“Terceira Pessoa”: Charmoso, Mas Sem Encanto

Terceira Pessoa é a nova produção de Paul Haggis (do elogiado Crash – No Limite, vencedor do Oscar de melhor filme), um drama que explora três histórias distintas e pessoais que são interligadas entre si. Com um elenco de peso, Terceira Pessoa acompanha essas tramas à medida que elas se aproximam uma da outra, alcançando um desfecho um tanto quanto confuso no todo, mas que individualmente é interessante.

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No primeiro núcleo, passado em Paris, conhecemos um premiado escritor (Liam Neeson), à beira do divórcio, que mantém um caso com uma mulher (Olivia Wilde) que possui um segredo que a impede de se relacionar “sério” com qualquer pessoa; no segundo, acompanhamos um homem (Adrien Brody) que se apaixona por uma desconhecida em Roma e acaba se envolvendo em um perigoso jogo de chantagens com um criminoso local; finalmente, no terceiro eixo, temos uma jovem mãe (Mila Kunis) que luta para refazer sua vida e obter a guarda de seu filho, perdida para o ex-marido famoso (James Franco), na cidade de Nova York.

Apesar de soar despretensiosas, todas essas histórias são bem desenvolvidas e tratam de temas que podem se encaixar na vida de qualquer um. Ao longo do argumento, no entanto, elas perdem um pouco sua conexão e embora o roteiro seja bem trabalhado, o espectador sente falta de uma empatia maior pelas personagens. Alem disso, com mais de duas horas de duração, é difícil para o público continuar a se envolver pela fita, pois o ritmo lento e constante cansa em alguns momentos – apesar do desenrolar da narrativa ser até interessante.

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Talvez devido a seu apelo dramático, Terceira Pessoa consegue promover boas atuações. É bom ver Liam Neeson em um tipo mais introspectivo, quase um galã de meia idade – diferente dos seus personagens de filmes de ação nos últimos anos. Olivia Wilde também convence no papel da inconstante mulher com seu segredo ameaçador, assim como Mila Kunis – que nos brinda com um acesso de fúria meteórico, algo que, particularmente, duvidava que a atriz fosse capaz. Com menos sucesso, Adrien Brody (vencedor do Oscar de melhor ator por O Pianista e reconhecidamente um grande artista) parece meio perdido na película e James Franco é quase insuportável com seu perfil autoritário e arrogante.

Menos sucedido que Crash, Terceira Pessoa está longe de ser uma obra memorável, por mais que tenha condições para isso. Em alguns instantes, é possível até mesmo arriscar uma lembrança de As Horas, de Stephen Daldry (que, para mim, é chato mesmo com suas críticas altamente favoráveis). Talvez o andamento das tramas causam desconforto pela extensão do filme ou as conexões entre elas se esvaneçam durante a projeção – mas é fato que Terceira Pessoa é como aquelas pessoas lindas que se mostram, à primeira vista, intelectualmente interessantes, mas de perto perdem todo o encanto.

Bem Vindos ao Mundo Mágico de Wes Anderson e “O Grande Hotel Budapeste”

Wes Anderson é um diretor exótico – e as opiniões sobre ele e sua obra são ambíguas. Há quem goste e há quem não goste, simples assim. Porém, mesmo aqueles que não se identificam com o estilo tão particular do cineasta são capazes de admitir que o homem por trás de Moonrise Kingdom e O Fantástico Sr. Raposo sabe como contar uma história. Com O Grande Hotel Budapeste, seu novo longa, Anderson só comprova esta certeza – e mais do que isso: mostra que tem capacidade para expor sua visão cinematográfica original com total liberdade, realizando, provavelmente, o melhor trabalho de sua filmografia até então.

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O Grande Hotel Budapeste é ambientado na Europa da década de 30, em um país fictício conhecido como República de Zubrowka. À beira da guerra, a narrativa principal é focada na figura do conciérge do luxuoso hotel que dá nome ao título, o caprichoso Gustave, figura simpática, adorado por seus empregados e admirado pelas clientes do local. Em determinado momento da película, Gustave é acusado do assassinato de uma de suas hóspedes preferidas (com quem mantinha um relacionamento) que, em seu aguardado testamento, deixa a maior parte de sua fortuna para o conciérge, revoltando toda a família da falecida. A partir daí, começa a luta de Gustave para provar sua inocência e descobrir o verdadeiro culpado do crime, recebendo a ajuda de Zero Moustafa, mensageiro do hotel com quem Gustave desenvolve uma bela relação de amizade.

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Todo o universo lúdico de Anderson se desenvolve sobre um design de produção sem defeitos, assim como todos os demais aspectos técnicos do filme. A fotografia em tom nostálgico aproveita muito bem os já conhecidos travellings de câmera do diretor, que passa pelas paredes, objetos, figurinos e personagens de forma perfeita e simétrica. Os cenários irregulares e coloridos parecem casas de bonecas e dão um tom quase de fábula à história. Até mesmo os figurinos extravagantes (que acentuam o humor da narrativa) e a maquiagem contribuem na construção da trama, embalada pela excelente trilha de Alexandre Desplat – tão encantadora quanto às imagens que acompanha e que soa perfeita em todos os instantes.

Quanto ao elenco, é inegável o fato de que temos aqui uma reunião de astros do mais alto gabarito. Ralph Fiennes na pele de Gustave é sensacional e transmite um carisma sem igual através de seu personagem, provavelmente em uma de suas melhores atuações no cinema. Chega quase a ser ultrajante pensarmos que Johnny Depp foi cotado para o papel, pois Fiennes é o próprio Gustave. Outras boas surpresas ficam por conta do estreante Tony Revolori, como o fiel escudeiro do personagem principal, e também do oscarizado Adrien Brody, como o filho da hóspede assassinada, um dos vilões da trama que tenta a todo custo receber a herança da mãe. Outros nomes como Jude Law, Edward Norton (como um atrapalhado policial), Mathieu Amalric, Tilda Swinton, Willem Dafoe e Harvey Keitel abrilhantam ainda mais o filme, todos com atuações bastante convincentes.

Com um roteiro primorosamente desenvolvido, O Grande Hotel Budapeste vem colecionando ótimas críticas por onde passa. Com uma direção brilhante, Anderson constrói um universo de seu próprio e fértil imaginário, através de uma trama que encanta por seu tom lúdico. Divertidíssimo do início ao fim, o filme apresenta um humor de excelente bom gosto, até mesmo ingênuo em alguns momentos (nos remetendo quase que instantaneamente ao estilo O Gordo e o Magro), mas com aquele tom de melancolia que é tão presente no restante da obra do cineasta. Com sua receita já conhecida (que inclui o humor ácido, clima descontraído, personagens excêntricos, fotografia primorosa), Wes Anderson faz de O Grande Hotel Budapeste uma fábula sobre a amizade em tempos difíceis, que se torna mais forte à medida que a esperança se renova. O Grande Hotel Budapeste é a prova definitiva de que ainda há espaço para bons filmes e de que a comédia no cinema pode ser inteligente e abordada com muito refinamento e classe.

Roman Polanski: O Cineasta da Polêmica

Há exatamente oitenta anos, o cinema ganhava um de seus maiores artistas: o cineasta Roman Polanski. Um dos mais prestigiados diretores de todos os tempos, Polanski tem uma bem sucedida carreira marcada por produções de sucessos de público e crítica – e também por suas polêmicas na vida pessoal.

Polanki iniciou sua carreira na Polônia e logo com seu primeiro trabalho, Faca na Água (1962), recebeu sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Desde então, se tornou um dos diretores mais elogiados de sua geração, alternando produções independentes e filmes com maior apelo de público em Hollywood, abordando temas polêmicos e caindo nas graças da crítica especializada.

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Na vida pessoal, Polanski passou por alguns momentos difíceis, como a morte de sua mãe em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial – período em que vivia em constante fuga. No final da década de 60, sua então esposa, a modelo e atriz Sharon Tate (que estava no final da gestação do primeiro filho do casal), foi assassinada pela gangue liderada por Charles Manson (naquele que se tornou um dos mais conhecidos crimes da história norte-americana). Mais tarde, em 1977, o ator assumiu ter estuprado uma adolescente de treze anos – crime pelo qual foi preso em setembro de 2009, no aeroporto de Zurique, quando tentava entrar na Suiça para receber um prêmio por sua obra.

Polêmicas pessoais à parte, o fato inegável é seu talento. E para comemorar seus oitenta anos, decidi separar aqui os 5 melhores trabalhos do diretor (tarefa muito difícil para mim, que sou um inveterado fã do artista). Confira a lista e relembre ou descubra os filmes que são essenciais para entender a obra de Roman Polanski.

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1. Repulsa ao Sexo (Repulsion, 1965)
Polanski criou, no começo de sua carreira, aquela que ficou conhecida como “Trilogia do Apartamento”, marcada por um terror claustrofóbico e clima obscuro em ambientes fechados e sufocantes, que acabam por oprimir seus moradores. O primeiro filme desta trilogia (e também o primeiro longa do diretor em língua inglesa) é Repulsion – pessimamente traduzida para Repulsa ao Sexo – , que foca sua narrativa na personagem Carol (a belíssima Catherine Deneuve), uma manicure que vive com sua irmã mais velha e é reprimida em vários aspectos de sua vida. Quando a irmã viaja em férias e Carol fica sozinha no apartamento, a jovem cai em uma profunda depressão, causando-lhe alucinações aterrorizantes.

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2. Chinatown (Chinatown, 1974)
Este é, talvez, o maior marco da carreira de Roman Polanski – além de ser um dos maiores filmes noir de todos os tempos. Chinatown narra a trajetória de um detetive particular que, ao ser contratado por uma mulher da alta sociedade para investigar um caso extraconjugal do esposo, se envolve em uma conspiração muito além do que previa. Estrelado por Jack Nicholson e Faye Dunaway, é frequentemente considerado como um dos melhores roteiros do cinema, exemplo de construção e desenvolvimento de história e personagens. Além disso, o longa recebeu 11 indicações ao Oscar (incluindo melhor filme e melhor direção).

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3. O Inquilino (Le Locataire, 1976)
Último filme da trilogia citada (que ainda conta com o clássico O Bebê de Rosemary, de 1968), O Inquilino é, talvez, o melhor trabalho da série. No longa, estrelado pelo próprio Polanski, acompanhamos a história de um jovem que, após alugar um apartamento cuja antiga dona se suicidara, passa a sofrer alucinações, acreditando que os demais moradores do prédio estão tentando fazê-lo também se suicidar. Já ouviu falar em terror psicológico? Pois é, O Inquilino é uma aula completa do gênero – vale muito a pena conferir.

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4. Lua de Fel (Bitter Moon, 1992)
Desta lista que selecionei, este será, provavelmente, o mais questionável. Mas como a ideia aqui é também diversificar os gêneros e as épocas de Polanski, nada melhor do que citar Lua de Fel, primeiro filme do cineasta na década de 90 – e uma aula de erotismo e sedução. No longa, acompanhamos o casal inglês Nigel e Fiona que, ao fazerem um cruzeiro, conhecem o casal Mimi e Oscar (ela, uma belíssima, sensual e misteriosa francesa; ele, um norte-americano preso a uma cadeira de rodas). Durante a viagem, ao perceber o interesse de Nigel por Mimi, Oscar conta ao novo amigo como conhecera sua esposa e a paixão doentia do casal – que mais tarde, se tornara um ritual de humilhação e descaso. Sensualidade, sadismo, relacionamentos conturbados – céu e inferno, neste que é um dos maiores filmes eróticos do cinema.

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5. O Pianista (The Pianist, 2002)
Talvez por contar uma trama de sobrevivência quase que autobiográfica, O Pianista tenha se tornado a mais aclamada produção de Roman Polanski nos últimos anos. Filme que consagrou Polanski, a narrativa de O Pianista gira em torno de Wladyslaw Szpilman (excepcionalmente vivido por Adrien Brody – que faturou o Oscar de melhor ator por esta personagem), um musicista judeu que tenta sobreviver à Segunda Guerra Mundial, escondendo-se dos nazistas e sobrevivendo com a ajuda de amigos. A história é real – mas é impossível não associar essa dramática trama de sobrevivência à biografia do próprio Polanski – que vivenciou o Holocausto quando criança. O Pianista rendeu o Oscar de Melhor Diretor a Polanski – que não compareceu à cerimônia devido à sua situação criminal no país. Repare o cineasta sendo aplaudido de pé:


Achou que a lista acaba aqui? Pois é, selecionar apenas cinco longas (dentro de uma filmografia tão vasta e boa) de um artista como Polanski é uma tarefa difícil – pois sempre vai faltar aquela produção que você tanto admira e gosta de indicar aos amigos. Por isso, acrescentei abaixo (bem sucintamente) mais alguns filmes que eu acredito serem indispensáveis para qualquer fã do cineasta.

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Em “Deus da Carnificina” (2011), baseado em uma peça teatral, acompanhamos dois casais bem diferentes que se reúnem para chegar a um “acordo” sobre a briga de seus filhos pré-adolescentes. Aos poucos, os nervos vão aumentando e as gentilezas dão lugar aos insultos e indelicadezas, nesta deliciosa comédia de costumes.

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Pertencente à trilogia do apartamento, “O Bebê de Rosemary” (1968) é um dos filmes mais conhecidos de Polanski. Trata-se do drama de uma mulher que desconfia que a sua gravidez é alvo de um ritual macabro feito por seu esposo e novos vizinhos. Ta aí um bom exemplo de terror.

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Particularmente, é um dos meus preferidos do cineasta. Uma mistura de comédia com terror, “A Dança dos Vampiros” (1967) é a história de um velho e atrapalhado caçador de vampiros e seu medroso assistente que ficam presos em um castelo junto com criaturas sanguinolentas. Um dos mais cultuados filmes da história – e um dos precursores do gênero.