Uma Juíza Sem Juízo (9 Mois Ferme)

01Já nas primeiras cenas de Uma Juíza Sem Juízo, somos capazes de descobrir muito a respeito de sua protagonista. Ariane Feldier é uma juíza comprometida e extremamente rígida em seus julgamentos, com grandes perspectivas de crescimento no tribunal onde atua. Além disso, aos 40 anos de idade, ela é solteira, não tem filhos, trabalha muito, se diverte pouco, não acha prazer em quase nada, inclusive nos homens – que troca facilmente por uma dança. Não que haja uma questão de ausência de libido aí, mas talvez sua experiência traumática com a principal figura masculina em sua vida (o pai que abandonou a esposa quando Ariane era pequena – e a seguida morte da mãe, que fez com que a garota ficasse sozinha no mundo) tenha lhe trazido certa desconfiança com relação ao sexo oposto.

Na véspera de ano novo, em meio a uma animada festa em seu local de trabalho, Ariane bebe uns goles a mais e não se recorda de nada do que aconteceu na noite anterior. Alguns meses depois, ela recebe a notícia de que está grávida, mas não faz ideia de como isso pode ter acontecido – e, principalmente, quem é o pai da criança. A partir daí, Ariane começa uma investigação para descobrir os detalhes da história – e, para sua surpresa, o teste de DNA indica que o pai do filho que espera é um perigoso agressor.

Uma Juíza Sem Juízo é um filme despretensioso, mas que agradou ao público e crítica em geral – tanto que a comédia ganhou o Prêmio Cesar de melhor roteiro (segundo maior festival francês) e foi um sucesso de bilheteria na França. Não tem grandes ambições e seu apelo absurdo consegue arrancar boas risadas da plateia.  Porém, o tom exagerado desta comédia não a torna apelativa. Na verdade, por mais que escolha alguns tipos absurdos e estereotipados, o roteiro ágil (que não deixa o espectador bocejar na poltrona) aliado à trama envolvente e inventiva é o que mais chama a atenção neste filme onde tudo é bastante previsível (mas nem por isso você perde o interesse na trama). A comédia absurda de Uma Juíza sem Juízo, por vezes até mesmo boba, lembra muito os primeiros trabalhos de Woody Allen (obviamente sem toda aquela firula existencial do cineasta).

Mas a comédia também pode render bons frutos, e Uma Juíza Sem Juízo aborda alguns temas contemporâneos que podem render boas discussões. O primeiro, estampado logo nas cenas iniciais, é a visão moderna da mulher na nossa sociedade – independente, workaholic e que não precisa de homem para nada. Depois, a desestruturação da família nos dias atuais é algo frequente. Ambos os protagonistas são frutos de lares problemáticos – e a ideia da formação de uma nova e perfeita “família” (segundo o conceito clássico) é o que mais assusta Ariane. Finalmente, há também uma questão ética aqui: vale a pena assumir um segredo vergonhoso para salvar outra pessoa? Como proceder diante desta questão, tomando ciência da situação vexatória à qual estaremos fatalmente expostos?

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Outro ponto que deve ser elogiado é a ótima interação entre os protagonistas. Sandrine Kiberlian e Albert Dupontel (este último que assina o roteiro e a direção do longa) estão ótimos em seus respectivos papéis e mesmo individualmente tem atuações excelentes. Sandrine consegue lidar bem com as alterações de humor de sua personagem – o que lhe rendeu o Cesar de melhor atriz – , enquanto Albert vive um tipo alucinado que é engraçadíssimo. Da parte técnica, vale ainda destacar a simpática (e divertida) trilha sonora de Christophe Julien (que acentua todo o tom escrachado da comédia).

Em alguns momentos, é bom dar uma pausa em filmes “sérios” e arriscar produções menos badaladas e que exijam um pouco menos de nós como espectadores. Isto não implica em assistir a filmes ruins, mas sim trabalhos menos pretensiosos que podem nos render bons momentos de distração e entretenimento. Uma Juíza sem Juízo não é uma verdadeira pérola cinematográfica, mas funciona bem como comédia, sem forçar a barra. Uma opção divertida para quem gosta de dar umas escapulidas uma vez ou outra das comédias hollywoodianas recheadas de estereótipos, apelações e preconceitos.

Eu, Mamãe e os Meninos (Les Garçons et Guillaume, à Table!)

A primeira lembrança que tenho de minha mãe é de quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Ela chamou os filhos para o jantar, dizendo: “Meninos e Guillaume, na mesa!”.

É com esta frase arrebatadora que Guillaume Gallienne introduz seu filme autobiográfico Eu, Mamãe e os Meninos – considerado a comédia francesa do ano e que foi o grande vencedor do César 2014 (o Oscar francês), incluindo melhor filme e melhor ator – desbancando títulos como Azul é a Cor Mais Quente, O Passado e A Pele de Vênus, último trabalho de Roman Polanski.

02Galliene, elogiado comediante francês, é o diretor, roteirista e protagonista desta incrível comédia – praticamente um grito de libertação de todos os traumas e questões mal resolvidas da infância e adolescência do artista. Desde cedo, o jovem nutre uma admiração incomum pela figura feminina – especialmente, por sua mãe, por quem tem verdadeira adoração e devoção –, chegando ao ponto até mesmo de referir a si mesmo como um ser feminino, uma mulher (em determinado momento, o protagonista aparentemente se descobre apaixonado por um colega do colégio, mas declara à mãe “não ser homossexual, pois é sua filha”). Isso leva a família a acreditar firmemente que Guillaume é homossexual e mais do que isso: a encorajar o garoto a se afirmar como tal.

O grande trunfo de Eu, Mamãe e os Meninos está na inovação de sua estrutura narrativa. De início, somos apresentados a um Guillaume nos palcos, se preparando para sua grande encenação teatral. Seu monólogo, no entanto, é entrecortado pela constituição dos episódios que o jovem narra. Dessa forma, o espectador está diante de duas narrativas que se completam: na primeira, nosso protagonista conta sua história; na segunda, Guillaume vive o que narra. Essa inovação ganha força através da utilização de um elemento já conhecido nas comédias escrachadas norte-americanas: a interpretação de vários papéis. Guillaume vive a si mesmo e também sua mãe – e, travestido como tal, é tão impagável quanto vestido de menininho que quer ser menininha.

No entanto, pouco se discute a respeito da homossexualidade de Guillaume – o que vemos é um protagonista que enfrenta suas questões sexuais sem, necessariamente, se preocupar em descobrir-se homossexual ou não. Já de início, Guillaume percebe que não apenas é ligado à figura materna, como também é parecido com ela – e cada vez mais tenta emular a mãe. Isso o leva a se enxergar “menina” e buscar imitar as demais mulheres à sua volta – mas não apenas pelo desejo de “ser uma mulher”, mas também porque admira o sexo oposto. Isto fica explícito no certo “receio” que tem do sexo masculino – chegando a abandonar uma orgia gay ou mesmo dispensar uma transa por se assustar com o tamanho do pênis do indivíduo.

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Na visão de Guillaume, sua feminilidade advém não de uma possível homossexualidade – mas simplesmente da admiração que mantém pelo sexo oposto. Ou seja, sua feminilidade não o torna homossexual (olha a quebra do estereótipo!) – apesar de, ao que tudo indica, estar preparado para aceitar esta condição caso se confirme. Aqui, nosso protagonista não luta para assumir sua sexualidade – e, consequentemente, sofrer com todos os problemas decorrentes de tal ação (como as brincadeiras dos irmãos ou o desprezo do pai). Contrariando o que se podia esperar de um filme com esta temática, a luta de Guillaume não é para sair do “armário” – mas sim para mostrar quem realmente é, mesmo quando todos dizem o contrário. E ele só consegue isso quando, finalmente, encara sua mãe: é justamente aí que ele descobre que o grande problema de sua progenitora foi transferir seus medos, suas angustias, ansiedades e insegurança para ele.

Comédia deliciosa (ainda que recorra a alguns momentos pastelões para fazer chegar ao riso), Eu, Mamãe e os Meninos também apresenta um excelente trabalho estético em sua direção de arte – o que torna o filme visualmente impecável. Ainda aproveita praticamente cada locação, recorrendo a uma vasta paleta de cores em sua fotografia (ora fria, nos momentos introspectivos do personagem; ora quente, nos demais). De longe, Guillaume consegue criar uma obra à altura de sua bela história – que nos faz pensar que o medo é o que nos impede, na maior parte das vezes, de nos aceitarmos como realmente somos, independente do que somos. Eu, Mamãe e os Meninos trata seu tema com a honestidade que é totalmente condizente à necessidade dele. Assim sendo, palmas para o cinema francês.