Carrossel: O Filme (Carrossel: O Filme)

02Durante a coletiva de imprensa de Carrossel: O Filme, a produtora Diane Maia utilizou uma expressão que me chamou a atenção – “a força da marca Carrossel”. É justamente isso: Carrossel é uma marca que se perpetua desde o final dos anos 80, quando a novela foi produzida pela Televisa (na época, já um remake de um programa da TV argentina), chegando ao Brasil pela primeira vez em 1991 através do SBT. Duas décadas depois, a emissora de Silvio Santos fez a sua própria versão da história – muito bem sucedida, não apenas pela qualidade da produção mas também pela quantidade de produtos licenciados. O folhetim assinado pela esposa do patrão, Iris Abravanel, não decepcionou e trouxe uma audiência excelente para o SBT – em um horário marcado por telejornais sensacionalistas, Carrossel criou uma legião de fãs e resgatou um público que era abandonado pelas demais redes. Diante disso, a novela foi reprisada, ganhou uma série menos badalada (a fraquíssima Patrulha Salvadora) e, agora, seu longa-metragem – que, definitivamente, não era necessário, mas é totalmente satisfatório.

A trama de Carrossel: O Filme é relativamente simples: os alunos da fictícia Escola Mundial estão em férias e viajam para um acampamento pertencente ao avô de uma das crianças do grupo. Sem a presença da querida professora Helena (Rosanne Mulholland, agora de volta ao casting da concorrente Globo) e acompanhados da diretora Olívia (Noemi Gerbelli) e da faxineira arretada Graça (Márcia de Oliveira), a turma é dividida em duas equipes para a disputa de uma gincana. No entanto, os times terão de unir forças para evitar que o sítio seja vendido para o vilão Gonzalez, que pretende transformar o local em uma fábrica poluente.

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Confesso que não é fácil assistir a Carrossel: O Filme sem ressalvas. A primeira já se apresenta no fato de que estamos diante de um filme voltado a um público infantil. Não que isso seja lá um grande problema ou que produções infantis não possam ser boas (um dos meus filmes preferidos, por exemplo, é o ótimo O Pequeno Nicolau, de Laurent Tirard), mas é difícil esquecer que a novela acabou há cerca de três anos e o elenco cresceu. Lucas Santos, o arteiro Paulo, engrossou bem a voz, por exemplo; Nicholas Torres, intérprete de Jaime, tem até barba; Fernanda Concon já é adolescente. Esta talvez tenha sido a maior tarefa dos diretores: fazer com que atores razoavelmente maduros consigam interpretar personagens tão infantilizados, cada um com características fortes e marcantes. Em alguns momentos, isso pesa bastante e o filme tropeça em um tom meio “bobo” ou caricato demais.

No entanto, o roteiro simples e direto é bem desenvolvido dentro de sua proposta, gerando situações engraçadas, apesar de poucas surpresas. O texto de Márcio Alemão e Mirna Nogueira consegue, em pouco menos de 1 hora e meia, valorizar cada um dos personagens e todos eles tem seu devido espaço (embora obviamente haja os destaques do grupo). E é interessante ver o time mirim em cena e constatar que alguns deles não amadureceram só no físico, mas sobretudo profissionalmente. Nomes como o já citado Lucas Santos, Thomaz Costa e Stefany Vaz dominam bem seus papéis, visivelmente mais seguros à frente das câmeras. O elenco adulto ganha bastante com a escalação de Orival Pessini (sim, o boneco Fofão) e Gabriel Calamari (pena que este último ficou reduzido apenas ao jovem gatinho que arranca suspiro das meninas mais novas). Para apimentar a narrativa, Paulo Miklos e Oscar Filho formam a dupla má da vez, no melhor estilo “vilão e ajudante atrapalhado”. No entanto, ambos são excessivamente extravagantes, estereotipados e previsíveis – mas tudo bem, a gente perdoa.

Com uma trilha sonora eclética, Carrossel: O Filme tem mais um pecado: o excesso de didatismo da direção de Alexandre Boury e Mauricio Eça, que não se contenta apenas em mostrar os fatos, mas explicá-los. O personagem tem que dizer que o acampamento é sua vida, o vilão necessita afirmar que odeia crianças, os pequenos precisam soltar (e cantar) aos quatro ventos que são amigos inseparáveis – os acontecimentos, por si, parecem não ser suficientes. Mas isso não atrapalha a película final. Apesar de não poder se comparar a grandes produções do gênero ou a um longa Disney, Carrossel: O Filme acerta ao levar para o cinema os melhores elementos da história na TV, com uma trama divertida, leve, sem apelação e números musicais que tem potencial para grudar na cabeça da garotada. Além disso, a fita traz lições valiosas sobre amizade e companheirismo e também reflexões sobre o respeito à natureza, ainda que todos esses temas sejam tratados de forma um tanto infantil. Boa opção para as férias, cabe ao espectador abandonar todos os preconceitos e embarcar nessa aventura.