A Solidão e a Morte de “Uma Vida Comum”

Nas artes plásticas e na fotografia, define-se como natureza morta o gênero artístico que reproduza objetos inanimados, sejam estes quais forem. Talvez o título original para o filme de Uberto Pasolini (“Still Life”), que estreia esta semana nos cinemas nacionais, seja o mais propício para Uma Vida Comum – um drama existencial que, ao final de seus oitenta e poucos minutos, deixa o espectador com aquele nó na garganta e se perguntando “qual é o sentido da vida?” de  uma forma simples e, talvez por isso, tocante.

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John May é um funcionário inglês encarregado de organizar funerais para as pessoas mortas que foram abandonadas por seus familiares. Mais do que isso: alem de preparar as cerimônias, John analisa as histórias, coleta fotos, procura parentes e amigos, faz os discursos religiosos, escolhe as músicas que serão executadas e também é, geralmente, a única presença na despedida. No entanto, em sua vida pessoal, nada de novo acontece: seus dias seguem a mesma rotina – seja no terno impecável com o qual se veste ou no cardápio que segue à risca (uma lata de atum com uma torrada e uma fruta, descascada sempre da mesma forma). Pouco se sabe a seu respeito; apenas o que vemos em cena são sequências que ajudam a compor o perfil de nosso protagonista: metódico, centrado, organizado, solitário, previsível.

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John está vivo. O fato de estar “vivo” (biologicamente falando) é a única diferença entre ele e as pessoas que ajuda, pois em sua essência John já está morto. Sua vida solitária, totalmente ausente de aspirações, sonhos ou projetos o colocam no mesmo patamar daqueles que morrem sozinhos e desamparados. Esse perfil é bem delineado na total inexpressividade do personagem (vivido pelo britânico Eddie Marsan) e na direção de Pasolini, que não pesa a mão no sentimento, tratando tudo em uma superficialidade que permite ao espectador desejar ir cada vez mais fundo na história. O cineasta ainda utiliza a bela fotografia (com cores quase dessaturadas), abusando de planos que se repetem ao longo do filme e que aumentam a inexpressividade de John diante do mundo.

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No entanto, algo na vida de John começa a mudar a partir da morte inesperada de seu vizinho alcoólatra (também ele uma vítima da solidão) – e também da descoberta de que este seria seu último caso, afinal ele acaba de receber a notícia de que será dispensado. Talvez aí é que John se dê conta de que, inevitavelmente, pode se tornar o mesmo tipo de pessoa com as quais “lida” diariamente. Com isso, John parte em uma busca frenética vasculhando a vida de seu vizinho como se fosse a sua própria. Pela primeira vez, John dá sinais de sua existência, deixando de ser um mero espectador para se tornar um protagonista (ainda que tímido) de sua própria história. Chega até mesmo a arriscar um tímido sorriso – o que, em sua existência, é um grande êxito.

Um fato incontestável: a morte chegará para todos, não importa a história que você tenha vivido. Uma Vida Comum não é um filme que inova como cinema e chega até mesmo a ser cansativo em alguns trechos (devido suas repetidas sequencias ou mesmo por conta da superficialidade com que Pasolini retrata sua personagem, deixando de lado os clichês sentimentais apelativos). No entanto, é impossível ficar indiferente à trajetória de John e, principalmente, à nossa própria história. Com Uma Vida Comum, Uberto Pasolini consegue fazer seu público, de certa forma, questionar como será o fim de nossos dias, através da visão de um homem que escolhe viver mesmo sabendo que sua natureza já está morta – demonstrando que nunca é tarde para começar a viver a vida.

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