Com Atuações Acima da Média, “Os Cowboys” Surpreende com Tensão do Início ao Fim

O título “Os Cowboys” é, no mínimo, curioso para uma produção francesa. Mas não se deixe enganar: o filme do estreante Thomas Bidegain é bem mais do que isso e provoca um questionamento interessante: até onde um ser humano é capaz de ir por alguém que ama?

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Alain é um pai de família que vive com a mulher e seus dois filhos no leste da França. De classe média, eles são apaixonados pela cultura country – o número musical do início da fita, inclusive, é agradabilíssimo. Tudo corre bem até o dia em que sua filha Kelly desaparece misteriosamente sem deixar rastros, o que leva Alain a partir em uma busca desenfreada por informações da adolescente. Anos mais tarde, Kid, o filho mais novo, continua ao lado do pai tentando reencontrar sua irmã, ainda que tudo o leve a acreditar que isso será impossível.

Desde o início da projeção, o espectador já é pego de jeito com o clima tenso do filme. Seja pela fotografia bem produzida ou pela excepcional e atordoante trilha sonora de Moritz Reich, a tensão e angústia predominam na fita – e isso faz com que o público embarque na aventura do pai e filho e acompanhe a gradativa destruição desta família. Aos poucos, os laços vão se enfraquecendo à medida em que eles se veem mais longe de encontrar a garota. A situação ainda piora quando se descobre que Kelly não fora sequestrada – e aí, o cenário do longa é mudado, o que é um dos grandes acertos da história. Outro trunfo de Os Cowboys é a troca de protagonistas: Alain cede lugar a Kid e isso proporciona também uma nova visão dos fatos, até chegar a um desfecho glorioso.

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Os Cowboys conta ainda com atuações poderosas por grande parte de seu elenco. François Damiens, irreconhecível, consegue transmitir todo o desespero de seu personagem em busca da filha desaparecida, em uma interpretação até superior àquela registrada em A Delicadeza do Amor (que já era um primor). Já o jovem Finnegan Oldfield é um caso à parte: ele é genial desde sua primeira aparição na tela. Por alguma razão que eu ainda não consigo bem explicar qual, vê-lo em cena me fez lembrar Hailee Steinfeld em Bravura Indômita – e seria justíssimo qualquer prêmio que o ator ganhasse por sua performance, pois sua entrega à personagem é arrepiante. Drama fortíssimo e muito bem dirigido, Os Cowboys nos faz questionar até onde vale a pena ser consumido por uma causa e acreditar nela mesmo que, em muitos casos, ela já esteja perdida.

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Musical Agridoce em “Mesmo Se Nada Der Certo”

Mesmo Se Nada Der Certo (Begin Again, péssimo título e tradução pior) não é um musical no sentido clássico da palavra. Trata-se de uma variação do estilo, uma vez que a música no filme de John Carney (assim como em seu trabalho anterior, o elogiado Apenas Uma Vez) não é o principal, mas sim um elemento que auxilia no desenvolvimento narrativo – e Carney dosa com inteligência a utilização dos números musicais (algo surpreendente para um diretor com o currículo tão modesto).

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Estamos em Nova Iorque, uma cidade viva, por vezes melancólica, que recebe gente de todos os lugares do mundo em busca de oportunidades. Nesse cenário, conhecemos Gretta (Keira Knightley), uma compositora sem muitas ambições cujo namorado Dave (Adam Levine) tem uma carreira de cantor pop em ascensão. Não demora muito para que o novo estilo do rapaz suba à cabeça e ele abandone Gretta – que alem de namorada é sua parceira constante nas composições de suas músicas (e fonte de inspiração, claro). Desiludida, ela deixa o apartamento do casal e sai a procura de seu velho amigo Steve (James Corden) – um músico de rua que sobrevive com o pouco que ganha nas apresentações que faz em pequenos bares da cidade. Em um desses shows, Gretta sobe ao palco para uma participação especial (muito contrariada) e acaba chamando a atenção de Dan (Mark Ruffalo), um produtor musical que já viveu momentos de glória na carreira, mas hoje está falido, separado e mal amado.

É difícil encaixar Mesmo Se Nada Der Certo dentro de um gênero definido. Não é propriamente um musical, nem mesmo uma comédia ou um romance muito bem estruturado. Talvez fique melhor se encarado como um drama – e nesse quesito, o filme se sai bem, pois ele deixa de lado todos os clichês característicos do estilo (e de todos os outros citados). Suas personagens estão passando, todos eles, sem exceção, por aquela determinada fase da vida em que tudo parece perdido e sem solução – todos, a seu modo, são fracassados. Mas ao mesmo tempo percebe-se uma ponta de esperança, uma nota de otimismo em relação à vida. Eles não querem ganhar dinheiro, fazer sucesso e se tornar celebridades da indústria fonográfica: eles desejam ser felizes fazendo aquilo que amam, mesmo que isso não traga o retorno tão esperado.

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Através de uma série de baladas pop-folk, John Carney acompanha seus personagens enquanto tentam superar seus medos e fracassos – alem de criticar abertamente a posição da indústria fonográfica no mercado atual. A figura de Dave – que deixa de lado tudo aquilo em que acredita para criar canções pop e vender discos – evidencia uma tendência atual, onde artistas se preocupam muito mais em gerar lucros para as gravadoras do que necessariamente criar uma “boa música”, que atinja diretamente o ouvinte, que passe uma mensagem, que se torne especial na vida de alguém. Chega até a ser cômico o fato de este personagem ser representado por Adam Levine – tudo bem, é “O” Adam Levine, produto da mídia, que cria baladinhas pegajosas de gosto duvidoso, mas tem uma aparência invejável (e sabe muito bem como utiliza-la, claro).

Não que ele esteja mal. A bem da verdade, Adam é até charmoso em cena (e olha que eu, particularmente, tenho certa aversão a cantores (as) que atuam) – mas isso pode ser resultado da incrível química existente entre todo o elenco. Todos parecem estar muito a vontade (sugerindo até mesmo alguns momentos de improvisação), com um evidente destaque para Mark Ruffalo – que foge do padrão “mocinho e galã” dos dramas convencionais e consegue transparecer bem a gradativa transformação pela qual ser personagem passa ao longo da trama. Talvez a única atuação questionável é a de Hailee Steinfeld – a jovem de dezessete anos que já foi indicada ao Oscar e hoje parece colecionar os mesmos tipos (Hailee recentemente participou do longa 3 Dias Para Matar e suas duas personagens são praticamente idênticas).

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O desfecho da trama foge também do padrão. O tão esperado happy ending não ocorre – ou pelo menos, não no sentido mais tradicional. Cada um termina da maneira como queria, da forma como esperava – e isto distancia ainda mais Mesmo Se Nada Der Certo de qualquer gênero específico. Com uma única exceção: o romance – mas não entre duas pessoas, mas entre a música e a cidade de Nova Iorque. Ciente de seus poucos recursos e sem um tostão no bolso, Dan e Gretta decidem gravar seu álbum em diferentes pontos da cidade – e graças a isso, somos levados a vários cantos de uma Nova Iorque iluminada e cheia de vida. Mesmo Se Nada Der Certo acerta em cheio ao tratar as reviravoltas pelas quais, inevitavelmente, todos passamos na vida – sem estereótipos e com muita delicadeza, fugindo do final previsível e das músicas pop açucaradas dos musicais convencionais.

Ah, momento tietagem: mesmo se nada desse certo (trocadilho previsível), ainda teríamos Adam Levine com e sem barba, com bigode, com toca, com o cabelo bagunçado… E, olha, vai por mim: compensa!