Dupla de Comediantes Arranca Risos em “Perdidos em Paris”

O sonho de Fiona desde criança sempre fora visitar Paris. Bibliotecária em uma pequena e charmosa cidade canadense, ela tem a chance de concretizar seu desejo de infância ao receber uma misteriosa carta de socorro de sua tia Martha, uma senhora de 93 anos que vive na capital francesa. A sobrinha pega o primeiro voo para Paris, mas uma série de imprevistos acontecem, fazendo com que seu caminho cruze com Dom, um sem-teto camarada que não vai larga-la mais.

O casal Fiona Gordon e Dominique Abel assinam este que é, provavelmente, o melhor filme da dupla até agora: Perdidos em Paris. Fiona é um tipo simpático, com seus cabelos ruivos e óculos retrô,  quase uma espécie de Tilda Swinton travestida de algum personagem de Wes Anderson (nos remetemos, inclusive, ao estilo deste cineasta já na primeira cena da atriz). Dominique, por sua vez, é um comediante nato não apenas nas ideias mas no físico, praticamente uma mistura de Buster Keaton e Charles Chaplin, com um toque de clown francês, dado a poesia de seu humor. Seus personagens são carismáticos, divertidos e inocentes, sem parecer “bobos” – e isso torna Perdidos em Paris um filme deliciosamente agradável de se acompanhar.

Perdidos em Paris mantem seu ritmo narrativo sem perder o fôlego, com piadas e outras saídas humorísticas que, apesar de algumas já batidas, produzem um efeito cômico magnífico. Poucas comédias atuais conseguem ser realmente engraçadas sem sair do foco. Com uma paleta colorida, uma fotografia moderna e uma trilha sonora condizente com a proposta (há até mesmo alguns números musicais que homenageiam as comédias mudas clássicas de outrora), Perdidos em Paris é ainda o último trabalho de Emmanuelle Riva nos cinemas, antes de seu falecimento no início do ano. Riva, aliás, é extraordinária na composição de seu tipo, a velhinha atrapalhada que vaga perdida pelas ruas da cidade, fugindo do asilo. Entre encontros e desencontros (e muitas confusões), estas pessoas desfilam por uma Paris cheia de vida, cor e esperança, assim como a vida deveria ser. Perdidos em Paris é cativante do início ao fim – e por isso mesmo imperdível.

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Bem Vindos ao Mundo Mágico de Wes Anderson e “O Grande Hotel Budapeste”

Wes Anderson é um diretor exótico – e as opiniões sobre ele e sua obra são ambíguas. Há quem goste e há quem não goste, simples assim. Porém, mesmo aqueles que não se identificam com o estilo tão particular do cineasta são capazes de admitir que o homem por trás de Moonrise Kingdom e O Fantástico Sr. Raposo sabe como contar uma história. Com O Grande Hotel Budapeste, seu novo longa, Anderson só comprova esta certeza – e mais do que isso: mostra que tem capacidade para expor sua visão cinematográfica original com total liberdade, realizando, provavelmente, o melhor trabalho de sua filmografia até então.

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O Grande Hotel Budapeste é ambientado na Europa da década de 30, em um país fictício conhecido como República de Zubrowka. À beira da guerra, a narrativa principal é focada na figura do conciérge do luxuoso hotel que dá nome ao título, o caprichoso Gustave, figura simpática, adorado por seus empregados e admirado pelas clientes do local. Em determinado momento da película, Gustave é acusado do assassinato de uma de suas hóspedes preferidas (com quem mantinha um relacionamento) que, em seu aguardado testamento, deixa a maior parte de sua fortuna para o conciérge, revoltando toda a família da falecida. A partir daí, começa a luta de Gustave para provar sua inocência e descobrir o verdadeiro culpado do crime, recebendo a ajuda de Zero Moustafa, mensageiro do hotel com quem Gustave desenvolve uma bela relação de amizade.

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Todo o universo lúdico de Anderson se desenvolve sobre um design de produção sem defeitos, assim como todos os demais aspectos técnicos do filme. A fotografia em tom nostálgico aproveita muito bem os já conhecidos travellings de câmera do diretor, que passa pelas paredes, objetos, figurinos e personagens de forma perfeita e simétrica. Os cenários irregulares e coloridos parecem casas de bonecas e dão um tom quase de fábula à história. Até mesmo os figurinos extravagantes (que acentuam o humor da narrativa) e a maquiagem contribuem na construção da trama, embalada pela excelente trilha de Alexandre Desplat – tão encantadora quanto às imagens que acompanha e que soa perfeita em todos os instantes.

Quanto ao elenco, é inegável o fato de que temos aqui uma reunião de astros do mais alto gabarito. Ralph Fiennes na pele de Gustave é sensacional e transmite um carisma sem igual através de seu personagem, provavelmente em uma de suas melhores atuações no cinema. Chega quase a ser ultrajante pensarmos que Johnny Depp foi cotado para o papel, pois Fiennes é o próprio Gustave. Outras boas surpresas ficam por conta do estreante Tony Revolori, como o fiel escudeiro do personagem principal, e também do oscarizado Adrien Brody, como o filho da hóspede assassinada, um dos vilões da trama que tenta a todo custo receber a herança da mãe. Outros nomes como Jude Law, Edward Norton (como um atrapalhado policial), Mathieu Amalric, Tilda Swinton, Willem Dafoe e Harvey Keitel abrilhantam ainda mais o filme, todos com atuações bastante convincentes.

Com um roteiro primorosamente desenvolvido, O Grande Hotel Budapeste vem colecionando ótimas críticas por onde passa. Com uma direção brilhante, Anderson constrói um universo de seu próprio e fértil imaginário, através de uma trama que encanta por seu tom lúdico. Divertidíssimo do início ao fim, o filme apresenta um humor de excelente bom gosto, até mesmo ingênuo em alguns momentos (nos remetendo quase que instantaneamente ao estilo O Gordo e o Magro), mas com aquele tom de melancolia que é tão presente no restante da obra do cineasta. Com sua receita já conhecida (que inclui o humor ácido, clima descontraído, personagens excêntricos, fotografia primorosa), Wes Anderson faz de O Grande Hotel Budapeste uma fábula sobre a amizade em tempos difíceis, que se torna mais forte à medida que a esperança se renova. O Grande Hotel Budapeste é a prova definitiva de que ainda há espaço para bons filmes e de que a comédia no cinema pode ser inteligente e abordada com muito refinamento e classe.