“Lady Bird – A Hora de Voar”: Greta Gerwig Tenta Voar Alto, Mas Não Vai Muito Longe…

Talvez a característica marcante de Lady Bird – A Hora de Voar, recebido pela crítica como um dos grandes títulos desta temporada, é o fato de o filme dirigido e roteirizado por Greta Gerwig (um dos símbolos do cinema independente norte-americano) não reinventar a roda. Pelo contrário, Lady Bird evidencia uma tendência contemporânea: a produção de filmes com “cara” de cinema alternativo, algo meio “indie” (ainda que não o seja por completo), a tratar sobre temas comuns à juventude.

No caso de Lady Bird, nossa protagonista é Christine McPherson, uma adolescente comum, igual a tantas outras de sua idade (apesar de o roteiro almejar mostrar o contrário). Ela mora com os pais na cidade de Sacramento, na Califórnia, no início dos anos 2000. O relacionamento com a mãe controladora é conturbado: com personalidades muito fortes, as duas definitivamente não combinam – logo, é pelo pai (um desempregado, em plena crise que afetou a economia do país na época) que Christine mantém uma profunda admiração. Todos os planos de Lady Bird (como Christine prefere ser chamada) são frustrados pelas situações naturais da vida: cursar uma universidade na costa leste é impossível devido às suas notas; sua “carreira” de atriz é abandonada no colégio, já que ela nunca consegue bons papéis; seu namoro não vai lá muito bem, uma vez que seu namorado possui sérios problemas de identidade. Para completar, ela não é bem a garota mais popular em seu meio; na realidade, Lady Bird é apenas mais uma na multidão.

Lady Bird é um filme, sobretudo, de memórias, daqueles capazes de fazer o espectador reviver cenas de seu passado. Percebe-se que alguns trechos da narrativa são puramente biográficos, o que contribui muito para uma identificação imediata com Christine, principalmente na primeira parte da fita. Entretanto, apesar do início promissor, o segundo ato deixa a desejar. Em suma, Lady Bird começa melhor do que termina. A trama parte para algumas soluções fáceis (a aproximação com a menina popular, a paixão pelo garoto descolado, o sentimento de vergonha dos pais, etc.). Alguns personagens convertem-se em estereótipos e até mesmo a própria Lady Bird parece ser uma versão teen da protagonista de Frances Ha (obra que lançou Greta Gerwig ao mundo e cujo argumento foi curiosamente desenvolvido pela artista), tornando Lady Bird uma espécie de prequel do longa de Noah Baumbach.

O que faz Lady Bird parecer grandioso, afinal, é a atuação impecável de Saoirse Ronan. Lady Bird é todo seu. A intérprete percorrer a tênue linha entre o humor e o drama com muita sutileza e talento e, com toda justiça, já há quem a coroe com o prêmio da Academia de melhor atriz. Já Lucas Hedges poderia render muito mais caso sua personagem fosse melhor aproveitada, enquanto Timothee Chalamet (que eu já elogiei em outras ocasiões) está visivelmente ligado no automático – ou talvez seja apatia de seu tipo mesmo, que o faz parecer desinteressante em todas as aparições. Seja como for, Lady Bird – A Hora de Voar é um longa bonito e bem produzido, é verdade – mas a melhor definição para ele é “fofinho”. Sim, Lady Bird é muito mais “fofinho” do que necessariamente “excepcional”, como muitos o tem considerado. E isso nos leva à uma conclusão: temos urgentemente que parar de achar que só porque um filme é alternativo, “indie” ou “fofinho” ele está acima da média.

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A Amizade Colocada à Prova em “Parceiras Eternas”

Parceiras Eternas é o filme de estreia da cineasta Susanna Fogel, cuja trama apresenta duas amigas inseparáveis, de personalidade bastante distintas, cuja cumplicidade é colocada à prova quando uma delas se apaixona. Mais do que isso: as duas estão naquela difícil fase da vida em que algumas decisões devem ser tomadas – e, por mais que lutem contra isso, elas precisam amadurecer e assumir novas responsabilidades.

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O tema pode não parecer muito novo ao espectador (aliás, é quase impossível não se lembrar imediatamente de Frances Ha – elogiado longa de 2013, de Noah Baumbach). Parceiras Eternas é um filme que, antes de tudo, fala sobre mudanças – e como nós lidamos com elas. A abordagem é leve, o que traz certo alívio para questões que, em outras circunstâncias, seriam tratadas com maior “seriedade”. Talvez o único “porém” é que a narrativa não se aprofunda o suficiente, o que faz com que o drama permaneça na superficialidade; e tampouco tem aquele tom “fofo”, típico de filmes teens (as próprias protagonistas já são jovens em período de “maturidade”) – e essa falta de um rumo definido acaba prejudicando um pouco a história como um todo.

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O que vale destacar positivamente em Parceiras Eternas é bom trabalho do elenco. Leighton Meester, que ficou conhecida no seriado Gossip Girl, é excepcional no papel da lésbica que fica com ciúmes da amiga e não consegue manter nenhum relacionamento mais sério. Gillian Jacobs interpreta Paige, a companheira mais “centrada” da relação – aquela que percebe a necessidade de “crescer”, mesmo que isso não seja necessariamente aquilo que mais deseja (a sequência em que a mãe se recusa a pagar a conta no restaurante exemplifica bem esse ponto). Ambas demonstram boa química juntas – a cena inicial é ótima! – e conseguem desenvolver com propriedade suas personagens, oscilando as alterações emocionais de cada uma delas. O galã Adam Brody (que há muito tempo já demonstra ser mais que um rosto bonito) faz um tipo interessante, que começa meio estereotipado mas cresce ao longo da fita, se tornando crucial para o andamento da película bem como seu desfecho.

Como um todo, Parceiras Eternas é uma experiência que pode ser conferida sem medo – e dificilmente você sairá decepcionado do cinema. Mas é apenas um momento e nada alem disso. O filme vai te trazer algumas sequências engraçadas e até te fazer pensar na vida em alguns instantes, mas infelizmente é incapaz de produzir uma reflexão mais expressiva porque a ideia não foi bem aproveitada e aprofundada. Uma pena. Há até quem diga que Parceiras Eternas poderia ter explorado mais a personagem de Meester e adentrar o universo LGBT – o que, honestamente, seria desnecessário se o argumento fosse melhor desenvolvido.

O Retrato de Uma Juventude em “Frances Ha”

Frances Ha é, sob certo aspecto, um claro exemplo de longa que já chega com uma aura cult, distanciando-se das produções hollywoodianas com as quais estamos acostumados. Não é um filme de gênero definido. Não é uma comédia, nem um romance, nem um drama. Ele flerta, na verdade, com tudo um pouco. Dirigido por Noah Baumbach (de A Lula e a Baleia), Frances Ha não tem começo, nem meio, nem fim: sua única pretensão é simplesmente contar uma história.

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No caso, a protagonista é Frances, um retrato fiel da nova geração de jovens do século XXI. Ela não é a garota mais bonita, nem a mais inteligente, muito menos a mais rica; mas, como todos os jovens de sua idade, tem aspirações e sonhos – especificamente, sua maior ambição é a de integrar o time principal de uma companhia de dança onde é assistente e sair em turnê pelo país, o que lhe traria maiores condições de sobreviver em Nova York. Como a vida de milhares de jovens modernos, Frances não encontra tudo fácil. Primeiro: apesar de sonhar com o reconhecimento profissional, ela não possui muito talento para tal. Segundo: ela já está naquela idade em que, apesar de ainda se sentir jovem, o tempo já dá indícios de que está passando rápido e quando menos se esperar… simplesmente passou. A exemplo de sua melhor amiga, Sophie, que abandona o apartamento que divide com Frances para casar com o namorado – obrigando Frances a dividir moradia com dois rapazes bacanas e legais (sim, são jovens, cheios de vida e tal…).

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Frances, nossa heroína neste filme excessivamente nova-iorquino, foge um pouco do padrão das mulheres retratadas em Hollywood. Frances é a cara da juventude “problema” da nossa atualidade; uma personagem profunda e, ao mesmo tempo, cheia de personalidade: esperançosa, bem humorada, consciente. Sonha em seguir uma carreira nas artes – apesar da falta de talento suficiente e dinheiro para seguir a vida (como muitos jovens por aí nas grandes capitais). É amiga e fiel. Em certo momento, Frances confessa para Sophie “somos iguais a duas lésbicas juntas a muito tempo que não fazem mais sexo”. Atrapalhada, Frances em diversos momentos é como uma adolescente: vê tudo ao seu redor e sabe que precisa crescer, mas ao mesmo tempo tem medo dos rumos que a vida irá lhe reservar.

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Noah optou por trazer uma atmosfera clássica para a história – presente não apenas na escolha do preto e branco (nos lembrando de imediato Woody Allen em Manhattan), como também na trilha sonora, que vai do instrumental de Bach, Mozart e Georges Delerue (um dos maiores compositores da nouvelle vague – que muitos críticos já associam a Frances Ha) a clássicos mais modernos, como Paul McCartney, The Rolling Stones e Harry Nilsson. Aliás, em uma das cenas mais deliciosas do filme, a protagonista da trama (a irresistível Greta Gerwig, em ótima atuação) sai correndo e dançando pelas ruas nova-iorquinas embalada ao som de David Bowie e sua incrível Modern Love. Quer música mais propícia?

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Frances Ha é um retrato dos nossos tempos. Não é uma obra-prima que preza por bons elementos técnicos – mas é uma narrativa sobre as relações humanas no cenário urbano atual. É um filme que analisa aquela fase da vida em que você fica meio perdido entre o que fazer e o que quer fazer – e quais rumos tomar para realizar os sonhos (ou mesmo assumir que alguns sonhos deverão ser abandonados). Particularmente, me identifiquei com o filme e recomendo (coisa que dificilmente faço em minhas críticas, mesmo amando certas produções). Frances Ha, mais do que um filme de caráter “cool”, é uma fábula contemporânea sobre crescimento e realização (ou abandono) dos sonhos.