Cães de Aluguel

Lá no início da década de 90, o até então desconhecido Quentin Tarantino estreava como diretor com o seu Cães de Aluguel. Ex-funcionário de uma locadora (fato que colaborou para seu vasto conhecimento cinematográfico), Tarantino criava ali uma obra que seria amplamente elogiada pela crítica e considerada por muitos o melhor filme do diretor – ou pelo menos, o precursor de um estilo que definiria Tarantino em toda sua carreira.

Cães de Aluguel é um filme simples e direto: Joe Cabot é um criminoso experiente que reúne um grupo de seis bandidos para um assalto a uma joalheria. Ninguém nesse grupo se conhece e cada um utiliza uma cor como codinome, evitando assim qualquer suposto “envolvimento” pós-assalto. Algo no local do crime, porém, acaba saindo errado e a polícia já está à espera do grupo, o que levanta as suspeitas sobre uma provável traição. Após a fuga desenfreada, os criminosos que sobrevivem se encontram em um galpão, onde discutem sobre o acontecido e levantam hipóteses sobre quem poderia ser o traidor do grupo.

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Muita gente considera Pulp Fiction, o filme seguinte do cineasta, como a obra-prima de Tarantino. Outros sugerem que o diretor se reinventou em Kill Bill, alguns anos após o subestimado Jackie Brown. Obviamente, dentro uma filmografia tão linear, é difícil para qualquer fã do diretor definir qual seria seu melhor trabalho. Mas é inegável que Cães de Aluguel é um belo exercício de estilo para um diretor de primeira viagem. Talvez o que mais torne Cães de Aluguel original seja a naturalidade com que Tarantino injeta as características que definiriam sua obras posteriormente, tornando-o um filme descompromissado, mas nem por isso de qualidade duvidosa. Com sutileza e talento, Tarantino apresenta ao público todo seu estilo, revelando um cineasta competente e passível de admiração logo à primeira exibição.

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O roteiro já demonstra muito do que é Tarantino. Inovador e inquestionável, o roteiro torna tudo muito verossímil ao descrever seus personagens e suas ações com bastante clareza. Cada um tem sua personalidade revelada logo de cara, sem muita forçação de barra, e todos estão bem inseridos na história. Não há personagens descartáveis: todos são responsáveis por algum momento no longa. Quentin entrega um roteiro ágil, que não abre margens para situações desnecessárias ou redundantes – e apesar do filme se passar basicamente em um único cenário, não há monotonia. A ação é constante – e isso se deve muito mais pelos excelentes diálogos do que necessariamente por cenas de perseguição ou tiroteio. A cada conversa entre os bandidos, o expectador se depara com uma explosão de referências à cultura pop – como na antológica cena inicial, onde o grupo devaneia num restaurantes sobre o significado de Like a Virgin, de Madonna.

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O filme também traz uma constante nos roteiros tarantinescos: a não linearidade. A história se intercala entre as sequências no galpão e os flashbacks do crime, que aos poucos ajudam a esclarecer a situação. Ousado para a época, Cães de Aluguel traz ainda cenas de violência exacerbada, que chocou muito os críticos – e, como não poderia ser diferente, levantou intermináveis debates sobre a questão da violência no cinema. Em um dos momentos mais fortes do longa, o personagem de Michael Madsen tortura um policial ao arrancar-lhe a orelha – tudo mostrado sem pudor.

São raros os casos no cinema em que um diretor estréia de forma tão magnífica e empolgante. Muito mais raro ainda é quando o primeiro filme de um cineasta diz tanto sobre ele como Cães de Aluguel fala sobre Tarantino. Tudo o que o diretor faria em suas próximas histórias estão ali presentes: os ótimos diálogos e teses tarantinescas, o humor negro, a violência exagerada e explícita, a trilha sonora excepcional, a não-linearidade do roteiro, as referências à cultura pop e a outras obras de cinema (em certo momento, três dos bandidos se encaram nos remetendo, de forma mais atual, à cena mais emocionante de Três Homens em Conflito, clássico de Sérgio Leoni – um grande ídolo de Tarantino) e, claro, a facilidade com que o cineasta consegue florear até mesmo os momentos mais eloquentes. Não à toa, a Empire definiu Cães de Aluguel como “o melhor filme independente da história”. Com competência difícil de se achar em um diretor iniciante, Tarantino conseguiu muito mais do que isso: fez de Cães de Aluguel uma cartilha de seu próprio gênero.

Kill Bill – Vol. 1 e 2

Quando estreou com Cães de Aluguel, em 1992, Quentin Tarantino foi recebido com entusiasmo pela crítica. Na época, o jovem diretor de 28 anos, viciado em vídeos e cultura pop, escrevia o roteiro daquele se tornou um dos grandes clássicos dos anos 90. Uma década depois, Tarantino trazia às telas a saga Kill Bill, menos envolvente e underground que seus filmes anteriores, mas que mostrou ao mundo que Tarantino era um dos cineastas mais maduros de sua geração.

Kill-Bill-Foto-2Concebido como uma história contínua, mas dividida em dois volumes, Kill Bill narra a trajetória de Beatrix Kiddo, conhecida simplesmente durante quase toda a sequencia como “A Noiva”, e sua incansável luta por vingança. Narrada em capítulos, recheados de flashbacks e com um roteiro não linear (constante nas produções de Quentin), Kill Bill conta como Beatrix é atacada por Bill (o próprio do título, interpretado pelo já falecido David Carradine), seu antigo mentor, no dia de seu casamento. Após passar quatro anos em coma, Beatrix desperta do sono e só pensa em vingança. Contando assim, é de se imaginar, à primeira vista, que o filme seja um clichê hollywoodiano – até mesmo porque o tema, vingança, é clichê. Mas quando falamos de Quentin Tarantino, a ideia é um pouco diferente.

kill-bill-vol-1-2003-tou-5-g-1A princípio, uma observação é importante aqui: é impossível assistir apenas a um dos volumes da saga. Ainda que conte com inúmeros méritos que tornem ambos os volumes deliciosamente divertidos de se assistir individualmente, é imprescindível assistir a sequencia para se entender a genialidade da obra (como mencionado, a proposta do filme era ser uma história contínua), até mesmo porque boa parte das respostas já esperadas são apenas reveladas no último volume. Inspirado em longas de artes marciais da década de 70 e nos westerns (especialmente os italianos da década de 60), Tarantino consegue criar um filme que concentra sua essência em cenas de lutas estratosféricas que, muito mais do que excelentes sequencias de ação, foram cuidadosamente coreografadas e bem executadas. A sequencia em que a Noiva derrota o grupo de O-Ren dentro de um clube, por exemplo, é uma daquelas coisas que não te deixam desgrudar os olhos da tela, mesmo se você quisesse.

kill-bill-bar-5601Além das inúmeras cenas de luta, há ali o humor tarantinesco impregnado por todos os lados – aquele humor sutil, quase imperceptível, basicamente inserido em diálogos muito bem escritos. A comparação entre Clark Kent e Beatrix Kiddo, feita por Bill nos últimos minutos da sequencia, faz com que você caia de amores pelo roteiro de Tarantino – sim, ele dirige e escreve seus filmes, veja você! São diálogos simples que ajudam a construir cada uma das personagens, ainda que nem todas sejam devidamente desenvolvidas. A sequencia do treinamento de Beatrix pelo mestre Pai Mei, por exemplo (de longe, um dos meus personagens preferidos na trama), tem cenas e diálogos simples, mas com uma força surpreendente.

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Também é nos aspectos técnicos que Kill Bill se destaca. Além das belas coreografias, as câmeras de Tarantino percorrem um cenário exuberante – simples até, mas talvez por isso exuberante, como na cena do combate entre O-Ren e Kiddo. Outro destaque técnico é a edição de som e, falando de Tarantino, a trilha sonora eclética e impecável. É a trilha sonora que ajuda a conduzir tão bem os personagens da saga que, sob a direção de Tarantino, são brilhantemente caracterizados por seus intérpretes. Obviamente, o destaque fica por conta de Uma Thurman (ah, Uma, por que tão esplêndida?), no papel que certamente salvou sua carreira. Musa de Tarantino desde sua Mia Wallace em Pulp Fiction, Uma (que também ajudou a roteirizar o filme) se empenhou em criar uma personagem cuja sede de vingança é plenamente justificável.

kill-bill-vol-1Há quem torça o nariz para Kill Bill, assim como para os demais projetos de Tarantino, acusando-o de ser um diretor exibicionista, abusando de cenas com violência excessiva e propensas ao apelativo. De fato, violência excessiva é praxe na obra tarantinesca (e não adianta dizer o contrário). O que difere Tarantino dos demais diretores é a estética implacável de sua filmografia. As cenas são tão bem montadas e arquitetadas que por mais sanguinolentas que sejam não há como não admira-las. Além disso, os filmes de Quentin são repletos de referencias a outras obras cinematograficas e à cultura pop em geral. Logo, um telespectador qualquer pode não se sentir muito à vontade com o excesso de detalhes que são a base de suas histórias.

KillBillVol2_1Embora o final seja deveras artificial e morno (afinal, ao longo das quatro horas de história, são tantas sequencias incríveis que o mínimo que se esperava do confronto final entre a Noiva e Bill fosse o ápice da saga), Kill Bill se firma como um dos maiores triunfos do cinema atual. É um típico filme de Tarantino, recheado de referências cinematográficas (mostrando o profundo conhecimento de Quentin sobre o tema), diálogos memoráveis, personagens frios e calculistas e visual de tirar o fôlego, o que torna Kill Bill um dos filmes mais queridos de seu diretor. Rolam-se boatos de uma provável continuação. Não que seja necessário, afinal a história parece que já foi devidamente contada. Mas nunca se sabe o que pode sair da mente brilhante de Tarantino.