Dolan e Seus Distúrbios Mentais em “Elephant Song”

Sala de cinema razoavelmente cheia para uma noite de quarta. Reparei certo alvoroço entre os espectadores. Pesquei alguns comentários ao acaso e todos apontavam para um único nome do elenco: Xavier Dolan – diretor canadense considerado o garoto prodígio do cinema na atualidade, que decidiu ficar à frente das câmeras no novo filme do cineasta Charles Binamé.

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Elephant Song é uma mistura de drama e suspense, cuja história passada na década de 70 gira em torno do desaparecimento repentino de um psiquiatra em um hospital às vésperas do Natal. O diretor da instituição decide interrogar um dos pacientes, Michael, que fora a última pessoa vista com o médico, tentando descobrir alguma pista que leve ao paradeiro de seu colega. No entanto, o interno se mostra um jovem intelectual e manipulador, que faz um jogo psicológico que dificulta o interrogatório e põe em dúvida realmente sua sanidade – ou a falta dela.

A narrativa permanece ao longo de sua duração apenas no período da conversa entre médico e paciente, apesar de recorrer em inúmeros momentos a flashbacks para explicar o que ocorre no presente. O roteiro flui com bastante facilidade, apesar de ser previsível em alguns pontos – a certa altura do filme, o próprio médico sugere ao interno que suas brincadeiras seriam melhores se fossem mais surpreendentes (o que não deixa de revelar também a sensação do público diante dos artifícios aos quais o diretor recorre para atenuar o clima de suspense do longa).

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Tecnicamente, a fotografia e design de produção cumprem bem a proposta, apesar dos ambientes em tons frios predominarem em quase todo o filme, acentuando o tom dramático da fita. A iluminação também é bastante intimista, convidando o espectador à conhecer de perto a trama. Um exemplo é uma das cenas de início, em que é possível ver a silhueta de Dolan em seu quarto em contraste com a luz que emana da janela. A trilha sonora é pontual, sem muitas surpresas ou destaques – com exceção, talvez, da bela abertura que reproduz uma cantora de ópera executando uma ária e com clara pretensão de ser pura arte visual e auditiva.

A química entre os dois nomes principais parece funcionar. Bruce Greenwood mantém uma atuação firme no papel do diretor do hospital, enquanto Dolan consegue segurar os trejeitos e, ironicamente, empresta muito menos loucura a seu personagem do que em suas outras atuações (eu, particularmente, nunca tive bons olhos para Dolan como ator – apesar de apreciar suas obras como cineasta). No entanto, seu Michael tem muito menos “força” ou “personalidade” do que o filme sugere (dois funcionários do local perguntam “Você conhece o Michael?”, como se fosse um indivíduo acima da média – algo que Xavier, apesar de tentar, não consegue passar com seu desempenho).

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O título faz referência à canção que Michael ouvia de sua mãe quando criança – e é símbolo também de todos os problemas pelos quais Michael passou ao longo de sua juventude. Baseado na peça de Nicolas Billon, Elephant Song é uma boa produção, porém abaixo do que realmente tenta mostrar ser. Apesar da ótima proposta, ao que parece o diretor Charles Binamé segurou as rédeas e ousou pouco, o que limitou muito seu trabalho. Elephant Song tem como único “grande” atrativo o nome de Xavier Dolan nos créditos – ou seja, é um longa que se limita simplesmente ao seu elenco e não a todo o seu potencial.

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