Jude Law e Seu Personagem Infinitamente Maior que “A Recompensa”

Jude Law é o tipo de artista que sempre sofreu com o fato de ser bonito demais – e, talvez por isso, nunca foi muito levado a sério (o que é uma injustiça, se considerarmos o talento do rapaz diante das câmeras). O que acontece hoje é que, na casa dos 40 anos, o ator perdeu boa parte de sua sedução: ganhou uns quilos, alguns indícios de calvície e um aspecto mais “maduro” (bem diferente da jovem beleza britânica que todos admiramos). No entanto, os anos não foram totalmente cruéis com Law que comprova com A Recompensa que ainda mantém certo charme e, principalmente, talento suficiente para se distanciar da imagem de galã e se aproximar do status de grande ator (algo merecido desde sempre, mas que foi ofuscado por seu belo rosto).

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A Recompensa não é um filme de ação, aventura, drama, comédia ou qualquer outro gênero cinematográfico. É apenas a história de um único personagem. No caso, trata-se Dom Hemingway, um famoso arrombador de cofres que após 12 anos de prisão, é solto e busca sua recompensa por não ter relatado seus comparsas. Nessa empreitada, entre altos e baixos, Dom tenta também se reconciliar com a filha – já que perdera sua mulher com câncer enquanto estava na cadeia.

Apesar de o título brasileiro ser condizente com a proposta do filme, o título original (Dom Hemingway) é o que mais reflete a necessidade de autoafirmação do personagem principal. Dom é um sujeito egocêntrico, explosivo (por vezes, violento) e sem o menor tipo de refinamento – mas com estima suficiente para se autoproclamar “o melhor arrombador de cofres de Londres”. Isso fica claro já na cena inicial do longa, um monólogo de três minutos, onde Hemingway recita uma verdadeira ode a seu pênis (comparando-o a obras de arte de Picasso a Renoir) enquanto recebe sexo oral de um homem. Talvez essa arrogância e prepotência da personagem se deve ao fato de que Dom parece não se dar conta de que, após mais de uma década enclausurado, os tempos mudaram. Não existe mais ética entre criminosos, cumplicidade ou mesmo gratidão. Esta é uma realidade com a qual Hemingway deve se adaptar, mesmo que não consiga ter muito sucesso.

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Law é a escolha perfeita no papel principal. É, talvez, a melhor atuação de sua carreira. Insano, exagerado e verborrágico, o ator está totalmente de acordo com a proposta do filme, tendo controle total das cenas e conduzindo muito bem a trama, enquanto seduz a todo o público com um personagem politicamente incorreto. Richard E. Grant também tem um ótimo desempenho no papel de Dickie, o companheiro de Dom e totalmente oposto ao personagem título – seja em ação ou temperamento, o que traz justamente as melhores linhas cômicas do longa. São essas atuações que dominam o filme e impedem que A Recompensa seja um fiasco completo.

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Não que seja totalmente ruim. A Recompensa possui uma bela fotografia (arquitetada por Giles Nuttgens) e ótima trilha sonora (ainda que não muito bem utilizada em alguns momentos, pois surgem ou desaparecem cedo demais), que conta com músicas do Motörhead, Pixies e outros artistas, que deixam o filme muito mais empolgante. O problema maior fica evidente na falta de estrutura do roteiro (inteligente, mas mal trabalhado), que perde sua consistência principalmente a partir de sua segunda parte, quando foca a narrativa na tentativa de Dom em se aproximar de sua filha – alem da mudança drástica e repentina entre esses dois momentos. Ou seja, toda a constituição visual suficientemente elaborada é prejudicada por uma direção (de Richard Shepard) sem argumento, fazendo com que A Recompensa seja ofuscado pela atuação magnânima de Law – o que nos faz crer que, em mãos mais experientes, a produção ficasse infinitamente melhor. Imagine, por exemplo, um personagem como Dom nas mãos de um Tarantino e tente enxergar a grandiosidade a qual o filme poderia chegar. A Recompensa é um longa que promete muito, mas não cumpre totalmente o esperado e, pior do que isso: é uma produção onde seu protagonista é maior do que o próprio filme.

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