Marvin (Marvin)

Marvin nunca fora como os outros garotos de sua idade. Por conta de sua personalidade tímida e introspectiva, virou alvo fácil dos abusos e maus tratos dos colegas da escola; já em casa, é desprezado pela família pobre (social e culturalmente), que o considera muito efeminado. Inseguro, ele está naquela fase em que você sabe que alguma coisa está acontecendo, mas ainda não sabe muito bem o que é e muito menos como lidar com ela. Ao se juntar ao grupo teatral do colégio de sua pequena cidade, o adolescente descobre sua verdadeira vocação – e também uma válvula de escape para as situações que o atormentam. Mais tarde, ao atingir a maioridade, Marvin se muda para Paris com o sonho de tornar-se ator e, em meio à produção de seu espetáculo, o artista relembra trechos de sua tumultuada infância.

Inspirado na autobiografia escrita por Édouard Louis, Marvin  é um longa francês que vai muito além de um simples coming out. Com uma narrativa não linear (que vai e vem, através das memórias de seu protagonista), o filme dirigido por Anne Fontaine (Coco Antes de Chanel  e Agnus Dei) nos permite observar de perto os dramas de um indivíduo em busca não apenas de aceitação, mas sobretudo afirmação como o ser humano que é – e, portanto, igual a qualquer outro e digno de respeito. Ousada em sua condução, a cineasta nos apresenta inúmeros momentos fragmentados, porém significativos, que marcaram a trajetória de seu personagem principal, como as humilhações, agressões, os questionamentos, os desejos – enfim, tudo o que contribuiu na formação de Marvin, vivido por um Finnegan Oldfield irrepreensível. O ator consegue ir da total inexpressão a um turbilhão de sentimentos com muita naturalidade – Finnegan é um intérprete que se comunica demais através do olhar e isso agrega muito às suas atuações. A ausência de linearidade, contudo, não dificulta a compreensão desta poderosa obra (mesmo que algumas sequências possam parecer um pouco incoerentes ou soltas em seu contexto). Marvin  não deixa de tocar em pontos tão comuns a filmes deste gênero (aceitação, bullying, homofobia), mas seu lirismo e sensibilidade tornam a experiência muito mais agradável e enriquecedora.

Gemma Bovery: A Vida Imita a Arte (Gemma Bovery)

Filmes que dialogam com a literatura costumam ser atraentes. François Ozon, por exemplo, entregou em 2013 sua obra-prima Dentro da Casa, amplamente elogiado pela crítica e considerado uma das melhores produções daquele ano. Estrelado por Fabrice Luchini, o longa de Ozon flertava com a narrativa literária ao abordar o caso de um professor de língua francesa obcecado pelos textos de um de seus alunos. Com um personagem com caráter voyeurístico bastante próximo, Luchini é um dos protagonistas de Gemma Bovery: A Vida Imita a Arte, comédia dramática da cineasta Anne Fontaine que, como o título sugere, faz uma referência à obra máxima de Gustave Flaubert.

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Quem narra os acontecimentos do longa é Martin Joubert (Luchini), padeiro local que vive tranquilamente com sua família em uma pequena e pacata região da Normandia. Preso a um relacionamento morno e sem muitas novidades, a vida de Martin ganha mais sentido com a chegada de Gemma Bovery (a atriz Gemma Arterton), uma decoradora inglesa que muda-se para a vizinhança com seu marido Charles, um restaurador de peças de arte. Entediada com a rotina do casamento, não demora muito para que Emma se lance aos braços de outro homem – enquanto Martin (em um misto de voyeurismo e paixão) acompanha de longe os passos da jovem.

Gemma Bovery propõe a união entre cinema e literatura através dos destinos de suas personagens, uma alusão óbvia à leitura de Madame Bovary, prosa escrita por Flaubert em 1857 e que foi um escândalo na época de sua publicação. É interessante a forma como a trama é conduzida: por um lado, os acontecimentos nos levam a imaginar um possível romance entre Emma e Joubert – e chega a ser quase frustrante o surgimento de uma terceira pessoa; por outro lado, o argumento não é capaz de desenvolver muito bem seus personagens – com exceção do próprio Joubert. O espectador que não conhece o romance talvez sinta-se um tanto perdido com as referências lançadas ao longo da película; no entanto, Gemma Bovery nos oferece, enquanto cinema, um ótimo trabalho de direção de arte e fotografia, que contribui muito para criar alguns bons momentos, que vão do sensual (não exagerado) ao cômico. Com um desfecho incomum, o tom leve e delicado fazem de Gemma Bovery um filme que está longe de ser impecável, mas não deixa de ter seu valor como produto cinematográfico.