O Casamento do Meu Melhor Amigo

01É curioso o fato de que após 1990, com Uma Linda Mulher (seu primeiro grande sucesso e filme pelo qual levou sua primeira indicação ao Oscar), Julia Roberts tenha se dedicado a produções menos significativas. Claro que seus trabalhos durante os sete anos seguintes aproveitavam o nome da então “queridinha hollywoodiana” e até alcançaram certa notoriedade (como Tudo Por Amor, Dormindo com o Inimigo ou O Dossiê Pelicano). Mas foi apenas com O Casamento do Meu Melhor Amigo (1997) que Julia voltou aos holofotes hollywoodianos, protagonizando uma história que é quase uma unanimidade para os fãs do gênero que a consagrou.

Roberts interpreta Julliane, uma crítica gastronômica independente e com uma extensa lista de relacionamentos mal sucedidos – entre eles, uma paixão ardente com Michael (Dermot Mulroney), com quem esteve junto por cerca de um mês e, por medo ou sei lá o quê, terminou repentinamente, deixando o rapaz inconsolável. Apesar disso, Julliane e Michael continuaram a amizade e cumplicidade – na verdade, enquanto Michael colocava a amiga em um pedestal quase inalcançável, Julliane seguia sua vida normalmente, pulando de um relacionamento fracassado a outro. Até o dia em que Julliane recebe uma ligação inesperada: Michael vai se casar… com outra. E, claro, não apenas outra: é Cameron Diaz – linda, inteligente, rica e, sobretudo, apaixonada pelo noivo. É nesse momento que Julliane descobre que ainda ama o rapaz e, mesmo sendo convidada para ser a madrinha do casório, a bela não vai poupar esforços para separar o casal e recuperar seu grande amor.

02

O Casamento do Meu Melhor Amigo começa com um número musical açucarado e que pode até nos dar uma falsa pista do que está por vir. Afinal, apesar de ser uma comédia romântica, O Casamento de Meu Melhor Amigo flerta muito mais com a “comédia” do que com o romance. Não que não haja boas sequencias para fazer os casais suspirarem, mas o timming do diretor australiano P. J. Hogan para o humor é muito claro. Hogan não se intimida a apostar, inclusive, nos clichês mais prováveis da comédia pastelão (como nos inúmeros tombos que Julliane sofre ao longo da trama ou no excesso de caricatura da personagem de Diaz, por exemplo). As piadas estão bem inseridas no decorrer da história – o que é um ponto favorável do roteiro de Ronald Bass (o mesmo de Lado a Lado, Quando um Homem Ama Uma Mulher e Rain Man), que dosa bem o humor e o romance da narrativa. A inesquecível cena em que o amigo gay de Julliane canta I Say a Little Prayer no restaurante lotado (contagiando a todos no local) é tão deliciosa quanto Mulroney sussurrando The Way You Look Tonight ao pé do ouvido de Roberts – o que deixa claro que apesar do evidente apelo cômico da história, o romance também ganha espaço no filme.

Com uma atuação excelente, Julia faz o tipo atrapalhado e quase psicótico daquela que sofre uma clara dor de cotovelo. Totalmente natural em cena, a atriz é um charme e oscila bem as inúmeras transformações de sua personagem, surpreendendo aqueles que costumam desprezar sua atuação. Dermot Mulroney é suficientemente sóbrio no papel do “mocinho” que nunca esqueceu a “mocinha”. Fica-se o destaque no elenco para Cameron Diaz (que até então só havia mostrado suas curvas em O Máskara, três anos antes), divertidíssima como a noiva insegura de Michael e Rupert Everett, que faz George, o amigo homossexual que protagoniza boas cenas na trama (aliás, o mesmo Rupert que é assumidamente homossexual e confessou que perdeu inúmeros papéis no cinema em decorrência disso – uma lástima).

03

O final de O Casamento do Meu Melhor Amigo nos deixa com uma ponta de tristeza, afinal ele foge completamente do happy ending que esperamos de um filme do gênero. A despedida entre os dois amigos, apenas com uma troca de olhares e um abraço, dá aquele nó na garganta – porque, apesar de recorrer a métodos pouco louváveis, Julliane ama realmente o rapaz. Mas amar é também abrir mão de certas coisas para que a outra pessoa possa ser feliz, certo? Com um roteiro primoroso, uma direção competente, uma trilha sonora empolgante e atuações certas, O Casamento do Meu Melhor Amigo se firma como um dos melhores trabalhos de Julia em anos e também uma comédia romântica memorável. Tecnicamente bem feito, é o tipo de filme que não importa quantas vezes você já assistiu: se você gostou, vai sempre parar para assistir novamente. Até porque já não se fazem mais filmes como este…

Um Lugar Chamado Notting Hill

Houve quem considerasse Um Lugar Chamado Notting Hill uma das melhores comédias românticas em anos. De fato, o filme lançado em 1999 conquistou o público e a crítica – o que é um caso, no mínimo, curioso, uma vez que Um Lugar Chamado Notting Hill é um produto recheado de clichês e não traz nenhuma inovação ao gênero que consagrou seus protagonistas.

02

Sim, Um Lugar Chamado Notting Hill é repleto de clichês – começando por sua trama que acompanha o relacionamento amoroso entre duas pessoas de mundos completamente distintos: ele, o pacato dono de uma livraria especializada em publicações sobre viagens que vive no tranquilo bairro londrino de Notting Hill; ela, uma famosa atriz de cinema, envolvida em inúmeros escândalos e que faturou 15 milhões por seu último filme – o mesmo valor que Julia Roberts teria recebido para protagonizar esta produção. Ambos se conhecem no fortuito dia em que Anna casualmente visita o estabelecimento de Will – e a partir daí, entre encontros e desencontros, os dois iniciam um relacionamento terno e que mudaria para sempre a vida dos amantes.

03

Mas os clichês não param por aí. Tudo em Um Lugar Chamado Notting Hill nos dá a sensação de dejavú. É inevitável já no encontro do casal no início do longa – afinal, quer coisa mais comum do que o cara que derruba o suco na roupa da menina? Praticamente só perde para o garoto que derruba os livros da mocinha no chão e ocorre a fatídica troca de olhares… Talvez isso se deve ao fato de que o roteiro de Um Lugar Chamado Notting Hill foi escrito por Richard Curtis – famoso roteirista do gênero, com outro grande sucesso no currículo: o elogiado Quatro Casamentos e um Funeral. Na verdade, se analisarmos com certa atenção, há muitas coisas em comum entre os dois argumentos, inclusive alguns personagens – como o grupo de amigos do mocinho ou a mulher com cabelo esquisito. Richard parece até mesmo ter “reciclado” algumas cenas (como a sequencia em que o mocinho recebe uma carona dos amigos no carro cheio de gente ou quando reúne o grupo para pedir conselhos). Até mesmo o personagem de Hugh Grant em Um Lugar Chamado Notting Hill poderia soar como o “alguns anos mais tarde…” de seu papel em Quatro Casamentos e um Funeral – tudo funcionaria muito bem e se encaixaria perfeitamente.

01

Mas mesmo assim, Um Lugar Chamado Notting Hill é um filme que tem um charme muito particular. Talvez isso se dê pelo mesmo roteiro que, apesar de conter algumas falhas, é bem inteligente ao saber dosar tanto humor quanto romantismo. As piadas são estrategicamente bem inseridas ao longo da trama e se revezam com as boas cenas românticas, com ótimos diálogos. Da mesma forma, o desenvolvimento das personagens também é coeso: ambos, apesar de tudo, são totalmente críveis e humanos – uma ótima sacada aqui foi retratar a estrela como uma pessoa comum (“Eu sou apenas uma garota parada em frente a um homem, pedindo a ele que a ame”, diz Anna em certo momento). A direção de Roger Mitchell, no entanto, se apresenta bastante oscilante – com momentos muito lentos (que podem cansar o espectador) e outros de ritmo frenético – mas nada que atrapalhe o bom desempenho do elenco.

Hugh é cativante, mesmo fazendo um tipo já manjado em comédias românticas. Julia Roberts, por sua vez, apresenta uma ótima atuação, fazendo uma personagem que, ao que parece, foi inspirada em si mesma – afinal, assim como Anna, Julia também sofreu bastante com os tabloides sensacionalistas ao redor do mundo. Seu sorriso em cena orna suavemente com a música tema de abertura: She, na voz de Elvis Costello (completando a trilha sonora). A química entre Hugh e Roberts é fundamental para a história, fazendo com que o espectador torça pelo happy ending entre os dois. Outro destaque fica ainda por conta de Rhys Ifans, o amigo sem noção de Will, que protagoniza divertidas cenas ao longo das duas horas de exibição.

O desfecho, previsível, é provavelmente o ápice de todos os clichês aos quais o filme recorre. No entanto, Um Lugar Chamado Notting Hill é uma comédia romântica infinitamente superior a outros produtos do gênero. Cumprindo muito bem sua proposta, é uma produção bem feita, cuidadosamente bem executada, com um ótimo design e uma fotografia ímpar – o que não seria muito diferente tratando-se um longa rodado no charmoso bairro de Notting Hill. Longe de ser impecável, Um Lugar Chamado Notting Hill é equilibrado e inteligente, e mesmo suas deficiências tornam o filme um entretenimento excepcional – algo difícil de se encontrar no cinema hoje em dia.

Os Queridinhos da América

01Ah, o mundo das celebridades… Não é muito curioso o fato de que este universo cheio de peculiaridades tenha interessado o diretor Joe Roth. Apesar de sua obra como cineasta ser relativamente modesta, é como produtor que Roth se destaca: entre seus últimos sucessos, estão a versão burtoniana de Alice no País das Maravilhas, Encontro Explosivo (com Cruise e Cameron) e o mais recente Malévola. Ou seja, “celebridades” é um assunto que Roth pode discutir com bastante propriedade porque efetivamente o conhece. No entanto, seu trabalho mais significativo como cineasta não alcançou o esperado sucesso de crítica que propunha, apesar de ter tido um bom desempenho nas bilheterias.

Os Queridinhos da América é um daqueles filmes que tinha tudo para ser um sucesso antes mesmo de seu lançamento. Afinal, o elenco selecionado era uma reunião dos maiores queridinhos hollywoodianos na época. A começar, pela estrela maior: Julia Roberts, que acabara de receber o primeiro Oscar da carreira por sua atuação em Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento. Naquele momento, a simples menção do nome de Julia já era o suficiente para que um projeto fosse adiante – não à toa, o nome da atriz é o primeiro a se ver na tela, apesar de sua personagem ser praticamente uma secundária. Depois, há Catherine Zeta-Jones, sempre linda, um ano antes de co-estrelar Chicago – pelo qual faturou o Oscar de melhor coadjuvante. O time masculino, por sua vez, conta com o simpático John Cusack e Billy Crystal – um dos principais apresentadores da cerimônia do Oscar e que também assina a produção e o roteiro do longa.

A premissa de Os Queridinhos da América é abordar o mundo das celebridades. O filme começa com uma espécie de reportagem que explica o porquê Gwen Harrison e Eddie Thomas (Catherine e Cusack, respectivamente) formam o casal mais famoso – e rentável – de Hollywood. Eles são jovens, bonitos, possuem uma ótima química na telona e seus trabalhos são campeões de bilheteria. Mas há um problema: Gwen, que se apaixonara por um ator espanhol, quer o divórcio imediato, enquanto Eddie se recupera da separação em um retiro espiritual. Se juntos o casal é imbatível, separados eles vão de mal a pior: o último filme de Gwen, por exemplo, foi um fiasco e a bela é constantemente massacrada pela crítica, enquanto Eddie apresenta um quadro psiquiátrico deplorável. É aí que surge Lee Philips (Billy Crystal), um experiente assessor de imprensa e produtor que tem a missão de mostrar à mídia que Gwen e Eddie estão ainda vivendo harmoniosamente para, assim, divulgar o novo filme do casal.

04

A proposta, ao que tudo indica, é flagrar o que se passa nos bastidores da indústria cinematográfica, mas é um fato que Os Queridinhos da América acaba se mostrando muito mais uma comédia romântica no padrão “Julia Roberts de Ser na Década de 90”. E mesmo como comédia romântica, o longa parece não funcionar. Apesar de possuir alguns momentos divertidos, o roteiro de Crystal não tem criatividade, alem da ausência de piadas inteligentes que justifiquem o gênero. Isso fica mais evidente com a direção insegura de Joe Roth, que não possui o menor timming – nem como comédia nem como romance. Como resultado, o filme fica totalmente perdido: o romance entre Eddie e Kiki (assistente e irmã de Gwen) não convence, as tiradas são forçadas e algumas cenas são vergonhosas. E, contrariando as expectativas, nem mesmo o elenco estelar consegue salvar: Julia é apática, sem graça; Billy apenas refaz seu tipo clássico e Cusack é irritantemente extravagante. Salva-se aqui Catherine que, mesmo excessivamente caricata, é hilária na pele da atriz cheia de excentricidades.

No fim, com um design de produção conveniente com a proposta do filme e uma trilha sonora que até consegue dar um charme ao tentar alavancar o estilo cômico da trama, Os Queridinhos da América é até “agradável”. Não fará você suspirar com uma bela história de amor, não fará você se contorcer com piadas bem feitas e muito menos irá propor algum tipo de discussão sobre os bastidores do mundo das celebridades – mas vai cair como uma luva se você estiver procurando uma trama leve, sem compromisso. Com um imenso potencial, Os Queridinhos da América é um exemplo perfeito de como uma direção frouxa e um argumento fraco são capazes de estragar uma produção – mesmo com um elenco queridinho pelo público.

Uma Linda Mulher

Ele, um homem de negócios com a agenda lotada e em fim de relacionamento a caminho de Los Angeles, dirigindo um carro com marcha manual que lhe é pouco familiar. Ela, uma prostituta do Hollywood Boulevard que divide o apartamento com uma amiga e a muito custo consegue o dinheiro para o aluguel. Estes são os dois protagonistas desta irresistível comédia romântica que inaugurou a década de 90 com o pé direito.

O encontro entre essas duas personagens não poderia ser mais fortuito: com dificuldades para achar o caminho (e também sem saber dirigir muito bem o carro emprestado – já que seu primeiro veículo foi uma limusine automática), Edward contrata Vivian para leva-lo até o hotel em que ficará hospedado por uma semana. Precisando levantar urgentemente o dinheiro do aluguel (já que a amiga de quarto torrou toda a grana em uma noitada), Vivian vê em Edward a solução para seus problemas – ainda que por uma noite. Não demora muito para que o jeito simples e despojado da garota de programa conquiste Edward e ele a convide para “trabalhar” para o galã durante uma semana. A paixão entre os dois, a partir daí, é inevitável.

01

Se em Bonequinha de Luxo, em 1961, o desejo de Holly era encontrar um marido rico que a sustentasse, em Uma Linda Mulher o que Vivian mais almeja é abandonar a vida da prostituição. Personagem forte, Vivian sabe exatamente o que quer: mesmo como prostituta, recusa-se a ter um cafetão, preferindo escolher a dedo os clientes com os quais se relaciona – e, óbvio, o que faz com cada um deles (beijo na boca, por exemplo, é proibido). Por outro lado, Edward, apesar de ser um homem de sucesso profissionalmente, é triste e altamente influenciável – principalmente por seu advogado Jason, que enriqueceu trabalhando para o empresário. Ironicamente, contrariando o que se poderia esperar de uma comédia romântica, Vivian não precisa de Edward: o bonitão é apenas um estímulo para que Vivian abandone a profissão. O mais dependente na história é Edward: apesar de bem sucedido na profissão, sua vida pessoal vai de mal a pior. É Vivian quem lhe abre as portas para um mundo novo – onde o dinheiro não é o principal elemento e as coisas simples podem ter um grande valor.

02

A perfeita sintonia entre os protagonistas tornam Uma Linda Mulher muito mais agradável. Richard Gere, que não fazia um bom filme há anos, é intensamente cativante no papel de Edward, enquanto Julia Roberts é encantadora vivendo a prostituta Vivian (não à toa, Julia recebeu aqui sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz). O sorriso de Julia na tela é visualmente esplêndido, algo que fica ainda mais bonito em meio ao ótimo design de produção do filme – assim como sua trilha sonora, embalada por canções que permanecem na memória daqueles que viveram os anos 90. O diretor Garry Marshall (um especialista no gênero e que repetiu a parceria com Julia e Richard no menos cultuado Noiva em Fuga, de 1999) soube unir bem todos estes elementos, o que contribui para tornar seus personagens muito mais humanos do que em outras comédias românticas – apesar das inúmeras improbabilidades do roteiro (afinal, poucas prostitutas são tão belas quanto Julia Roberts e poucos quarentões são tão simpáticos como Gere).

03

Uma linda Mulher é uma comédia romântica aos moldes dos anos 40 (obviamente com um toque moderno para a época) e que ressuscitou o gênero na década de 90 – especialmente quando o cinema vinha apostando naquelas produções recheadas de homens truculentos brigando feito loucos e trocando tiros por aí no final dos anos 80. Uma Linda Mulher é uma espécie de Cinderela versão moderna e, apesar de sua protagonista ser uma personagem politicamente incorreta, é impossível não se apaixonar pela história. Apesar do roteiro um tanto quanto “clichê” (mas divertido e inteligente o suficiente para conquistar o público), Uma Linda Mulher é definitivamente, um clássico dos anos 90 que até hoje diverte e encanta – e muito.

Closer – Perto Demais

Closer: Perto Demais foi vendido como “uma história de amor madura”. Baseada na peça teatral de Patrick Marber, talvez esta seja a melhor definição do que o filme realmente é: uma trama de amor moderna – e, como sugere o título, uma olhada muito mais próxima nas fraquezas e problemáticas das relações humanas no nosso tempo.

A narrativa segue os encontros e desencontros de quatro personagens. Dan, um jornalista fracassado, cruza casualmente com a striper Alice, recém-chega dos EUA, em meio à agitação da capital britânica. Passado um tempo, Dan conhece Ana em uma sessão fotográfica e passa a se relacionar com a artista. Também de forma casual (através da troca de identidades em um chat na internet), Ana se envolve com o médico Larry – formando uma espécie de casal “perfeito”: ambos bem sucedidos em suas profissões, é o casal que, aparentemente, vive um conto de fadas. No entanto, quando o envolvimento entre Ana e Dan é descoberto por Larry, ocorre uma espécie de troca de casais – formando o “retângulo” amoroso central.

02

Sim, confesso que explicando assim, tudo pode parecer um pouco confuso – mas não o é. Closer é direto, despudorado, bem resolvido – assim como suas personagens. Isso se reflete em um roteiro afiado, com diálogos abertos, marcantes e, por muitas vezes, descarados. Houve, na época de lançamento, quem classificasse o filme como imoral (apesar da ausência de cenas de sexo ou nudez). Talvez essa classificação tenha sido gerada pela forma sincera (por muitas vezes vulgar e violenta) como as personagens se relacionam com seus pares – e até mesmo consigo mesmas.

Closer é um desenrolar de traições, relações sexuais e relacionamentos entre os quatro personagens. Entre idas e vindas, eles se amam e se odeiam; se traem, mentem uns para os outros, exibindo personalidades por vezes amorais. Em um determinado momento, Ana joga na cara de Dan que “ele não conhece nada sobre o amor porque ele não entende compromisso”. Esse desenrolar frenético se evidencia no roteiro, por vezes, atropelado: ocorrem saltos cronológicos na narrativa (meses e até anos) que evidenciam o desequilíbrio dessas relações e tornam o filme, sob certo aspecto, circular: termina exatamente do ponto onde começou. É como se não houvesse amor verdadeiro; apenas uma projeção que jamais será atendida.

04

Neste emaranhado de relações, é o elenco que faz toda a diferença. Jude Law, que parece estar ligado no modo automático, é o que menos causa frisson, mas faz um trabalho eficiente. Julia Roberts, mais serena do que nunca, traz uma atuação segura que se adequa bem à sua personagem, assim como Clive Owen, que faz um tipo beirando a paranoia que é o retrato de muitos homens que encontramos por aí. No entanto, é Natalie Portman quem realmente brilha (muito antes de Cisne Negro – pelo qual faturou o Oscar de Melhor Atriz). Na pele de Alice, Natalie é enigmática, sensual e controversa – arriscaria dizer, uma das melhores antagonistas femininas do cinema.

01

Mike Nichols, com uma direção precisa, lança diversos planos na cara de seus atores, o que realça o sofrimento de suas protagonistas – como na cena do ensaio fotográfico de Alice. Com uma fotografia moderna, o filme tem poucas tomadas externas – o que fortalece o clima de intimidade que estaremos invadindo. A trilha sonora, que passeia de Bebel Gilberto com “Samba da Benção” à belíssima The Blower’s Daughter” de Damian Rice, acentua ainda mais o clima intimista do longa, nos deixando mais a vontade para invadir a privacidade de suas personagens – talvez porque ela esteja muito próxima a todos nós.

Com uma visão pessimista em diversos momentos, Closer lança um olhar sobre a problemática dos relacionamentos humanos, nos mostrando bem de perto as fraquezas da natureza humana. Serve para explanar as contradições das relações, expondo a impotência do homem diante daquilo que sente – e daquilo que deseja. Longe dos blockbusters norte-americanos (com suas tramas recheadas de mocinhos e vilões), Closer é um filme próximo à vida real, onde os personagens não são julgados por serem bons ou maus – ainda que você, em algum momento, possa sentir repulsa às suas ações. Diferente das histórias de amor hollywoodianas convencionais, Closer tem um grande mérito: sua imprevisibilidade e, assim como o amor, é um filme onde o espectador mergulha de cabeça – sem se preocupar com o que está por vir.

50 Filmes Que Marcaram Sua Infância – Parte III

Já passamos da metade do mês – e muita gente já começa a contar no calendário quantos dias restam para o fim das férias de janeiro. Bom, como aqui ninguém para, separei mais alguns títulos que, certamente, você já deve ter assistido nas suas tardes. Vamos conferir?

24. Sepultado Vivo
Comecei a lista com um filme que, particularmente, eu torcia para ser reprisado no Cinema em Casa. Sepultado Vivo é um thriller que conta a história de uma mulher infeliz, presa a um casamento morno e que, com a ajuda de seu amante, resolve matar o esposo. Contudo, o marido sobrevive à tentativa de assassinato e volta para se vingar. Filme que te coloca à beira do suspense.

sepultadovivo


25. Uma Linda Mulher
As comédias românticas estiveram em alta durante a década de 90. Uma Linda Mulher foi o filme que lançou Julia Roberts ao mundo – e, definitivamente, é um dos melhores filmes do gênero. A história gira em torno de Vivian, uma prostituta que é contratada por um milionário para se passar por sua acompanhante durante uma semana. O que ambos não esperavam era que seriam surpreendidos por um sentimento muito maior.

umalindamulher


26. Velocidade Máxima
Um psicopata coloca uma bomba dentro de um ônibus lotado de passageiros, exigindo dinheiro para não aciona-la e deixando claro que a velocidade do veículo não pode ser menor que tal quilometragem por hora. Daí vem um tira norte-americano (“New York City Cops – they ain’t too smart!”) para tentar desarmar a bomba e salvar a vida de todos. Mas quem não assistiu esse filme pelo menos umas 30 vezes que atire a primeira pedra…

velocidademaxima


27. Elvira – A Rainha das Trevas
Elvira, a apresentadora de um programa de baixo orçamento de filmes de terror, teria sido plágio descarado “inspirada” da personagem Vampira, vivida por Maila Murni durante a década de 50. No longa, Elvira herda uma mansão de sua tia falecida em uma pequena cidade norte-americana. Sonhando em vender a casa e se mudar para Las Vegas, ela encontra encontra dois problemas: o preconceito dos moradores da cidade e seu tio que quer parte da herança.

elvira


28. Um Tira da Pesada
Um dos campões de reprises da Sessão da Tarde, o filme trazia Eddie Murphy no auge de sua carreira, interpretando Axel Foley, um policial em ação tentando desvendar os mistérios que envolvem o assassinato de seu amigo Mikey Tandino.

umtiradapesada


29. Splash – Uma Sereia em Minha Vida
O filme conta a história de uma sereia que vai até Nova York, transformada em uma bela mulher, para reencontrar um jovem que salvou. Quando se reencontram, ambos se apaixonam, mas tem que lutar contra ambiciosos pesquisadores que querem aprisionar o ser mitológico.

splash


30. Dirty Dancing – Ritmo Quente
Confesse que você já se pegou cantando a música principal de Dirty Dancing – Ritmo Quente! Pois é, grande sucesso das tardes globais, o filme conta a história da paixão entre Frances e um instrutor de dança. Entretanto, a relação entre eles é abalada quando o pai da garota acredita que o professor engravidou sua namorada.

dirtydancing


31. Parque dos Dinossauros
Spielberg é um dos diretores norte-americanos mais cultuados. Boa parte disso se deve aos block-busters que criou ao longo de sua carreira – e Parque dos Dinossauros está aí para comprovar. Tanto foi o sucesso do longa que houve mais duas sequencias – e uma quarta já está a caminho. Tudo bem que são quase 2 horas de filme para pouco mais de 15 minutos de dinossauro na tela e muitos milhões de dólares gastos – mas o filme virou uma lenda do diretor.

jurassikpark


32. Marte Ataca!
Homenagem burtoniana aos clássicos filmes de ficção de baixo orçamento (que Tim Burton tanto amava quando criança), Marte Ataca! é, para muitos, uma mancha negra na filmografia do diretor. Entretanto, na época em que passava no Cinema em Casa, o filme impressionava a garotada com a história dos marcianos que invadem a Terra e destroem tudo o que encontram pela frente.

marteataca


33. Coração de Cavaleiro
O falecido (e queridíssimo e talentosíssimo e excepcional) Heath Ledger protagoniza a história de William, um escudeiro que após a morte de seu mestre decide substitui-lo em uma competição. Para isso, além de treinar para o torneio, ele forja uma falsa árvore genealógica para provar que pertenceria a uma família de nobres e poderia participar do torneio.

coracaodecavaleiro


34. O Mentiroso
Jim Carrey protagoniza a história de um advogado que domina muito bem a arte da mentira. No dia do aniversário do seu filho, o garoto, que sofria com a ausência do pai, deseja que Jim fique um dia sem mentir. O desejo é realizado e a confusão está armada nesta comédia deliciosa.

omentiroso


35. O Clube das Desquitadas
Dizem que só se conhece sua mulher quando ela vira ex. O Clube das Desquitadas está aí para comprovar essa tese. O filme conta a história de um grupo de amigas que após ajudarem seus respectivos maridos em sua ascensão profissional, são trocadas por mulheres mais jovens. Após o suicídio de uma das amigas, elas decidem unir forças para se vingar dos ex-maridos.

clubedasdesquitadas

E se você perdeu os demais filmes, confira as duas listas anteriores clicando aqui (parte 1) e aqui (parte 2). Lembrando que semana que vem é a última parte dessa seleção.
Ah, e não esqueça que todos os textos dessa seleção podem ser conferidos também no site do CaféComWhisky.

Branca de Neve? Recuse Imitações

Branca de Neve e os Sete Anões foi o primeiro longa-metragem animado dos estúdios Disney e, provavelmente, o melhor e mais influente filme dessa empresa. Tudo aquilo que Disney produziu desde então esteve presente nesse filme: as narrativas de conto de fadas, os animais fofinhos, as músicas que ficam na cabeça e são cantadas de geração em geração, os vilões maléficos e as mocinhas puras, enfim, foi o filme que consolidou a Disney como um das maiores empresas cinematográficas de todos os tempos. Afinal, na época, parecia loucura de Walt Disney fazer com que o público aguentasse 90 minutos de desenho animado (em uma época em que o cinema era uma atividade excessivamente “adulta”).

“Branca de Neve e os Sete Anões” foi o primeiro longa-metragem animado da Disney – na época, considerado a grande loucura do estúdio.

Um fato que preocupa os cinéfilos é que, nos últimos anos, Hollywood não tem criado bons roteiros originais. Na maior parte das vezes, o expectador é obrigado a engolir adaptações e releituras de textos já conhecidos e que, muitas vezes, são repetitivos e não apresentam criatividade. E os contos de fada estão aí para servir de inspiração. Depois do sucesso comercial de Alice no País das Maravilhas de Burton, recebemos uma enxurrada de adaptações de contos: A Garota da Capa Vermelha é uma versão moderna da clássica história de Chapeuzinho Vermelho. Recentemente, a história de A Bela e a Fera também ganhou sua visão mais “dark”. Já foi anunciado também que está sendo preparada uma nova versão para Cinderela e rola-se boatos de que Tim Burton estaria estudando um roteiro para Pinóquio. E Branca de Neve, é claro, não ficaria de fora: só em 2012, foram 2 versões lançadas praticamente ao mesmo tempo. Mas não se engane: Branca de Neve só mesmo a original.

À esquerda, cena de “A Garota da Capa Vermelha”; à direita, o espetáculo visual para a versão burtoniana de “Alice no País das Maravilhas”.

A primeira adaptação deste ano foi a comédia Espelho, Espelho Meu, que apresenta o clássico conto dos Grimm como um grande pastelão. Na história, temos um reino falido e uma rainha má (Julia Roberts) à procura de um partido que salve seu império e resolva seus problemas. O príncipe Alcott é o homem ideal para a missão, mas acaba se encantando pela protagonista. A angelical Lily Collins dá vida à Branca de Neve – papel que lhe cai perfeitamente, diante o encanto visual que é Lily. Obviamente, em Espelho, Espelho Meu o destaque vai para Julia Roberts. Mas não por mérito próprio e, sim, por falta de opção. Apesar de até ir razoavelmente bem nas bilheterias, o filme não convence.

O tom pastelão e os elementos bizarros ajudaram a acentuar a classificação indicativa do filme – e deixar todo mundo traumatizado.

O principal problema é que o filme foi vendido como uma comédia – e realmente é. No entanto, o filme até que tem graça, mas não é engraçado. Entende? Não há química entre os elementos do filme. Os personagens são cansativos (o que dizer do príncipe bobão de Armie Hammer?), o cenário é extravagante (talvez pelo próprio apelo infantil do filme, tudo bem, é até justificável), o figurino é criativo mas piegas, as piadas são prontas e idiotas (“Você é a azeitona da minha empadinha!”) e o filme não tem ritmo. Mesmo a Rainha de Roberts, que deveria ser uma personagem má e ao mesmo tempo engraçada, é chata e não consegue se fazer envolver. É um filme bobo, dirigido exclusivamente a crianças e não um entretenimento em família. É um daqueles filmes que você comprará em DVD para colocar a seu filho quando quiser que ele fique quieto. Claro, se ele conseguir assistir…

Mas também é fácil se destacar em uma trama recheada de bizarrice, né, Julia?

Branca de Neve e o Caçador apresenta uma visão mais adulta do conto tradicional. Na realidade, uma observação aqui se faz importante: Walt Disney foi um grande visionário, mas o cara também foi o grande responsável por essa infantilização dos contos de fadas. A maioria dessas histórias são obscuras, recheadas de elementos de terror e fatos macabros. Daí Walt foi lá, colocou uns animais fofinhos, umas músicas alegres, personagens engraçados e… acabou com as histórias originais – apesar de faze-las mais conhecidas. Branca de Neve e o Caçador busca o lado mais sombrio da história dos irmãos Grimm, mas ainda não acerta na dose.

“Branca de Neve e o Caçador” estreou em primeiro lugar em vários países – mas ainda não acertou…

De longe, não se pode dizer que Branca de Neve e o Caçador seja um filme ruim. Ele tem todos os elementos para agradar o público e ir bem nas bilheterias. Pegou um rosto famoso de uma série teen (Kristen Stewart) para o papel principal. Escolheu uma atriz veterana para encarnar o difícil papel da Madrasta (Charlize Theron, que foi muito melhor que Roberts, fato). Abusou de efeitos especiais mirabolantes (um dos produtores foi o mesmo de Alice no País das Maravilhas) e recheou a trama de cenas de luta épica (afinal, está na moda né? Game of Thrones está aí para comprovar). O estreante Rupert Sanders conseguiu, dessa forma, dirigir um filme que é visualmente encantador (como Alice), mas com um roteiro que ainda não conseguiu emplacar. Até porque não se tem muito o que fazer com uma história tão famosa…

Muitos efeitos especiais e arte para compensar uma história já conhecida: assim é “Branca de Neve e o Caçador”.

Há cenas no filme que são incrivelmente desnecessárias. Visualmente, elas são um espetáculo. Mesmo. Vale o ingresso – especialmente se você puder assistir em 3D. E ainda tem a boa trilha do veterano James Newton Howard. Mas ainda há muitos pontos a melhorar em Branca de Neve e o Caçador. Primeiro, os personagens são fracos. O caçador interpretado por Chris Hemsworth (sim, o Thor) parece ter uma batata quente na boca, enquanto o príncipe de Sam Claflin não tem o menor carisma, apesar da beleza do ator (que ficou conhecido por seu papel no último filme da saga Piratas do Caribe). Talvez por essa razão Branca de Neve aparentemente teria ficado com o coração dividido entre os dois (o beijo que acorda Branca da morte não vem do príncipe mas do caçador, um viúvo que sofre com a perda da esposa).

Como caçador, ele ele é um excelente Thor…

Kristen Stewart, surpreendentemente, até que consegue alguns créditos com sua personagem. Não está totalmente ruim. O problema é que seria difícil para ela, por mais esforço que fizesse, se destacar em um filme onde há Charlize Theron. Apesar de exagerada, elá traz uma força para a Rainha que destaca esse como um de seus melhores papéis no cinema. Sorte de Kristen que só ficou frente à frente com Charlize em uma única cena, coitada. A diferença entre talento ficou evidente, assim como, cá entre nós, a supremacia da beleza de Charlize – o que confunde o espectador, né?

Na boa, Kristen, não tem como competir com a Charlize – seja em talento, seja em beleza. O espelho que disse que você é mais bonita que ela deve ter algum defeito…

O que irrita, no entanto, é que o produto é vendido como uma novela gótica e medieval, cheia de elementos sombrios e lutas épicas. Não, Branca de Neve e o Caçador não chega nesse nível. Se apostasse mais nesses pontos, certamente o filme se tornaria um clássico, pois ele tem potencial. O problema é que o roteiro atropelado não deixa espaço para isso. O novato Rupert se sai bem para o primeiro filme, uma grande surpresa de um cara que saiu da escola da publicidade e pode ser um dos novos nomes do cinena nos próximos anos. Como entretenimento, Branca de Neve e o Caçador é perfeitamente assistível – mas nada que nos faça cair de amores pelo longa.

Em ambos os filmes, são as madrastas que se destacam mesmo. Charlize Theron (brilhante) em “Branca de Neve e o Caçador” e Julia Roberts (sem opção) em “Espelho, Espelho Meu”.

Seja como for, ambas as produções tem um público definido e, nesse ponto, cumprem seu propósito. Espelho, Espelho Meu é ideal para entreter criancinhas até 7 anos de idade, que irão rolar de rir com as piadas inocentes e repetidas do filme (eu assisti no cinema em uma sala lotada de crianças que gargalhavam, enfim…). Já Branca de Neve e o Caçador é um estudo sobre direção de arte e fotografia e um entretenimento para toda a família – mas não deve criar uma legião de fãs, mesmo apostando em um ícone teen já conhecido. Na dúvida, fique com o original da Walt Disney que, apesar de distorcer um pouco a história tradicional dos irmãos Grimm, ainda é a que prevalece na mente de todas as gerações. Merecidamente.