico “cult” nos cinemas de arte e nas universidades norte-americanas. A irritação do cineasta talvez se deva ao fato de que durante muito tempo ele considerou A Dança dos Vampiros como sua melhor obra. Provavelmente, essa paixão exagerada do diretor pelo longa possa ter sido causada pelas boas lembranças que ele tem de sua própria vida pessoal durante o período, quando estava visivelmente apaixonado pela estonteante Sharon Tate – antes dos acontecimentos fatídicos que tornariam a vida de Polanski muito mais sombria do que qualquer trabalho que o cineasta faria em sua carreira.