“Indomável Sonhadora”: Uma Fábula Contemporânea

Poucos são os diretores que conseguem, logo em sua estréia, alcançar sucesso de crítica e público. Sam Mendes, por exemplo, ganhou inúmeros elogios e prêmios por seu Beleza Americana, de 1999 (levando para casa 5 Oscar, entre eles melhor filme, melhor diretor e melhor ator para Kevin Spacey) e desde, então, é um forte nome em Hollywood (ele dirigiu recentemente 007 – Operação Skyfall, recebendo muitas críticas favoráveis). Benh Zeitlin consegue quase a mesma façanha com seu Indomável Sonhadora, uma fábula moderna para se admirar e aplaudir de pé.

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Benh já havia sido elogiado por seu premiado curta Glory at Sea, de 2008. Na obra, o diretor acompanhava a rotina dos moradores de alguns pontos do estado de Louisiana, EUA, após a passagem do furacão Katrina, que devastou bairros, colocando-os debaixo de água. Indomável Sonhadora segue, basicamente, a mesma idéia: aqui, acompanhamos os moradores da “Banheira”, uma ilha no meio de uma barragem que fica submersa após a passagem do furacão. Apesar do local ser fictício, ele é claramente inspirado em uma ilha do Estado que a cada dia que passa fica mais transbordada devido às catástrofes locais.

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Assim como os moradores da ilha real, os habitantes da Banheira também se recusam a sair de suas casas. Um desses é Wink, um doente cardíaco e pai da pequena Hushpuppy, a protagonista da história. Ao longo do filme, o pai instrui a garota a sobreviver dentro do cenário caótico em que vivem (afinal, o pai tem ciência de sua doença que, mais cedo ou mais tarde, o levará à morte). Vivendo quase como animais (entre o trailer e a casa destruídos), ambos vivem uma relação ilógica e, muitas vezes, sem sentido, dentro de um ambiente marcado por crendices e imaginações, que são, na verdade, a única forma de resistir à pobreza e precariedade do local.

As reações de Wink e Huchpuppy são inesperadas – como as reações de todos os moradores da região. A relação entre Wink e sua filha é intensa: mesmo nos momentos em que deseja ser carinhoso, o pai (devido às próprias dificuldades da vida) só consegue expor seus sentimentos com brutalidade. Sua forma de amar e expressar seu amor pressupõe preparar sua filha às atrocidades da vida, transformando-a em um ser capaz de vencer as adversidades que ainda estão por vir. A relação dos dois é conflitante, ora de independência, ora carinho e compreensão (ainda que bruto).

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É nessa fábula moderna que surge a figura de Quvenzhané Wallis, a garota que tinha apenas 6 anos quando gravou o longa. Todo o filme é rodado assumindo-se o seu ponto de vista, expondo toda a percepção infantil sobre a realidade que a assola – realidade que, ainda que exagerada em alguns momentos, cria um filme altamente sensorial, onde o melhor a ser feito é abandonar as convenções e as lógicas e se entregar às emoções. Não apenas Wallis atrai os olhares, mas também o ator Dwight Henry, o pai da garota. Ambos são jovens atores de primeira viagem, desconhecidos e sem nenhum treinamento formal – assim como boa parte do elenco.

No cenário arrasado, a pequena Hushpuppy evoca em suas fantasias a presença de auroques (uma espécia já extinta de bovinos), que ajuda a criar toda a fantasia do filme, transformando-o em uma bela fábula de relacionamento e sobrevivência. Com um orçamento consideravelmente baixo, Benh recriou esses bichos através de engenhocas antigas do cinema ao invés de recorrer a efeitos especiais mirabolantes – e isso acentua ainda mais a precariedade do espaço e, ao mesmo tempo, a magia do filme.

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Concorrendo a melhor filme, melhor direção, melhor atriz principal (Wallis é a mais jovem concorrente nessa categoria) e melhor roteiro adaptado (que é assinado pelo próprio diretor em parceria com a autora Lucy Alibar), Indomável Sonhadora é, de longe, um dos melhores filmes que concorrem ao principal prêmio do Oscar este ano. Obviamente, as chances de sair  de lá com alguma estatueta são mínimas, mas servem de incentivo à carreira de seus artistas, especialmente para a pequena Wallis. Não que isso diminua o filme, que é uma fábula contemporânea sobre relacionamentos e como nós somos produtos do nosso meio. E também por que não dizer que é uma crítica ao abandono e descaso das autoridades diante dos problemas que assolam nossa sociedade? Benh Zeitlin consegue com Indomável Sonhadora fazer com que o espectador levante suas próprias – e inúmeras – interpretações.

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