Bem Vindos ao Mundo Mágico de Wes Anderson e “O Grande Hotel Budapeste”

Wes Anderson é um diretor exótico – e as opiniões sobre ele e sua obra são ambíguas. Há quem goste e há quem não goste, simples assim. Porém, mesmo aqueles que não se identificam com o estilo tão particular do cineasta são capazes de admitir que o homem por trás de Moonrise Kingdom e O Fantástico Sr. Raposo sabe como contar uma história. Com O Grande Hotel Budapeste, seu novo longa, Anderson só comprova esta certeza – e mais do que isso: mostra que tem capacidade para expor sua visão cinematográfica original com total liberdade, realizando, provavelmente, o melhor trabalho de sua filmografia até então.

02

O Grande Hotel Budapeste é ambientado na Europa da década de 30, em um país fictício conhecido como República de Zubrowka. À beira da guerra, a narrativa principal é focada na figura do conciérge do luxuoso hotel que dá nome ao título, o caprichoso Gustave, figura simpática, adorado por seus empregados e admirado pelas clientes do local. Em determinado momento da película, Gustave é acusado do assassinato de uma de suas hóspedes preferidas (com quem mantinha um relacionamento) que, em seu aguardado testamento, deixa a maior parte de sua fortuna para o conciérge, revoltando toda a família da falecida. A partir daí, começa a luta de Gustave para provar sua inocência e descobrir o verdadeiro culpado do crime, recebendo a ajuda de Zero Moustafa, mensageiro do hotel com quem Gustave desenvolve uma bela relação de amizade.

01

Todo o universo lúdico de Anderson se desenvolve sobre um design de produção sem defeitos, assim como todos os demais aspectos técnicos do filme. A fotografia em tom nostálgico aproveita muito bem os já conhecidos travellings de câmera do diretor, que passa pelas paredes, objetos, figurinos e personagens de forma perfeita e simétrica. Os cenários irregulares e coloridos parecem casas de bonecas e dão um tom quase de fábula à história. Até mesmo os figurinos extravagantes (que acentuam o humor da narrativa) e a maquiagem contribuem na construção da trama, embalada pela excelente trilha de Alexandre Desplat – tão encantadora quanto às imagens que acompanha e que soa perfeita em todos os instantes.

Quanto ao elenco, é inegável o fato de que temos aqui uma reunião de astros do mais alto gabarito. Ralph Fiennes na pele de Gustave é sensacional e transmite um carisma sem igual através de seu personagem, provavelmente em uma de suas melhores atuações no cinema. Chega quase a ser ultrajante pensarmos que Johnny Depp foi cotado para o papel, pois Fiennes é o próprio Gustave. Outras boas surpresas ficam por conta do estreante Tony Revolori, como o fiel escudeiro do personagem principal, e também do oscarizado Adrien Brody, como o filho da hóspede assassinada, um dos vilões da trama que tenta a todo custo receber a herança da mãe. Outros nomes como Jude Law, Edward Norton (como um atrapalhado policial), Mathieu Amalric, Tilda Swinton, Willem Dafoe e Harvey Keitel abrilhantam ainda mais o filme, todos com atuações bastante convincentes.

Com um roteiro primorosamente desenvolvido, O Grande Hotel Budapeste vem colecionando ótimas críticas por onde passa. Com uma direção brilhante, Anderson constrói um universo de seu próprio e fértil imaginário, através de uma trama que encanta por seu tom lúdico. Divertidíssimo do início ao fim, o filme apresenta um humor de excelente bom gosto, até mesmo ingênuo em alguns momentos (nos remetendo quase que instantaneamente ao estilo O Gordo e o Magro), mas com aquele tom de melancolia que é tão presente no restante da obra do cineasta. Com sua receita já conhecida (que inclui o humor ácido, clima descontraído, personagens excêntricos, fotografia primorosa), Wes Anderson faz de O Grande Hotel Budapeste uma fábula sobre a amizade em tempos difíceis, que se torna mais forte à medida que a esperança se renova. O Grande Hotel Budapeste é a prova definitiva de que ainda há espaço para bons filmes e de que a comédia no cinema pode ser inteligente e abordada com muito refinamento e classe.

Jude Law e Seu Personagem Infinitamente Maior que “A Recompensa”

Jude Law é o tipo de artista que sempre sofreu com o fato de ser bonito demais – e, talvez por isso, nunca foi muito levado a sério (o que é uma injustiça, se considerarmos o talento do rapaz diante das câmeras). O que acontece hoje é que, na casa dos 40 anos, o ator perdeu boa parte de sua sedução: ganhou uns quilos, alguns indícios de calvície e um aspecto mais “maduro” (bem diferente da jovem beleza britânica que todos admiramos). No entanto, os anos não foram totalmente cruéis com Law que comprova com A Recompensa que ainda mantém certo charme e, principalmente, talento suficiente para se distanciar da imagem de galã e se aproximar do status de grande ator (algo merecido desde sempre, mas que foi ofuscado por seu belo rosto).

03

A Recompensa não é um filme de ação, aventura, drama, comédia ou qualquer outro gênero cinematográfico. É apenas a história de um único personagem. No caso, trata-se Dom Hemingway, um famoso arrombador de cofres que após 12 anos de prisão, é solto e busca sua recompensa por não ter relatado seus comparsas. Nessa empreitada, entre altos e baixos, Dom tenta também se reconciliar com a filha – já que perdera sua mulher com câncer enquanto estava na cadeia.

Apesar de o título brasileiro ser condizente com a proposta do filme, o título original (Dom Hemingway) é o que mais reflete a necessidade de autoafirmação do personagem principal. Dom é um sujeito egocêntrico, explosivo (por vezes, violento) e sem o menor tipo de refinamento – mas com estima suficiente para se autoproclamar “o melhor arrombador de cofres de Londres”. Isso fica claro já na cena inicial do longa, um monólogo de três minutos, onde Hemingway recita uma verdadeira ode a seu pênis (comparando-o a obras de arte de Picasso a Renoir) enquanto recebe sexo oral de um homem. Talvez essa arrogância e prepotência da personagem se deve ao fato de que Dom parece não se dar conta de que, após mais de uma década enclausurado, os tempos mudaram. Não existe mais ética entre criminosos, cumplicidade ou mesmo gratidão. Esta é uma realidade com a qual Hemingway deve se adaptar, mesmo que não consiga ter muito sucesso.

01

Law é a escolha perfeita no papel principal. É, talvez, a melhor atuação de sua carreira. Insano, exagerado e verborrágico, o ator está totalmente de acordo com a proposta do filme, tendo controle total das cenas e conduzindo muito bem a trama, enquanto seduz a todo o público com um personagem politicamente incorreto. Richard E. Grant também tem um ótimo desempenho no papel de Dickie, o companheiro de Dom e totalmente oposto ao personagem título – seja em ação ou temperamento, o que traz justamente as melhores linhas cômicas do longa. São essas atuações que dominam o filme e impedem que A Recompensa seja um fiasco completo.

02

Não que seja totalmente ruim. A Recompensa possui uma bela fotografia (arquitetada por Giles Nuttgens) e ótima trilha sonora (ainda que não muito bem utilizada em alguns momentos, pois surgem ou desaparecem cedo demais), que conta com músicas do Motörhead, Pixies e outros artistas, que deixam o filme muito mais empolgante. O problema maior fica evidente na falta de estrutura do roteiro (inteligente, mas mal trabalhado), que perde sua consistência principalmente a partir de sua segunda parte, quando foca a narrativa na tentativa de Dom em se aproximar de sua filha – alem da mudança drástica e repentina entre esses dois momentos. Ou seja, toda a constituição visual suficientemente elaborada é prejudicada por uma direção (de Richard Shepard) sem argumento, fazendo com que A Recompensa seja ofuscado pela atuação magnânima de Law – o que nos faz crer que, em mãos mais experientes, a produção ficasse infinitamente melhor. Imagine, por exemplo, um personagem como Dom nas mãos de um Tarantino e tente enxergar a grandiosidade a qual o filme poderia chegar. A Recompensa é um longa que promete muito, mas não cumpre totalmente o esperado e, pior do que isso: é uma produção onde seu protagonista é maior do que o próprio filme.

Closer – Perto Demais

Closer: Perto Demais foi vendido como “uma história de amor madura”. Baseada na peça teatral de Patrick Marber, talvez esta seja a melhor definição do que o filme realmente é: uma trama de amor moderna – e, como sugere o título, uma olhada muito mais próxima nas fraquezas e problemáticas das relações humanas no nosso tempo.

A narrativa segue os encontros e desencontros de quatro personagens. Dan, um jornalista fracassado, cruza casualmente com a striper Alice, recém-chega dos EUA, em meio à agitação da capital britânica. Passado um tempo, Dan conhece Ana em uma sessão fotográfica e passa a se relacionar com a artista. Também de forma casual (através da troca de identidades em um chat na internet), Ana se envolve com o médico Larry – formando uma espécie de casal “perfeito”: ambos bem sucedidos em suas profissões, é o casal que, aparentemente, vive um conto de fadas. No entanto, quando o envolvimento entre Ana e Dan é descoberto por Larry, ocorre uma espécie de troca de casais – formando o “retângulo” amoroso central.

02

Sim, confesso que explicando assim, tudo pode parecer um pouco confuso – mas não o é. Closer é direto, despudorado, bem resolvido – assim como suas personagens. Isso se reflete em um roteiro afiado, com diálogos abertos, marcantes e, por muitas vezes, descarados. Houve, na época de lançamento, quem classificasse o filme como imoral (apesar da ausência de cenas de sexo ou nudez). Talvez essa classificação tenha sido gerada pela forma sincera (por muitas vezes vulgar e violenta) como as personagens se relacionam com seus pares – e até mesmo consigo mesmas.

Closer é um desenrolar de traições, relações sexuais e relacionamentos entre os quatro personagens. Entre idas e vindas, eles se amam e se odeiam; se traem, mentem uns para os outros, exibindo personalidades por vezes amorais. Em um determinado momento, Ana joga na cara de Dan que “ele não conhece nada sobre o amor porque ele não entende compromisso”. Esse desenrolar frenético se evidencia no roteiro, por vezes, atropelado: ocorrem saltos cronológicos na narrativa (meses e até anos) que evidenciam o desequilíbrio dessas relações e tornam o filme, sob certo aspecto, circular: termina exatamente do ponto onde começou. É como se não houvesse amor verdadeiro; apenas uma projeção que jamais será atendida.

04

Neste emaranhado de relações, é o elenco que faz toda a diferença. Jude Law, que parece estar ligado no modo automático, é o que menos causa frisson, mas faz um trabalho eficiente. Julia Roberts, mais serena do que nunca, traz uma atuação segura que se adequa bem à sua personagem, assim como Clive Owen, que faz um tipo beirando a paranoia que é o retrato de muitos homens que encontramos por aí. No entanto, é Natalie Portman quem realmente brilha (muito antes de Cisne Negro – pelo qual faturou o Oscar de Melhor Atriz). Na pele de Alice, Natalie é enigmática, sensual e controversa – arriscaria dizer, uma das melhores antagonistas femininas do cinema.

01

Mike Nichols, com uma direção precisa, lança diversos planos na cara de seus atores, o que realça o sofrimento de suas protagonistas – como na cena do ensaio fotográfico de Alice. Com uma fotografia moderna, o filme tem poucas tomadas externas – o que fortalece o clima de intimidade que estaremos invadindo. A trilha sonora, que passeia de Bebel Gilberto com “Samba da Benção” à belíssima The Blower’s Daughter” de Damian Rice, acentua ainda mais o clima intimista do longa, nos deixando mais a vontade para invadir a privacidade de suas personagens – talvez porque ela esteja muito próxima a todos nós.

Com uma visão pessimista em diversos momentos, Closer lança um olhar sobre a problemática dos relacionamentos humanos, nos mostrando bem de perto as fraquezas da natureza humana. Serve para explanar as contradições das relações, expondo a impotência do homem diante daquilo que sente – e daquilo que deseja. Longe dos blockbusters norte-americanos (com suas tramas recheadas de mocinhos e vilões), Closer é um filme próximo à vida real, onde os personagens não são julgados por serem bons ou maus – ainda que você, em algum momento, possa sentir repulsa às suas ações. Diferente das histórias de amor hollywoodianas convencionais, Closer tem um grande mérito: sua imprevisibilidade e, assim como o amor, é um filme onde o espectador mergulha de cabeça – sem se preocupar com o que está por vir.