Vidas Entrelaçadas (Coutures, 2025)

Às vésperas de um importante evento de moda na badalada – mas, aqui, também melancólica – Paris, três mulheres enfrentam seus dilemas pessoais: uma cineasta que, enquanto tenta se reaproximar da filha adolescente, é diagnosticada com um câncer; uma garota sul-sudanesa, aposta promissora de uma marca famosa, apesar de não demonstrar qualquer talento para a profissão de modelo; e uma maquiadora, aspirante a escritora, que vive de pequenos bicos.

A julgar por seu título nacional, Vidas Entrelaçadas, é de se supor que, em tese, essas três trajetórias femininas apontam para um lugar comum; entretanto, o filme dirigido por Alice Winocour (de Augustine e A Jornada) trata essas histórias paralelamente, recusando qualquer convergência mais evidente entre elas. Embora eventualmente essas personagens se cruzem no decorrer da história, o roteiro delineia esses conflitos à distância, como se estivesse mais interessado na justaposição das experiências individuais do que em sua fusão.

Essa estrutura dispersa não é necessariamente ruim; pelo contrário, ela reforça a sensação de isolamento que perpassa as três protagonistas, ainda que inseridas em um ambiente tão coletivo e glamouroso quanto o da alta costura. Sob certo aspecto, a obra sugere uma crítica à dificuldade contemporânea de conexões, mesmo em um contexto atual mediado por instrumentos que, em teoria, aproximariam essas pessoas. Portanto, longe de soar como falha (como muitos podem argumentar), essa ausência de um entrelaçamento mais “concreto” é uma característica narrativa que acentua a fragilidade desses corpos, que habitam um mesmo espaço, mas não dividem o mesmo mundo.

Elas vivem, inclusive, um mesmo impasse profissional, à medida que atuam em funções que não correspondem a seus desejos ou aspirações mais íntimas: Maxine, cineasta mais alternativa, só aceita produzir um vídeo para o desfile pelo cachê; Ada é seduzida pelo universo da moda, que lhe permite uma rápida ascensão, mas lhe cobra um alto preço, fazendo-a abdicar de sua vocação genuína; Angèle, por sua vez, busca firmar-se como escritora, quase às escondidas, adiando constantemente seu sonho para dedicar-se à sobrevivência imediata. Todas elas ocupam lugares que não são propriamente seus, como se fossem versões provisórias de si mesmas, sobrepostas às suas identidades mais autênticas.

É notório, todavia, que o argumento privilegia um desses núcleos, aquele protagonizado por Angelina Jolie, que toma a maior parte do filme com seu drama rocambolesco. É na sobriedade e, sobretudo, na presença hipnótica de Jolie que a história de Maxine se sustenta, mesmo que às custas de um melhor desenvolvimento das demais tramas, principalmente a de Angèle, interpretada por Ella Rumpf. As figuras masculinas, por sua vez, são poucas e surgem parcamente, mas completam o elenco europeu estelar: um mal aproveitado Finnegan Oldfield, limitado a uma única cena; um Vincent Lindon, em modo automático, no papel do médico responsável por revelar a doença de Maxine; e Louis Garrel, assistente da diretora – e, à semelhança de Jolie, dotado de um magnetismo que é imediatamente reconhecido pela câmera, ainda que o roteiro pouco explore seu potencial.

Justamente por todas essas escolhas, Vidas Entrelaçadas pode parecer funcionar melhor em partes, como se o mosaico que se propõe não fosse coeso em sua integralidade. Visualmente atraente, é um filme que pode gerar identificação, mas que, ao evitar o confronto mais direto entre suas linhas narrativas, acaba tornando menos incisivo o impacto que poderia causar no espectador. Revela-se, desse modo, um conjunto de intenções que, fragmentadas, encontram ressonâncias, ainda que o conjunto não se articule plenamente.

Marvin (Marvin)

Marvin nunca fora como os outros garotos de sua idade. Por conta de sua personalidade tímida e introspectiva, virou alvo fácil dos abusos e maus tratos dos colegas da escola; já em casa, é desprezado pela família pobre (social e culturalmente), que o considera muito efeminado. Inseguro, ele está naquela fase em que você sabe que alguma coisa está acontecendo, mas ainda não sabe muito bem o que é e muito menos como lidar com ela. Ao se juntar ao grupo teatral do colégio de sua pequena cidade, o adolescente descobre sua verdadeira vocação – e também uma válvula de escape para as situações que o atormentam. Mais tarde, ao atingir a maioridade, Marvin se muda para Paris com o sonho de tornar-se ator e, em meio à produção de seu espetáculo, o artista relembra trechos de sua tumultuada infância.

Inspirado na autobiografia escrita por Édouard Louis, Marvin  é um longa francês que vai muito além de um simples coming out. Com uma narrativa não linear (que vai e vem, através das memórias de seu protagonista), o filme dirigido por Anne Fontaine (Coco Antes de Chanel  e Agnus Dei) nos permite observar de perto os dramas de um indivíduo em busca não apenas de aceitação, mas sobretudo afirmação como o ser humano que é – e, portanto, igual a qualquer outro e digno de respeito. Ousada em sua condução, a cineasta nos apresenta inúmeros momentos fragmentados, porém significativos, que marcaram a trajetória de seu personagem principal, como as humilhações, agressões, os questionamentos, os desejos – enfim, tudo o que contribuiu na formação de Marvin, vivido por um Finnegan Oldfield irrepreensível. O ator consegue ir da total inexpressão a um turbilhão de sentimentos com muita naturalidade – Finnegan é um intérprete que se comunica demais através do olhar e isso agrega muito às suas atuações. A ausência de linearidade, contudo, não dificulta a compreensão desta poderosa obra (mesmo que algumas sequências possam parecer um pouco incoerentes ou soltas em seu contexto). Marvin  não deixa de tocar em pontos tão comuns a filmes deste gênero (aceitação, bullying, homofobia), mas seu lirismo e sensibilidade tornam a experiência muito mais agradável e enriquecedora.

Coração e Alma (Réparer les Vivants)

Coração e Alma, novo filme de Katell Quillévéré, é estruturado em três segmentos. No primeiro deles, acompanhamos Marianne e Vincent, casal que acaba de receber a notícia de que o filho Simon sofrera morte cerebral, após um grave acidente automobilístico. Angustiados, eles devem decidir se autorizam ou não a doação dos órgãos do garoto. No segundo ato, não muito longe dali, Claire aguarda por um transplante de coração que pode salvar a sua vida.

Algumas diferenças podem ser observadas no desenvolvimento destas duas partes. O núcleo inicial sofre, a princípio, com o acúmulo de antagonistas que não agregam muito à narrativa. A construção destes personagens é rasa: é como se estivéssemos em um episódio de uma série, pois o roteiro parece ter sido “moldado” para nos fazer acreditar que já conhecemos essas pessoas e estamos familiarizados com seus traumas. Algumas sequências poderiam facilmente ser descartadas da película já que pouco falam ao espectador. Assim, o drama familiar acaba ofuscado, mesmo com as boas atuações do elenco – Emmanuelle Seigner, por exemplo, está ótima no papel da mãe desconsolada pela perda do filho (a intérprete há muito tempo deixou de ser simplesmente “a esposa de Polanski”, colecionando títulos e atuações que merecem ser elogiadas).

O segundo núcleo, no entanto, é mais curto, porém mais eficiente. Anne Dorval é sutil na composição de Claire – no olhar, nos gestos, no tom de voz. A relação da mãe com os dois filhos, os graciosos Finnegan Oldfield e Théo Cholbi, é ligeiramente mais conflituosa, o que rende momentos mais interessantes – o mesmo vale para o relacionamento entre Claire e a pianista Alice, que estende o arco dramático para novas possibilidades. Na terceira e última parte, os dois núcleos anteriores se cruzam. Então, Coração e Alma adentra uma atmosfera de maior tensão, preparando o espectador para o desfecho (previsível) da história.

Coração e Alma é um longa executado de forma competente: da fotografia à carismática trilha assinada por Alexandre Desplat, o filme da idealizadora costa-marfinense fala sobre escolhas – e, principalmente, sobre aceitação – para tratar um tema atual que, por mais difícil que seja, deve ser discutido. No entanto, sua abordagem é deveras prática, direta, sem rodeios; não há espaço para o melodrama e talvez seja isso que torne Coração e Alma uma obra que pode significar muito para alguns e dizer pouco para outros.

Os Cowboys (Les Cowboys)

O título “Os Cowboys” é, no mínimo, curioso para uma produção francesa. Mas não se deixe enganar: o filme do estreante Thomas Bidegain é bem mais do que isso e provoca um questionamento interessante: até onde um ser humano é capaz de ir por alguém que ama?

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Alain é um pai de família que vive com a mulher e seus dois filhos no leste da França. De classe média, eles são apaixonados pela cultura country – o número musical do início da fita, inclusive, é agradabilíssimo. Tudo corre bem até o dia em que sua filha Kelly desaparece misteriosamente sem deixar rastros, o que leva Alain a partir em uma busca desenfreada por informações da adolescente. Anos mais tarde, Kid, o filho mais novo, continua ao lado do pai tentando reencontrar sua irmã, ainda que tudo o leve a acreditar que isso será impossível.

Desde o início da projeção, o espectador já é pego de jeito com o clima tenso do filme. Seja pela fotografia bem produzida ou pela excepcional e atordoante trilha sonora de Moritz Reich, a tensão e angústia predominam na fita – e isso faz com que o público embarque na aventura do pai e filho e acompanhe a gradativa destruição desta família. Aos poucos, os laços vão se enfraquecendo à medida em que eles se veem mais longe de encontrar a garota. A situação ainda piora quando se descobre que Kelly não fora sequestrada – e aí, o cenário do longa é mudado, o que é um dos grandes acertos da história. Outro trunfo de Os Cowboys é a troca de protagonistas: Alain cede lugar a Kid e isso proporciona também uma nova visão dos fatos, até chegar a um desfecho glorioso.

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Os Cowboys conta ainda com atuações poderosas por grande parte de seu elenco. François Damiens, irreconhecível, consegue transmitir todo o desespero de seu personagem em busca da filha desaparecida, em uma interpretação até superior àquela registrada em A Delicadeza do Amor (que já era primorosa). Já o jovem Finnegan Oldfield é um caso à parte: ele é genial desde sua primeira aparição na tela. Por alguma razão que eu ainda não consigo bem explicar qual, vê-lo em cena me fez lembrar Hailee Steinfeld em Bravura Indômita – e seria justíssimo qualquer prêmio que o ator ganhasse por sua performance, pois sua entrega à personagem é arrepiante. Drama fortíssimo e muito bem dirigido, Os Cowboys nos faz questionar até onde vale a pena ser consumido por uma causa e acreditar nela mesmo que, em muitos casos, ela já esteja perdida.