A Amizade Entre Homens e Animais no Francês “Bell e Sebastião”

Em uma vila nos Alpes Franceses, em 1943, um garoto de seis anos chamado Sebastião vive solitário, com a esperança de um dia reencontrar sua mãe. Ele não frequenta o colégio e ajuda a jovem Angelina e o rabugento César, que cuidam do menino, em pequenas tarefas diárias, como apascentar os animais do rebanho. Em meio ao terror da ocupação nazista naquela região durante a Segunda Guerra Mundial, Sebastião encontra nas montanhas um cão selvagem, com quem irá estabelecer fortes laços de amizade. No entanto, o cão é acusado injustamente de atacar os animais dos pastores da região e Sebastião terá de proteger seu amigo das mãos dos demais moradores.

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O cinema está repleto de histórias de amizade entre animais e seres humanos. Portanto, o tema não é necessariamente novo. Mas estamos falando aqui do cinema europeu – precisamente, de uma produção francesa, vinda das mãos de Nicolas Vanier – um aventureiro (tanto da natureza quanto do cinema) que já havia trilhado esta temática em seus dois trabalhos anteriores, O Último Caçador (2004) e Loup – Uma Amizade Para Sempre (2009). Particularmente, não sou um grande apreciador de filmes com animais – e meu único interesse por Bell e Sebastião surgiu ao saber que se trata de um produto do cinema francês, o que logo despertou minha atenção (afinal, não me recordo de imediato de nenhum longa francês com este tipo de narrativa). E, para minha surpresa, Bell e Sebastião me surpreendeu de forma positiva, se revelando uma comovente história de amizade, aventura e inocência.

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Obviamente, a comoção surge com o desenvolvimento correto dos protagonistas da trama. O espectador já de cara consegue identificar o perfil de cada um deles. Sebastião é um excluído não pelas demais crianças, mas por si mesmo. Sua frustração é nunca ter conhecido sua mãe e viver na constante promessa de César de que um dia ela virá. Bell, por sua vez, é um cão maltratado (evidentemente), que tenta cuidar de si mesmo. Ambos os personagens vivem em um ambiente hostil – e talvez a necessidade um do outro é que torna o vínculo entre os dois tão forte. A cena do primeiro encontro entre eles é crucial para exemplificar isso: se no início ambos são inseguros e demonstram medo um do outro, um simples ato de bondade entre eles é capaz de torna-los próximos. Mais tarde, a sequência em que estão se banhando no rio é intensamente bela, representando a nova vida que ambos terão pela frente.

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A fotografia da produção é, no mínimo, exuberante e o espectador é quase transportado àquele ano – sensação estendida ainda mais através dos bons cenários, figurinos e maquiagem. As locações são primorosas e os ótimos planos da câmera de Vanier conseguem captar a beleza de cada ponto da região através de suas lentes. Da mesma forma, a doce trilha sonora (por vezes um pouco “melosa” demais) contribui para o andamento da narrativa, sendo indispensável em todos os momentos em que está inserida na trama. Quanto às atuações, poucos destaques – com exceção de Félix Bossuet, simplesmente uma fofura de criança na pele do pequeno Sebastião, transmitindo todas as nuances de sua personagem e com uma ótima interação com o animal.

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Bell e Sebastião é inspirado em um dos maiores clássicos da literatura europeia, o livro de Cécile Aubry, que já foi adaptado para a TV na década de 60 e também virou animação japonesa em 1981. Com muita sensibilidade, a trama ainda abre espaço para outros personagens, com dramas menores, mas ainda assim interessantes (como o médico que arrisca sua vida para ajudar judeus a cruzarem a fronteira, um homem defrontando seu passado ou o militar alemão que tenta mostrar seu “lado humano” e ser perdoado). Mas não tem jeito: em um cenário como este, é a amizade entre o cão e a criança que acaba se sobressaindo e emocionando a plateia – o que já é um grande mérito.

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