“A Garota Dinamarquesa”: Filme de Tom Hooper Aborda Drama de Transgênero

O cineasta londrino Tom Hooper não é uma unanimidade. Para alguns um gênio, para outros superestimado, é fato, entretanto, que Hooper demonstra total domínio de sua obra no gênero que, definitivamente, é a sua praia: o cinema de época. Não à toa, O Discurso do Rei, de 2010, recebeu 12 indicações ao Oscar, vencendo em quatro delas (incluindo melhor filme e diretor); Os Miseráveis, adaptação do romance francês escrito por Victor Hugo, foi lançado dois anos depois e concorreu em oito categorias, faturando três prêmios. Em suma, Hooper sabe fazer bem aquilo que se propõe a fazer. A Garota Dinamarquesa, seu novo longa-metragem, provavelmente não será muito diferente de seus anteriores: um filme caprichado com ótimas chances de despontar nas premiações da temporada.

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Inspirado no livro de David Ebershoff, A Garota Dinamarquesa se passa na década de 20, na cidade de Copenhagen. O filme é a cinebiografia de Lili Elbe, nascido Einar Mogens Wegener, um artista plástico dinamarquês que teria sido a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. A trama foca o relacionamento do artista com sua esposa Gerda e sua descoberta como mulher.

Fazendo jus aos demais títulos de sua filmografia, Hooper confere bastante sensibilidade à história e, principalmente, um esmero técnico inigualável. Brilhantemente fotografado por Danny Cohen, A Garota Dinamarquesa  é uma aula de cinema – desde a direção de arte impecável (que recria com maestria o período e nos faz mergulhar na narrativa) à trilha poética de Alexandre Desplat. Para além disso, os trabalhos de maquiagem e o figurino de Paco Delgado (parceiro de Hooper em Os Miseráveis) agregam muito à produção.

No entanto, A Garota Dinamarquesa pertence inteiramente à sua dupla de protagonistas. Eddie Redmayne se entrega com propriedade à construção (mais uma vez) de um personagem difícil, que passa por inúmeras oscilações no decorrer da fita. De uma sutileza ímpar, sua atuação é tão genial quanto em A Teoria de Tudo (filme que lhe deu, precocemente talvez, o Oscar de melhor ator em 2015 – o que me deixa em dúvidas sobre a categoria neste ano). Em determinado momento, não enxergamos mais Einar, apenas Lili. No entanto, é Alicia Vikander quem mais surpreende: apesar de não ser necessariamente “bela”, ela consegue roubar a cena em alguns instantes. É ela quem enxerga pela primeira vez a feminilidade do esposo e é nela que Einar busca a força para sua transformação – o que não lhe deixa de ser doloroso, pois enquanto tem de ajudar o parceiro, ela deve conviver com a solidão de perder o homem que ama.

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Humano, A Garota Dinamarquesa é um filme que talvez não consiga emocionar por completo, uma vez que a condição de Lili para com o mundo à sua volta é explorada de forma um tanto superficial. Todavia, em tempos em que a comunidade LGBT luta com intensidade contra o preconceito, é relevante a produção de obras como esta, que trazem à tona questões que devem ser discutidas – e o cinema está aí para fazer este papel social. A Garota Dinamarquesa é cinematograficamente arrebatador e socialmente interessante – perde apenas na ausência de ousadia, que provavelmente geraria um debate maior e mais profundo sobre o tema. Até mesmo porque, infelizmente, os tempos mudam mas muitos pensamentos retrógrados ainda permanecem, né?

Cinema Arte Versus Cinema Entretenimento: A Análise de um Filme

Algumas pessoas já me questionaram quais são os critérios que eu levo em consideração quando avalio um filme. Confesso que essa tarefa de “analisar um filme”, para mim, é um pouco constrangedora até. Cinema é uma arte tão rica e complexa que me sinto deveras intimidado ao ter que atribuir uma nota a uma determinada produção ou classificar o trabalho de um cineasta. Mas eu acredito firmemente nisso: toda crítica está embasada em dois referenciais.

Tenho uma teoria (se é que é uma teoria, ou se é que alguém já não falou sobre isso antes) segundo a qual há duas formas básicas de se analisar um longa-metragem. Podemos analisar um filme como obra de arte e como obra de entretenimento. São duas diretrizes que podem parecer semelhantes, mas são bem distintas e cruciais (ao menos para mim) para se dizer se um filme é bom ou não. Por esta razão, esses dois aspectos devem ser manipulados separadamente quando estamos analisando uma produção – ainda que seja uma missão difícil, já que em muitas ocasiões somos levados mais por um aspecto do que pelo outro.

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Quando digo que é possível analisar um filme como “obra de arte”, me refiro aqui, sobretudo, aos elementos técnicos (e teóricos, por que não dizer?) da própria arte do cinema. Quando assisto a um filme como “arte”, eu estou avaliando aqui as qualidades técnicas que tornam o filme BOM ou RUIM, do ponto de vista de cinema. Aqui, são analisados aspectos como roteiro, figurino, fotografia, edição, trilha sonora e outros pontos que são essenciais na produção. Por este motivo, é comum (ou pelo menos saudável) que aja um consenso único sobre o longa. Em outras palavras, a técnica é boa ou não. Aqui, ao menos para quem entende de cinema, o veredito é quase uma unanimidade.

Por outro lado, analisar um filme como produto de “entretenimento” é uma tarefa muito mais subjetiva e pessoal. Aqui, eu simplesmente aponto uma pergunta essencial que deve ser respondida: esse filme me agrada? Ponto, simples assim. Aqui, é onde existe (provavelmente) a interação imediata com o público: o quanto esse trabalho me agrada, o quanto essa história mexe comigo e me transforma. Logo, é comum que as opiniões sejam divergentes – e não há certo ou errado. Há argumentos, visões e sentimentos que se manifestam de acordo com o momento de cada espectador.

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Pode parecer um pouco confuso a princípio, mas repare como é comum nas premiações de cinema o público sempre questionar os grandes vencedores. Isso geralmente acontece porque as organizações de cinema geralmente costumam avaliar suas produções pelo aspecto técnico – e pouco sobre a base do entretenimento. Eu não encontro um trabalho recente mais perfeito para exemplificar esta teoria do que The King’s Speech (O Discurso do Rei, 2010). O filme de Tom Hooper é, tecnicamente, perfeito. Tudo se encaixa com uma maestria. Da trilha sonora bem executada às atuações de um elenco inspirado, tudo contribui para fazer um produção excelente – que faturou o prêmio Oscar de melhor filme naquele ano. No entanto, The King’s Speech é um filme que pouco provoca o espectador, que pouco o envolve e pouco se faz envolver. Ganhou a estatueta desbancando, entre outros, Black Swan – uma obra muito mais envolvente e popular. Black Swan é um clássico moderno, enquanto o longa de Tom Hooper é apático e pouca gente reconhece – apesar do excelente apelo técnico.

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Essa teoria fica muito clara ainda quando analisamos produções mais populares. Geralmente, as grandes premiações costumam esnobar filmes com maior apelo popular. O Oscar de melhor ator passou longe das mãos de Johnny Depp quando, em 2004, o ator recebeu uma indicação ao prêmio de melhor ator por seu icônico Jack Sparrow. Não vou questionar se merecia ou não tirar o prêmio de Sean Penn (por sua atuação em Mystic River), mas o ator fez um trabalho notável. Você, leitor, se lembra do personagem de Penn?

Quando falamos ainda de cinema como entretenimento, mais uma pergunta se faz necessária: qual é o propósito do filme? Afinal, analisar uma comédia é totalmente diferente do que analisar um drama, por exemplo. Cada película tem um propósito: fazer rir, fazer chorar, contar uma história, assustar, enfim… Se uma comédia me faz rir, eu digo sem problemas que é uma boa comédia e cumpriu seu propósito. Ponto. Não vou aqui analisar se a fotografia estava boa ou se a edição foi perfeita – não é o propósito do filme. Cumpriu seu papel? Beleza, é isso que importa. A técnica funcionou? Aí é outra história. Exemplo recente é o longa de Robert Rodriguez Machete. O filme é tão ruim que chega a doer nos olhos. Mas é exatamente por isso (por ser tão ruim em praticamente todos os aspectos técnicos – obviamente isso é proposital) que a história é uma delícia de se assistir, porque não há nenhum compromisso com a arte – simplesmente vamos chegar na tela e botar pra f****.

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Como mencionei, essas duas análises não são as mesmas e costumam gerar resultados diferentes de crítico para crítico. Este dia me peguei discutindo com um amigo do site sobre um filme de Gus Van Sant que eu particularmente acho chatíssimo – enquanto meu colega tecia elogios a uma história que sai do nada e chega a lugar nenhum. Normal. Com pontos de vista distintos, nada mais natural que as opiniões sejam distintas também. Porém, acho que o trabalho de uma boa crítica é propiciar ao espectador a oportunidade de se observar os pontos fracos e fortes dos aspectos técnicos de uma produção e proporcionar, ainda, um momento de reflexão sobre o quanto aquele produto mexeu com ele. Tarefa difícil? Sempre, afinal inconsciente acabamos nos deixando envolver por um ou outro aspecto que favoreça nossas opiniões. O importante é deixar que o espectador seja livre para criar suas próprias impressões sobre aquele trabalho, sem levantar debates infundados quanto à qualidade de uma obra e, principalmente, sobre a opinião de quem assiste.

“Os Miseráveis”: Perdido Dentro de Sua Grandeza

Antes de mais nada, uma pergunta aqui se faz indispensável: você gosta de musicais? Se sua resposta for negativa, meu conselho é que você passe longe do cinema enquanto Os Miseráveis estiver em cartaz. Se a resposta for positiva, no entanto, há boas chances de você se encantar com a nova versão cinematográfica da obra do francês Victor Hugo.

Os Miseráveis é uma adaptação livre da obra homônima lançada em 1862. É uma das leituras mais influentes do século XIX e certamente a maior realização de Victor Hugo. Ao longo dos anos, a obra teve diversas adaptações no teatro, cinema e TV – até ser idealizada pelo diretor Tom Hooper e ganhar sua mais recente versão hollywoodiana. Hooper já havia, não muito longe, mostrado todo seu talento como diretor em O Discurso do Rei, em 2011. Com Os Miseráveis, o diretor (que teria recusado o convite para dirigir o provável blockbuster Homem de Ferro 3)  mostra que está no caminho certo para se tornar um dos mais elogiados artistas de seu meio.

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Há poucos diretores que conseguem extrair o máximo da atuação de seu elenco. Quentin Tarantino, por exemplo, recentemente conseguiu fazer com que Leonardo DiCaprio (que há anos não fazia um personagem realmente bom) surpreendesse o público com seu papel em Django Livre. Polanski, com seu Deus da Carnificina, criou um filme cuja força está nas atuações de um elenco de estrelas – de Jodie Foster a Kate Winslet e Christoph Waltz. Hooper já havia feito isso com O Discurso do Rei – não à toa, Colin Firth levou o Oscar de melhor ator, enquanto Helena Bonham Carter e Geoffrey Rush ganharam indicações a melhores coadjuvantes. Em Os Miseráveis, Hooper repete sua façanha em um filme cujo maior mérito são as atuações de seu elenco – ou parte dele.

Não que Os Miseráveis seja, de resto, um desastre. Muito longe disso. O que acontece é que ao longo de mais de duas horas, é difícil aturar tanta cantoria – mesmo que você ame o gênero. Chicago, de Rob Marshall, conseguiu faturou o Oscar de melhor filme em 2002 com um musical excelente – que mescla as canções com cenas comuns, onde os personagens apenas dialogam. Em Os Miseráveis, não há trégua: toda história é contada musicalmente o que torna o filme, inevitavelmente, longo e cansativo – ainda que tenha muitas qualidades.

6A trama é ambientada na França da primeira metade do século XIX e, basicamente, pode ser dividido em duas partes. Na primeira, conhecemos Jean Valjean, papel de Hugh Jackman, um homem preso por roubar um pão que ganha sua liberdade condicional mas ainda é impedido de levar uma vida decente. Sem perspectivas, ele foge para outra cidade e assume uma nova personalidade, se tornando até mesmo o prefeito local. Na segunda parte, Valjean passa a ser novamente foragido da lei após ser localizado por seu antigo inspetor, interpretado por Russell Crowe. Ele foge com a órfã Cosette, personagem insossa de Amanda Seyfried, que Valjean cria como filha desde que a mãe da menina, Fantine, morreu nas ruas.

Com uma história desse porte, é de esperar que toda a produção seja digna da obra do grande Victor Hugo. De fato, Tom Hooper não economizou em cenários e figurinos, criando uma atmosfera impecável – isso explica as indicações no Oscar aos prêmios de melhor figurino, design de produção e maquiagem. Tudo é muito bem feito, muito bem recriado e a câmera de Hooper ajuda ainda mais a acentuar esses detalhes, o que faz com que o filme ganhe pontos pela reconstituição da época. Além disso, Hooper optou por fazer seus atores mostrarem seus dotes vocais ali mesmo, na frente das câmeras, dispensando o uso do famoso play-back. Isso rendeu bons momentos ao longa e tornou a experiência muito mais agradável (quem sabe faz ao vivo, não é?). Mas o que se sobressai ainda, positiva ou negativamente, é o elenco dirigido por Hooper.

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Hugh Jackman como Valjean é um alívio a cada cena em que aparece. Com uma boa voz, ele consegue quase que carregar o filme todo nas costas. Sua atuação nas cenas iniciais, quando é hostilizado pelo personagem de Crowe, é de sensibilizar o coração. Anne Hathaway (ahhh Anne) consegue criar uma Fantine encantadora. A cena em que canta I Dreamed a Dream é a típica cena com cara de Oscar e enche os olhos dos espectadores – não obstante, Anne está indicada ao Oscar de Melhor atriz coadjuvante e está praticamente com as mãos na estatueta.

Na outra ponta, o restante do elenco parece estar meio perdido. É o caso de Russell Crowe – visivelmente incomodado com seu personagem Javert. É nítido que Crowe não se encaixa no papel – apesar da cara carrancuda e do porte austero, além do fraco desempenho vocal do ator, diga-se de passagem. Amanda Seyfried é opaca e ao lado de Eddie Redmayne protagoniza as cenas mais piegas de todo o filme. Esta aí um casal que não faz diferença na trama, pois serve apenas de pretexto para que outras ações mais interessantes se desenvolvam. Em meio a tantas desgraças, surgem ainda Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen, como um casal de picaretas que tentam dar um ar cômico a uma narrativa recheada de tristezas. Apesar do talento de ambos, pouco se consegue.

4Outro porém, obviamente, é o fato do filme ser rodado em inglês – afinal, trata-se de um momento histórico tão francês que realmente soa estranho alguns personagens com um evidente sotaque britânico gritando “Vive La France!”. Não que isso estrague o resultado final – até porque é cinema e aqui tudo pode acontecer, certo? Mas há quem se incomode, por exemplo, com Hathaway com seu “bonjour” tão, tão… ah deixa pra lá.  Além disso, algumas cenas são cortadas tão bruscamente que a sensação que se tem é de que alguns eventos são tratados superficialmente, enquanto outros são exaustivos.

Com uma boa bilheteria e críticas mistas, Os Miseráveis acaba tropeçando naquilo que deveria lhe salvar: sua grandeza. O ar requintado de grande obra de arte que exala durante toda sua exibição (assim como o porte elegante de uma grande produção) não funciona tão bem e faz com que o espectador ache tudo um pouco confuso e exagerado. No fim, quando a bandeira francesa é erguida (por atores norte-americanos, obviamente), o público suspira aliviado. Tom Hooper consegue, assim como em O Discurso do Rei, criar um filme que é muito bom para ser admirado, mas que se perde dentro de sua própria grandeza.