O Crime é Meu (Mon Crime)

O assassinato de um famoso produtor artístico desafia a polícia parisiense na década de 1930. A principal suspeita é Madeleine Verdier (Nadia Tereszkiewicz), uma jovem aspirante a atriz, em busca do sucesso nos palcos da capital francesa. Todas as evidências sugerem que Madeleine é, de fato, a culpada: dividindo um minúsculo apartamento com sua melhor amiga, sua situação financeira vai de mal a pior; ela também fora a última pessoa a ver o tal produtor vivo; para completar, uma arma é encontrada em sua mobília. Mas o inspetor Rabusset (Fabrice Luchini) não precisa se esforçar muito: poucos dias depois, a própria Madeleine surge em seu escritório declarando-se culpada. Mas estaria ela falando a verdade ou tudo não passa de uma armação para alavancar sua carreira?


Baseado em um espetáculo teatral dos anos 30, O Crime é Meu é o novo filme do realizador francês François Ozon, que retorna à comédia após uma série de dramas e romances “substanciais” (sua última incursão no gênero cômico foi em Potiche – Esposa Troféu, de 2010). Com inspirações no cinema clássico (a chamada ‘era de ouro’), O Crime é Meu recria um dos períodos mais importantes da história do cinema: a transição entre o mudo e o falado. Para tanto, o longa recorre a uma direção de arte primorosa, sets e figurinos repletos de detalhes e uma fotografia que preza pela luz, em planos que captam toda a efervescência daquele momento.

A história sofre uma baita reviravolta em sua segunda metade, com a inserção de uma nova personagem: Odette Chaumette (Isabelle Huppert, em uma performance magnânima), uma atriz que fizera sucesso no cinema mudo e que, tentando voltar aos holofotes, surge reivindicando a autoria do crime. A partir daí, O Crime é Meu ganha contornos ainda mais interessantes, com uma galeria de tipos femininos fortes, corajosos e empoderados em uma época em que as mulheres sequer eram ouvidas, limitando-se apenas à satisfação das vontades dos homens (curiosamente, os personagens masculinos aqui são majoritariamente canastrões, mas sempre orgulhosos – do inspetor de polícia facilmente manipulado ao jovem capaz de promover seu grande amor à amante para faturar uma grana com um casamento milionário). Com uma mistura de humor ácido e trama criminal, François Ozon entrega um filme com discussões importantes, como a hipocrisia das instituições e a misoginia que perdura em nossa sociedade patriarcal. Uma pena que, após quase um século do texto original, a trama de O Crime é Meu ainda seja relativamente atual.

O Vale do Amor (Valley of Love)

Sutilmente protagonizado pelos astros franceses Gérard Depardieu e Isabelle Huppert, O Vale do Amor acompanha um pai e uma mãe, divorciados, que se reencontram após muito tempo em uma viagem ao Death Valey, nos EUA, a pedido do filho que lhes escrevera uma carta antes de se suicidar. Durante a estadia, eles discutem a relação e refletem sobre o passado, enquanto enfrentam no presente a própria dor causada pela morte do filho.

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Dirigido por Guillaume Nicloux (do elogiado A Religiosa, de 2013), O Vale do Amor não é um filme para qualquer um. Com um desenvolvimento lento e angustiante, porém preciso, o longa parece, a princípio, ser tão “desnorteado” quanto seus protagonistas: eles estão ali à procura de respostas para seu sofrimento. Cada um deles, entretanto, reage de uma forma particular: suas razões não são as mesmas e os conflitos nascem daí, através de diálogos emocionalmente carregados que nos fazem sentir a dor destes personagens como se fôssemos nós mesmos quem tivéssemos perdidos um ente próximo, ou pelo menos nos colocar no lugar deles, mas mantendo certa distância.

Triste, poético, etéreo – esses podem ser alguns dos adjetivos que me vêm à cabeça quando penso em O Vale do Amor. É um filme sobre o luto, mas não sua superação e sim sua dor. Ela não passa facilmente (quando passa), ela machuca, corrói e, na maioria das vezes, não tem explicação, como boa parte das coisas em nossa existência. As feridas nem sempre podem ser saradas, mas o tempo não para e a vida continua. É estranho pensar assim? Sim, mas é provavelmente por isso que O Vale do Amor não tenha um final feliz. Com atuações acima da média e uma fotografia bastante atraente, O Vale do Amor nos convida à uma interessante reflexão sobre os traumas do luto, com um argumento rico e competente para tornar este um filme melancolicamente necessário.