Barbie (Barbie)

Com seus devidos e autênticos méritos, o furacão Barbie é um sucesso de público e crítica. Dirigido por Greta Gerwig (de Lady Bird: A Hora de Voar e Adoráveis Mulheres) – que assina o roteiro com seu velho parceiro Noah Baumbach –, Barbie é definitivamente um dos grandes filmes do ano: divertido, delicado e, acima de tudo, necessário, sem parecer piegas ou panfletário. Em outras palavras: Barbie é um filme na medida certa.

Plena em sua performance (das melhores em sua carreira), Margot Robbie é a Barbie ‘estereotipada’, aquela figura que se perpetuou ao longo de décadas e foi responsável por impor um padrão de beleza praticamente irreal às mulheres. Ela vive no mundo cor-de-rosa da Barbieland, feliz ao lado de outras bonecas (todas são Barbie), cada uma com seu papel bem definido dentro deste universo, em uma rotina que se limita à praia, festas, músicas, coreografias – enfim, um sonho! A perfeição sai dos eixos quando a boneca começa a apresentar defeitos (como os pés chatos, celulites, pensamentos de morte, etc.), o que a leva a uma aventura no mundo ‘real’.

A Barbieland de Greta Gerwig é artificialmente autêntica, como a própria cineasta sugeriu: é propositalmente falsa, exagerada até, com seus cenários em versões milimetricamente aumentadas dos brinquedos infantis da personagem – mesmo o mundo ‘real’ não foge desta abordagem: tudo é ajustado, coeso. O uso da paleta de cores também é excepcional, com o rosa predominante, mas muito bem dosado, sem causar estranhamento ou cansar a vista. O figurino reproduz as peças das mais variadas versões dos bonecos, bem como o design de produção, que recria os itens originalmente construídos pela Mattel.

O elenco, por sua vez, é competente de forma uniforme. Margot, como dito, dispensa comentários: foi a escolha mais acertada para a personagem. America Ferrera é a figura humana mais ‘humana’ da trama, com questões emocionais bem desfiadas – especialmente em sua relação com a filha adolescente, vivida por Ariana Greenblatt. Os tipos masculinos são interessantíssimos em seus arcos: Will Ferrell, como o executivo burocrático; e Simu Liu, o Ken que arranca risos com sua rivalidade com o Ken de Ryan Gosling – este, sim, a mais grata surpresa. Gosling é o maior destaque: seu Ken é de uma comicidade impecável (e, convenhamos, a cara debochada do intérprete ajuda muito). A narração de Helen Mirren também é genial: suas interferências na história rendem piadas ótimas.


Mas provavelmente é a irreverência o ponto alto de Barbie: é um filme que não leva nada a sério – nem a si mesmo. É um filme que subverte sua fórmula, satirizando a tudo e a todos. Há evidentes críticas sociais, como à intolerância ao diferente, à militância histriônica, à burocracia das instituições – mas as principais delas se concentram nos padrões de beleza que persistem ao longo dos anos e, mais fortemente, no patriarcado. No mundo invertido, homens são sumariamente tratados como as mulheres em nossa realidade; infelizmente, nossa contemporaneidade ainda é machista, misógina e cruel com o feminino, seja por ameaça ou insegurança dos homens. Felizmente, o tom satírico de um roteiro muito bem escrito torna tudo mais leve, divertido, atraente – o que proporciona uma reflexão muito mais rica justamente por não possuir um aspecto didático ou tão progressista.

Eu, Tonya (I, Tonya)

A patinação no gelo é um esporte que ostenta charme, elegância, sofisticação – justamente o oposto da personalidade efusiva de Tonya Harding. Da infância pobre marcada pela relação conturbada com a mãe à ascensão no meio esportivo, Tonya tornou-se famosa não apenas por sua capacidade técnica mas também pelo escândalo que destruiu sua carreira: às vésperas dos Jogos Olímpicos de 1994 (naquela que seria sua segunda participação), Tonya foi acusada de planejar, ao lado do marido Jeff Gillooly, o ataque que tentou incapacitar uma de suas principais concorrentes, Nancy Kerrigan.

A grande dificuldade em se produzir cinebiografias é fugir do formato tradicional deste tipo de narrativa: a estrutura, em geral, já vem “pronta” e muitas vezes fica limitada aos eventos que buscam relatar. Eu, Tonya, por sua vez, é uma grata surpresa nesta temporada e suas maiores virtudes são a quebra da “quarta parede” e a atmosfera de falso documentário que permeia a trama. Não, esses elementos não são totalmente originais, sabemos disso; mas o roteiro de Steven Rogers (de Lado a LadoP.S. Eu te amo) consegue manipula-los de maneira inteligente, o que valoriza esta história que, sobretudo, discute o feminismo com uma abordagem irreverente, fora do comum.

Com uma performance deslumbrante, Margot Robbie é a estrela da fita. Esta é, provavelmente, sua melhor atuação até aqui (aos 27 anos, a loura coleciona bons títulos em sua filmografia) e fatalmente lhe renderá uma indicação ao premio de melhor atriz no Oscar. A intérprete faz de Tonya uma protagonista com incrível carisma e empatia, ainda que suas ações nem sempre sejam vistas com bons olhos. O público torce por Tonya, mas sabe que a garota precisa tomar um rumo na vida – seja posicionando-se frente à mãe exigente (a excepcional Allison Janney), como também dando um “chega pra lá” no marido agressor (um Sebastian Stan muito eficiente, outro grande desempenho no elenco).

Embalado por uma trilha que evoca as sonoridades das décadas de 80/90, Eu, Tonya chega de mansinho, mas se mostra uma das cinebiografias mais interessantes desta temporada. Ao “quebrar” a estrutura usual do gênero, o filme de Craig Gillespie apresenta uma fórmula não convencional para narrar uma história atípica, inusitada e polêmica, cujos personagens não são lá exemplos a serem seguidos, é verdade; pelo contrário, são tipos problemáticos que estão sujeitos a todo e qualquer tipo de sentimento. O que os diferencia são as atitudes que tomam diante dos acontecimentos de suas vidas. Eu, Tonya é uma obra sobre escolha e como elas nos afetarão em algum momento.