O Dançarino do Deserto (Desert Dancer)

O Dançarino do Deserto é a biografia de Afshin Ghaffarian, um iraniano que convence seus colegas de faculdade a montar uma companhia de dança clandestina (uma vez que este tipo de manifestação artística é proibida em seu país). Enquanto luta contra a opressão de um governo que está às portas de um tumultuado período de eleição, Afshin encoraja seus amigos a se apresentarem – e também vela por sua namorada, uma jovem usuária de drogas que tenta inutilmente vencer o seu vício.

01

Particularmente, eu tenho certa aversão a produções que envolvam a dança como tema principal (apesar de admirar muito esta expressão artística). No entanto, para alem de utilizar a dança como instrumento narrativo, O Dançarino do Deserto se faz cativar por tratar a arte como fonte de libertação do sofrimento causado pela dor, angústia, medo e repressão. Ambientado em Teerã, no período das conturbadas eleições presidenciais de 2009, o diretor estreante Richard Raymond nos revela a arte como elemento indispensável de resistência – através dela, é possível se rebelar, soltar a voz e clamar por justiça, igualdade e liberdade. Ela funciona aqui como uma ferramenta de inclusão política – ainda que forças externas tentem a combater.

02

Infelizmente, o cineasta escorrega na busca de soluções não apenas previsíveis, mas fáceis – exagerando o tom melodramático da fita e deixando-a com cara de novelão mexicano. Talvez essa “limitação” possa ser causada por se tratar de uma história “real”, talvez o roteirista Jon Croker (cujo currículo não tem nada mais expressivo do que A Mulher de Preto 2: Anjo da Morte – o que não é nenhum ponto muito favorável no currículo) quisesse transcrever exatamente como tudo aconteceu – inclusive o próprio Afshin teria trabalhado em conjunto com Croker. O fato é que O Dançarino do Deserto possui boas cenas – a apresentação em meio às areias do deserto são curiosamente interessantes, assim como o desfecho da narrativa – , mas é impossível se apaixonar tanto pela obra. O Dançarino do Deserto pode até servir como uma referência a inevitáveis debates sobre o tema, mas nunca uma excelente experiência cinematográfica.

A Mulher de Preto (The Woman in Black)

A Mulher de Preto conta a história de Arthur Kipps, um jovem advogado e pai viúvo, desestabilizado emocionalmente desde a morte de sua esposa, que viaja para uma cidade do interior da Inglaterra para cuidar dos papéis de um cliente falecido recentemente, dono de uma mansão. Lá, ele descobre que há o espírito de uma mulher que toda vez que é visto causa a morte trágica de uma criança da cidade. Mais tarde, Arthur descobre que o espírito apenas deseja vingança por conta da morte de seu filho, cujo corpo nunca fora encontrado.

O filme tem todos os elementos próprios deste tipo de película. Vamos lá: homem da cidade que não acredita nas crendices de pessoas simples do campo, confere; atmosfera sinistra, confere; história envolvendo o sobrenatural, confere; cenário do interior de uma Inglaterra no início do século XX, confere. Entretanto, nem mesmo estes elementos são capazes de impedir que A Mulher de Preto deslize e se torne uma quase furada.

A princípio, já somos apresentados claramente a uma falha na escolha do ator principal. Apesar do roteiro destacar a juventude de Kepps, Daniel Radcliffe é absolutamente muito jovem para o papel – além do fato de Radcliffe ainda estar muito vivo na memória dos fãs como o bruxinho Harry Potter, personagem principal de uma das maiores franquias do cinema. Radcliffe faz um tremendo esforço para o papel que, definitivamente, não foi feito para ele. Afinal, Daniel em nada se parece com um viúvo que tem um filho de cinco anos. A sensação é a de que estamos em uma montagem de teatro escolar, onde crianças e adolescentes fazem personagens adultos. Além disso, o rosto assustado de Radcliffe a todo instante é irritante – e essa foi a única expressão que o ator conseguiu fazer durante todo o filme.

Depois, o filme tropeça – e muito – no roteiro. A história em si tem um grande potencial, pois é um legítimo conto de fantasmas. O que acontece é que ela não decola: as sequências são longas e cansativas, com pouquíssimos sustos. sustos. Alem disso, a lógica com que Kepps descobre o “grande” mistério do fantasma é, sob certo aspecto, duvidosa (confesso que ri com a facilidade com que o advogado encontra o corpo do filho do fantasma), o que faz com que o filme caminhe para um final bem diferente daquilo que se espera – e que não deixa de ser decepcionante para o espectador.

Mas tudo isso pode ser, talvez, creditado à falta de uma direção madura: percebe-se que o diretor James Watkins não teve pulso forte para conduzir sua obra e não aproveitou o potencial da trama. Parece que não é apenas uma história sobre fantasmas. A direção, ao que tudo indica, também é difícil de enxergar.