“Paterson”: Jim Jarmusch Mostra a Beleza do Comum

A vida de Paterson é uma constante rotina. Ele acorda diariamente por volta das seis da manhã (sem despertador ou celular – este último que ele se recusa a usar), passa um tempo na cama com sua mulher, toma seu café e sai para o trabalho. Passa pelos mesmos lugares até chegar à garagem onde está estacionado seu ônibus, que ele calmamente dirige pelas ruas de sua cidade, com quem divide o mesmo nome. Ao retornar para casa, arruma a caixa de correios, troca algumas palavras durante o jantar e sai para passear com seu buldogue inglês, até fechar a noite entre conversas e divagações com um amigo em um bar vizinho.

E assim, Paterson, novo filme de Jim Jarmusch, é construído a partir de suas aliterações, em que inúmeros elementos se repetem no decorrer da fita nos permitindo acompanhar a vida de seu personagem título durante sete dias. Entretanto, nosso protagonista tem um talento incomum (principalmente se posto ao lado da profissão que exerce, motorista de ônibus): entre observações de seu cotidiano, diálogos aleatórios e rotas percorridas, ele escreve versos em um modesto caderno que leva sempre consigo, sem muitas ambições. É sua excêntrica esposa quem o encoraja a continuar escrevendo e publicar seus textos.

Tentar resumir Paterson à uma sinopse “tradicional” é um exercício relativamente difícil, já que muito pouco acontece na história. Ou melhor, nada acontece que promova uma reviravolta na trama. No entanto, é interessante notar a maestria com que Jarmusch conduz seu filme: apesar da estrutura rígida e circular (refletida na excelente montagem do brasileiro Affonso Gonçalves), há um sentido rítmico na narrativa, como se ela toda fosse também uma poesia. Além disso, seu protagonista é construído com cuidado, praticamente uma antítese do clichê de “poeta” tão difundido em nossa cultura: um gênio incompreendido, boêmio e com propensão à melancolia – enquanto Paterson, por sua vez, é um homem comum, cujo cotidiano se limita apenas a existir.

Estrelado por um Adam Driver em ótima performance (nunca antes o intérprete esteve tão “belo” em cena), Paterson é um filme sobre as coisas comuns da vida. Existe beleza e encanto no “simples”; o que nos falta muitas vezes é a sensibilidade necessária para percebe-los. Jim Jarmusch nos delicia com uma obra que celebra o banal, nos levando a encarar a vida e a nós mesmos com outros olhos, o que realmente torna nossa existência tão profunda.

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