Solidão e Necessidade de Afeto em “Fique Comigo”

Em um prédio da periferia de Paris, o elevador vive constantemente quebrado, o que causa um enorme desconforto a seus moradores. Entre eles, três personagens se destacam: um homem que está temporariamente confinado a uma cadeira de rodas devido a uma “overdose” de bicicleta ergométrica (o mesmo que se recusara a contribuir com o conserto do elevador, alegando não utiliza-lo – já que mora no primeiro andar do edifício); um senhora de origem argelina que aguarda a saída de seu único filho da prisão; e um adolescente que vive praticamente abandonado pelos pais em um dos apartamentos.

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Apesar das histórias destes personagens correrem em paralelo (eles não se cruzam em nenhum momento, o que faz parecer que se trata de três curtas diferentes sobre a mesma proposta), todos eles carregam um mesmo drama muito comum nos tempos modernos: a solidão. Este é um dos grandes males psicológicos de nossa era. A sensação de estar só, de se sentir isolado mesmo em meio a uma multidão ou o sentimento de não se sentir amado o suficiente afligem muitas pessoas – mesmo em um mundo virtualmente conectado, onde qualquer um pode ter milhares de amigos ou seguidores em redes sociais, por exemplo. A bem da verdade, este não é um tema novo no cinema. O longa francês Fique Comigo, no entanto, vai na contramão da maioria dos filmes a tratar o assunto: a solidão é revista aqui por um olhar ligeiramente mais cômico. Apesar de leve, a comédia está presente em Fique Comigo – por vezes fria ou melancólica, sim (ou apostando em situações surrealistas até), mas criando uma atmosfera interessante na película, que ajuda a promover reflexões (descartando, assim, os dramalhões convencionais do gênero).

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É a necessidade de se ter alguém com quem compartilhar a vida que cria os vínculos com os demais personagens da trama. O aspirante a fotógrafo Sterkowitz, ao sair de casa na madrugada com sua cadeira de rodas, conhece uma enfermeira que gosta de fotografia, mas nunca foi retratada. Um erro de cálculo faz com que uma nave espacial pouse na cobertura do prédio, forçando o astronauta norte-americano John McKenzie a se hospedar no lar da imigrante Hamida – e mesmo as barreiras linguísticas e culturais não serão capazes de impedir a relação maternal que surge entre os dois. No núcleo menos surreal de Fique Comigo, o garoto Charly se aproxima de Jeanne Meyer, uma atriz alcoólica e decadente – cujas cenas mais realísticas demonstram o conflito de gerações entre eles.

Outra grande força motora de Fique Comigo está nas atuações de seu primoroso elenco, que é unânime. Isabelle Huppert (de A Professora de Piano e Minha Mãe) é o maior nome, mas há espaço para destaques como Tassadit Mandi (de Dheepan: O Refúgio) e Michael Pitt (de Os Sonhadores e Últimos Dias). Apesar da evidente falta de equilíbrio narrativo, especialmente na montagem da fita (por vezes, estende-se muito uma trama, enquanto as demais ficam de lado), Fique Comigo consegue ser um filme tocante ao tratar a frieza das relações contemporâneas – e, é claro, a necessidade do afeto entre as pessoas.

Minha Mãe

03A obra do cineasta francês Christophe Honoré já rendeu todo tipo de filme – ótimos (Canções de Amor, Em Paris), bons (A Bela Junie, Bem Amadas) e ruins (Homem ao Banho). Pode-se dizer que Minha Mãe (Ma Mère, 2004) está na linha tênue que separa o bom do ruim – revelando-se um projeto cuja pretensão de chocar e ser elevado a status cult o torne indigesto para alguns e clássico instantâneo para outros.

Baseado no livro de Georges Bataille (de 1955), a trama gira em torno de Pierre, jovem de 17 anos, que tem uma verdadeira adoração por sua mãe, Hélène. Após a morte do pai, a progenitora decide quebrar o mistério e revelar ao filho sua verdadeira natureza: uma mulher imoral, para quem o sexo é pura banalidade. Despertado em sua sexualidade, Pierre é orientado pela mãe em práticas sexuais pouco comuns – mas, após uma sessão de orgias, mãe e filho se separam, tentando amenizar o que sentem um pelo outro e abrindo espaço para vivenciar novas experiências.

O incesto entre mãe e filho não é um assunto propriamente novo no cinema – apesar de sempre causar certo desconforto no espectador. Em Pecados Inocentes, de 2007, a personagem de Julianne Moore tem uma relação pouco convencional com o filho Tony (Eddie Redmayne). O que diferencia ambos os filmes, no entanto, é que em Minha Mãe o excesso de cenas de sexo é claramente uma forma de chocar o espectador. Ou seja, Honoré, ao que tudo indica, não pretende chamar a atenção do público com conteúdo – mas sim com cenas de sexo que, em alguns momentos, podem causar asco em uma plateia mais “puritana”.

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Minha Mãe é, sob vários aspectos, portanto, um filme “forte”. Não é para qualquer um. Honoré constrói uma narrativa perturbadora e até mesmo incômoda, sem a intenção de explicar, mas apenas mostrar. Seus personagens não levantam debates sobre o que é certo ou errado: eles apenas estão ali, para viver suas histórias da forma mais intensa possível. Não há julgamentos ou questionamentos: há apenas o prazer – e isto é o que torna o relacionamento entre mãe e filho tão artificial. O roteiro parece perdido, assim como suas personagens que não tem rumo certo. Falha no roteiro que sequer desenvolveu suas personagens e abrem diversas lacunas – como a verdadeira relação entre marido e mulher ou entre pai e filho ou ainda a origem do comportamento promiscuo de Hélène. Felizmente, são os atores que conseguem dar ritmo à trama. Enquanto Garrel está linear, Isabelle Hupert consegue causar certa repugnância ao longo da história, com sua personagem distante, insatisfeita e imoral. Outra boa surpresa do elenco é Joana Preiss, a amante de Hélène e Pierre – o trio protagoniza uma tórrida cena de ménage à trois dentro de um táxi.

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Com uma fotografia bem colocada (constante na filmografia do diretor), Minha Mãe é um daqueles filmes que exigem que você, espectador, esteja aberto a todo e qualquer tipo de acontecimento. Com um final surpreendente (aliás, apesar do que se sugere, há pouco contato entre mãe e filho), o longa parece um mural construído com diversas cenas interessantes e avulsas mas, como produto final, compõe um bom trabalho – para ser apenas observado, nunca julgado. Há, ainda, outro argumento que muitos poderão levar em consideração ao assistir Minha Mãe: Louis Garrel. O ator francês, que é um dos maiores expoentes de sua geração (além de prezar por uma beleza particular), aparece nu em vários momentos do filme. Espere: eu disse que Garrel aparece nu neste filme? E desde quando isso é novidade no currículo do ator?