“Marvin”: ‘Coming Out’, Homofobia e Busca por Aceitação

Marvin nunca fora como os outros garotos de sua idade. Por conta de sua personalidade tímida e introspectiva, virou alvo fácil dos abusos e maus tratos dos colegas da escola; já em casa, é desprezado pela família pobre (social e culturalmente), que o considera muito efeminado. Inseguro, ele está naquela fase em que você sabe que alguma coisa está acontecendo, mas ainda não sabe muito bem o que é e muito menos como lidar com ela. Ao se juntar ao grupo teatral do colégio de sua pequena cidade, o adolescente descobre sua verdadeira vocação – e também uma válvula de escape para as situações que o atormentam. Mais tarde, ao atingir a maioridade, Marvin se muda para Paris com o sonho de tornar-se ator e, em meio à produção de seu espetáculo, o artista relembra trechos de sua tumultuada infância.

Inspirado na autobiografia escrita por Édouard Louis, Marvin  é um longa francês que vai muito além de um simples coming out. Com uma narrativa não linear (que vai e vem, através das memórias de seu protagonista), o filme dirigido por Anne Fontaine (Coco Antes de Chanel  e Agnus Dei) nos permite observar de perto os dramas de um indivíduo em busca não apenas de aceitação, mas sobretudo afirmação como o ser humano que é – e, portanto, igual a qualquer outro e digno de respeito. Ousada em sua condução, a cineasta nos apresenta inúmeros momentos fragmentados, porém significativos, que marcaram a trajetória de seu personagem principal, como as humilhações, agressões, os questionamentos, os desejos – enfim, tudo o que contribuiu na formação de Marvin, vivido por um Finnegan Oldfield irrepreensível. O ator consegue ir da total inexpressão a um turbilhão de sentimentos com muita naturalidade – Finnegan é um intérprete que se comunica demais através do olhar e isso agrega muito às suas atuações. A ausência de linearidade, contudo, não dificulta a compreensão desta poderosa obra (mesmo que algumas sequências possam parecer um pouco incoerentes ou soltas em seu contexto). Marvin  não deixa de tocar em pontos tão comuns a filmes deste gênero (aceitação, bullying, homofobia), mas seu lirismo e sensibilidade tornam a experiência muito mais agradável e enriquecedora.

Anúncios

Festival Varilux de Cinema Francês 2018: Programação Imperdível Para Junho

Marque aí na agenda: entre os dias 07 e 20 de junho de 2018 acontecerá em todo o país o Festival Varilux de Cinema Francês. O evento, já considerado o maior festival de cinema francês do mundo, percorrerá cerca de 60 cidades brasileiras, oferecendo ao público a oportunidade de conhecer 20 longas-metragens da atual cinematografia francesa.

Entre os principais títulos, os destaques ficam por conta de O Amante Duplo, novo trabalho de François Ozon e que concorreu a Palma de Ouro em Cannes em 2017. Custódia, de Xavier Legrand, também é um dos mais aguardados desta edição. O filme, que foi um das grandes surpresas da última Mostra de Cinema de São Paulo, concedeu a seu idealizador o prêmio de melhor direção no Festival de Veneza. A cineasta Anne Fontaine (que participou nos últimos anos com Gemma Bovery  e Agnus Dei) chega com Marvin, drama sobre um adolescente gay interpretado por Finnegan Oldfield e que ainda tem no elenco a dona da França Isabelle Huppert.

A dupla Pierre Niney e Charlotte Gainsbourg estrelam o drama autobiográfico Promessa ao Amanhecer, baseado no livro de Romain Gary, onde o autor relembra sua juventude na Lituânia e seu êxodo como aviador durante a Segunda Guerra Mundial. Além disso, o oscarizado Jean Dujardin e Mélanie Laurent são os protagonistas da comédia O Retorno do Herói, de Laurent Tirard (diretor de O Pequeno Nicolau e Um Amor à Altura). O documentário da vez será A Busca do Chef Ducasse, sobre o chef  e mentor de culinária Alain Ducasse. Já o clássico do ano será Z, de Costa-Gravas. A produção franco-argelina recebeu 5 indicações ao Oscar em 1970: melhor filme, direção, roteiro adaptado, edição e filme estrangeiro (levando os dois últimos).

Além dos títulos, o Festival também apresentará pela segunda vez a Mostra de Realidade Virtual, uma seleção com cerca de 8 dos melhores filmes franceses nesta categoria. Também haverá, em parceria com a Unifrance Films, uma mostra com curtas-metragens premiados em diversos festivais, como Belle à Croquer (cujo elenco traz as atrizes Lou de Laâge e a dama Catherine Deneuve) e o elogiado Garden Party, que concorreu ao último Oscar. A delegação francesa, por sua vez, contará com a presença de 8 artistas: Finnegan Oldfield, Nabil Ayouch, Yannick Renier, Maryam Touzani, Jérèmie Renier, Fabien Gorgeart, Clotilde Hesme e Zita Hanrot.

Confira abaixo a lista completa dos títulos desta edição:

50 SÃO OS NOVOS 30 (Marie Francine), de Valérie Lemercier
O AMANTE DUPLO (L’Amant Double), de François Ozon
A APARIÇÃO (L’Apparition), de Xavier Giannoli
A BUSCA DO CHEF DUCASSE (La Quête D’Alain Ducasse), de Gilles de Maistre
CARNÍVORAS (Carnivores), de Jérémie Renier e Yannick Renier
DE CARONA PARA O AMOR (Tout le Mond Debout), de Franck Dubosc
CUSTÓDIA (Jusqu’à la Garde), de Xavier Legrand
A EXCÊNTRICA FAMÍLIA DE GASPARD (Gaspard va au Mariage), de Antony Cordier
GAUGUIN – VIAGEM AO TAITI (Gauguin – Voyage de Tahiti), de Edouard Deluc
MARVIN (Marvin ou la Belle Éducation), de Anne Fontaine
A NOITE DEVOROU O MUNDO (La Nuit a Devoré le Monde), de Dominique Rocher
NOS VEMOS NO PARAÍSO (Au Revoir Là-Haut), de Albert Dupontel
O ORGULHO (Le Brio), de Yvan Attal
O PODER DE DIANE (Diane a les Épaules), de Fabien Gorgeart
PRIMAVERA EM CASABLANCA (Razzia), de Nabil Ayouch
PROMESSA AO AMANHECER (La Promesse de L’Aube), de Eric Barbier
A RAPOSA MÁ (Le Grand Méchant Renard et Autres Contes), de Benjamin Renner e Patrick Imbert
O RETORNO DO HERÓI (Le Retour du Héros), de Laurent Tirard
TROCA DE RAINHAS (L’Échange des Princesses),  de Marc Dugain
O ÚLTIMO SUSPIRO (Dans la Brume), de Daniel Roby
Z (Z), de Costa-Gavras

——————————————————————————————————————————

FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS 2018

Data: de 07/06/2018 a 20/06/2018
Informações: http://variluxcinefrances.com/2018/

Festival Varilux de Cinema Francês 2016: Programação Imperdível no Mês de Junho

01Não há dúvidas: a melhor programação para os cinéfilos de carteirinha no próximo mês é o Festival Varilux de Cinema Francês 2016, que neste ano vai rolar entre os dias 8 e 22 de junho em todo o país.

A edição deste ano chega com força total: ao todo, são 16 produções (sendo 15 filmes inéditos) que serão exibidas em 50 cidades brasileiras, igualando ao recorde do ano anterior. Além disso, o evento ganhou uma semana a mais em relação à sua edição passada – o que, por si só, já demonstra o quanto o Festival se tornou um dos principais veículos de disseminação da cultura francesa no Brasil. Com isso, o público nacional poderá conhecer de perto a nova safra da produção cinematográfica da França – um país com um histórico aclamado na sétima arte.

Além dos títulos, o Festival conta também com atividades paralelas, como as já conhecidas Oficinas de Roteiro (que acontecem nas cidades do Rio de Janeiro e Recife) e também a Oficina de Crítica Cinematográfica – que neste ano será ministrada por Jean-Michel Frodon, ex-diretor de redação da cultuada revista Cahiers du Cinéma. Também já tem presença confirmada os diretores Roschdy Zem (cujo filme Chocolate, com Omar Sy, é um dos mais aguardados) e Philippe Le Guay (de Pedalando com Molière) e os atores Finnegan Oldfield, Vincent Lacoste e Lou de Laâge  – esta última, considerada uma das atrizes mais promissoras de sua geração.

Confira abaixo os títulos que estarão presente nesta edição do Festival Varilux:

ABRIL E O MUNDO EXTRAORDINÁRIO (Franck Ekinci, Christian Desmares)
AGNUS DEI (Anne Fontaine)
UM BELO VERÃO (Catherine Corsini)
CHOCOLATE (Roschdy Zem)
A CORTE (Christian Vincent)
OS COWBOYS (Thomas Bidegain)
UM DOCE REFÚGIO (Bruno Podalydès)
FLÓRIDA (Philippe Le Guay)
UM AMOR À ALTURA (Laurent Tirard)
LOLO, O FILHO DA MINHA NAMORADA (Julie Delpy)
MEU REI (Maïwenn)
MARGUERITE (Xavier Giannoli)
O NOVATO (Rudi Rosenberg)
LA VANITÉ (Lionel Baier)
VIVA A FRANÇA (Christian Carion)
UM HOMEM, UMA MULHER (Claude Lelouch)

——————————————————————————————————————————

FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS 2016

Data: de 08/06/2016 a 22/06/2016
Informações: http://variluxcinefrances.com/2016/

“Gemma Bovery”: Quando a Vida Imita a Arte

Filmes que dialogam com a literatura costumam ser atraentes. François Ozon, por exemplo, entregou em 2013 sua obra-prima Dentro da Casa, amplamente elogiado pela crítica e considerado uma das melhores produções daquele ano. Estrelado por Fabrice Luchini, o longa de Ozon flertava com a narrativa literária ao abordar o caso de um professor de língua francesa obcecado pelos textos de um de seus alunos. Com um personagem com caráter voyeurístico bastante próximo, Luchini é um dos protagonistas de Gemma Bovery, comédia dramática da cineasta Anne Fontaine que, como o título sugere, faz uma referência à obra máxima de Gustave Flaubert.

02

Quem narra os acontecimentos do longa é Martin Joubert (Luchini), padeiro local que vive tranquilamente com sua família em uma pequena e pacata região da Normandia. Preso a um relacionamento morno e sem muitas novidades, a vida de Martin ganha mais sentido com a chegada de Gemma Bovery (a atriz Gemma Arterton), uma decoradora inglesa que muda-se para a vizinhança com seu marido Charles, um restaurador de peças de arte. Entediada com a rotina do casamento, não demora muito para que Emma se lance aos braços de outro homem – enquanto Martin (em um misto de voyeurismo e paixão) acompanha de longe os passos da jovem.

01Gemma Bovery propõe a união entre cinema e literatura através dos destinos de suas personagens, uma alusão óbvia à leitura de Madame Bovary, prosa escrita por Flaubert em 1857 e que foi um escândalo na época de sua publicação. É interessante a forma como conduz a trama: por um lado, os acontecimentos nos levam quase a crer em um possível romance entre Emma e Joubert – e chega a ser quase frustrante o surgimento de uma terceira pessoa; por outro lado, o argumento não é capaz de desenvolver bem seus tipos – com exceção do próprio Joubert. Apesar da boa direção dos atores, Fontaine escorrega em alguns poucos pontos, mas o suficiente para tornar o filme não muito linear. Resumindo: os atores estão bem, mas os personagens não colaboram muito com o restante.

O espectador que não conhece o romance talvez se sinta um tanto perdido com as referências lançadas ao longo da película; no entanto, Gemma Bovery nos oferece, como cinema, um ótimo trabalho de direção de arte e fotografia, que contribui muito para criar alguns bons momentos, que vão do sensual (não exagerado) ao cômico. Com um desfecho incomum, o tom leve e delicado fazem de Gemma Bovery um filme que está longe de ser impecável, mas não deixa de ter seu valor como produto cinematográfico.