Drama Dinamarquês “Guerra” é Mais do Mesmo

Os filmes de guerra ambientados no Afeganistão e Iraque surgiram aos montes nos últimos anos – e, salvo algumas poucas exceções, não trazem propostas muito diferentes entre si. Muda-se uma situação, talvez, mas a premissa é sempre a mesma: um grupo de soldados na efervescência da guerra e um ou outro questionamento pessoal a ser tratado. Na realidade, este é um gênero que, cá entre nós, precisa ser reinventado urgentemente. No caso de Guerra, temos Claus M. Pedersen, um comandante dinamarquês à frente de uma patrulha de paz no Afeganistão – o que, por si só, já não é uma situação fácil. Para piorar, sua esposa está em casa lutando diariamente para criar os três filhos que sentem a falta do pai como nunca antes.

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E assim Guerra segue a mesma linha de tantos outros. Oscila seu roteiro entre as sequências de batalha e as cenas de drama familiar de forma bastante equilibrada, mas sem apresentar nada muito novo. Em alguns momentos, por exemplo, é impossível não associar a produção nórdica a títulos como Sniper Americano ou Guerra ao Terror (talvez o mais expressivo produto desse tipo que, em 2010, faturou 6 estatuetas do Oscar). É como se Guerra fosse, na verdade, pedaços de várias outras obras do gênero juntas em um único lugar. O que talvez destaque ligeiramente o longa de Tobias Lindholm é sua mudança de tom a partir da segunda metade da fita: por conta de uma decisão equivocada em meio ao terror de uma batalha, a ética de seu protagonista é superficialmente questionada – e aí Guerra se transforma em uma narrativa de tribunal. É quando se abre uma ponta para se discutir a questão dos direitos humanos durante os conflitos armados – e é impossível não criarmos inúmeros paralelos com casos que vemos aos montes por aí. Mas é apenas isso e Guerra pára por aí. Apesar de muito bem produzido (com uma fotografia que praticamente insere o espectador dentro da trama e um protagonista competente), Guerra é incapaz de marcar quem quer que seja devido à sua sobriedade e falta de ousadia – limitando-se apenas a ser mais um filme de guerra e nada além disso.

“Sniper Americano”: Um Filme Mediano de Eastwood

01Sniper Americano, novo longa de Clint Eastwood, conquistou recentemente um feito memorável: o filme foi o maior lançamento hollywoodiano na história para o mês de janeiro – batendo um recorde que pertencia, até então, ao megalomaníaco Avatar, de James Cameron. Esse fato ilustra uma verdade: o público norte-americano é patriota e dá valor ao seu país. Sniper Americano arrecadou mais de US$ 200 milhões apenas nos EUA e 6 indicações ao Oscar 2015, incluindo o prêmio de melhor filme – mas isso não faz de Sniper Americano uma produção isenta de defeitos ou acima da média.

O filme é uma adaptação da autobiografia de Chris Kyle, um soldado de elite do exército norte-americano, considerado o atirador mais letal da história. Após anos servindo seu país, o combatente morreu em 2013 durante um exercício de tiro no Texas, quando foi assassinado por um veterano de guerra com problemas psicológicos. A narrativa acompanha Chris em suas quatro missões, período em que matou mais de cem pessoas – se tornando, assim, uma lenda viva em sua corporação.

Sniper Americano é aquele típico filme que Hollywood adora levantar a moral (concedendo-lhe inúmeros elogios) e capaz de levar milhares ao cinema – mas nem sempre cumprindo com sua proposta. Não que a fita seja ruim; a bem da verdade, há um ponto em Sniper Americano que é irrepreensível: a atuação de Bradley Cooper, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. O bonitão ganhou uns quilos e músculos a mais e ficou fisicamente impecável, mostrando total entrega em sua performance. Cooper ganhou o respeito de muita gente se distanciando do belo rapaz de olhos claros que protagonizava comédias românticas estúpidas e provando que é um artista de talento. A parte esse quesito, há de se mencionar o ótimo trabalho de fotografia do longa, assim como sua edição, som e efeitos especiais, cuja qualidade ficava explícita nos momentos mais oportunos da trama.

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Entretanto, talvez dois pecados sejam bastante perceptíveis: o roteiro de Jason Hall e a direção de Clint (ou talvez, seja um ou outro e não temos como saber quem necessariamente é o culpado). Apesar de Clint se posicionar de forma competente nas cenas de ação, o cineasta perde a mão nas sequências mais dramáticas, onde as questões familiares e pessoais de Kyle foram tratadas com total superficialidade. Talvez, a ideia aqui era fazer de Chris um grande herói de guerra (como o realmente pode ter sido), mas o roteiro não foi capaz disso. Como resultado, quem vê Sniper Americano fora do olhar norte-americano não consegue se identificar com sua personagem central e chega até mesmo a achar irreal sua obsessão. Em outras palavras, a vida privada de Chris é deixada de lado – e quanto mais isso acontece, mais desumano ele se torna.

Apesar dos primores técnicos, Sniper Americano não é um filme que tende a agradar ao público fora dos EUA. Aliás, se por lá a crítica especializada já não é unanime, quem dirá fora deste contexto. Sniper Americano vem recebido uma enxurrada de comentários negativos por conta de sua propaganda de guerra – afinal, cá entre nós, louvar como herói um homem que tirou a vida de tanta gente é, no mínimo, hipocrisia (mesmo que ele tenha salvo a vida de outros tantos). Por mais que contenha algumas cenas incríveis (especialmente os créditos finais acompanhados com a trilha de Ennio Morricone, que é uma ode de amor de Clint à sua terra natal), Sniper Americano funciona muito mais como um anúncio e engrandecimento do povo norte-americano do que uma biografia elogiável – e prova, como nunca, que mesmo um filme mediano de um diretor conceituado ainda assim será mediano.