Um Lugar Chamado Notting Hill

Houve quem considerasse Um Lugar Chamado Notting Hill uma das melhores comédias românticas em anos. De fato, o filme lançado em 1999 conquistou o público e a crítica – o que é um caso, no mínimo, curioso, uma vez que Um Lugar Chamado Notting Hill é um produto recheado de clichês e não traz nenhuma inovação ao gênero que consagrou seus protagonistas.

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Sim, Um Lugar Chamado Notting Hill é repleto de clichês – começando por sua trama que acompanha o relacionamento amoroso entre duas pessoas de mundos completamente distintos: ele, o pacato dono de uma livraria especializada em publicações sobre viagens que vive no tranquilo bairro londrino de Notting Hill; ela, uma famosa atriz de cinema, envolvida em inúmeros escândalos e que faturou 15 milhões por seu último filme – o mesmo valor que Julia Roberts teria recebido para protagonizar esta produção. Ambos se conhecem no fortuito dia em que Anna casualmente visita o estabelecimento de Will – e a partir daí, entre encontros e desencontros, os dois iniciam um relacionamento terno e que mudaria para sempre a vida dos amantes.

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Mas os clichês não param por aí. Tudo em Um Lugar Chamado Notting Hill nos dá a sensação de dejavú. É inevitável já no encontro do casal no início do longa – afinal, quer coisa mais comum do que o cara que derruba o suco na roupa da menina? Praticamente só perde para o garoto que derruba os livros da mocinha no chão e ocorre a fatídica troca de olhares… Talvez isso se deve ao fato de que o roteiro de Um Lugar Chamado Notting Hill foi escrito por Richard Curtis – famoso roteirista do gênero, com outro grande sucesso no currículo: o elogiado Quatro Casamentos e um Funeral. Na verdade, se analisarmos com certa atenção, há muitas coisas em comum entre os dois argumentos, inclusive alguns personagens – como o grupo de amigos do mocinho ou a mulher com cabelo esquisito. Richard parece até mesmo ter “reciclado” algumas cenas (como a sequencia em que o mocinho recebe uma carona dos amigos no carro cheio de gente ou quando reúne o grupo para pedir conselhos). Até mesmo o personagem de Hugh Grant em Um Lugar Chamado Notting Hill poderia soar como o “alguns anos mais tarde…” de seu papel em Quatro Casamentos e um Funeral – tudo funcionaria muito bem e se encaixaria perfeitamente.

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Mas mesmo assim, Um Lugar Chamado Notting Hill é um filme que tem um charme muito particular. Talvez isso se dê pelo mesmo roteiro que, apesar de conter algumas falhas, é bem inteligente ao saber dosar tanto humor quanto romantismo. As piadas são estrategicamente bem inseridas ao longo da trama e se revezam com as boas cenas românticas, com ótimos diálogos. Da mesma forma, o desenvolvimento das personagens também é coeso: ambos, apesar de tudo, são totalmente críveis e humanos – uma ótima sacada aqui foi retratar a estrela como uma pessoa comum (“Eu sou apenas uma garota parada em frente a um homem, pedindo a ele que a ame”, diz Anna em certo momento). A direção de Roger Mitchell, no entanto, se apresenta bastante oscilante – com momentos muito lentos (que podem cansar o espectador) e outros de ritmo frenético – mas nada que atrapalhe o bom desempenho do elenco.

Hugh é cativante, mesmo fazendo um tipo já manjado em comédias românticas. Julia Roberts, por sua vez, apresenta uma ótima atuação, fazendo uma personagem que, ao que parece, foi inspirada em si mesma – afinal, assim como Anna, Julia também sofreu bastante com os tabloides sensacionalistas ao redor do mundo. Seu sorriso em cena orna suavemente com a música tema de abertura: She, na voz de Elvis Costello (completando a trilha sonora). A química entre Hugh e Roberts é fundamental para a história, fazendo com que o espectador torça pelo happy ending entre os dois. Outro destaque fica ainda por conta de Rhys Ifans, o amigo sem noção de Will, que protagoniza divertidas cenas ao longo das duas horas de exibição.

O desfecho, previsível, é provavelmente o ápice de todos os clichês aos quais o filme recorre. No entanto, Um Lugar Chamado Notting Hill é uma comédia romântica infinitamente superior a outros produtos do gênero. Cumprindo muito bem sua proposta, é uma produção bem feita, cuidadosamente bem executada, com um ótimo design e uma fotografia ímpar – o que não seria muito diferente tratando-se um longa rodado no charmoso bairro de Notting Hill. Longe de ser impecável, Um Lugar Chamado Notting Hill é equilibrado e inteligente, e mesmo suas deficiências tornam o filme um entretenimento excepcional – algo difícil de se encontrar no cinema hoje em dia.

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