Dois Amigos (Les Deux Amis)

Um dos intérprete francês mais badalados na atualidade, Louis Garrel esteve por esses dias no Brasil para a pré-estreia de seu primeiro longa-metragem como diretor, Dois Amigos, baseado na peça Les Caprices de Marianne, de Alfred de Musset. Selecionado para a semana da crítica no Festival de Cannes desse ano e aplaudido no Lisbon & Estoril Film Festival 2015, quando foi apresentado, Dois Amigos revela o potencial de Garrel por trás das câmeras, partindo de uma premissa já manjada no cinema: a história de dois homens que se apaixonam pela mesma mulher.

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Mas isso não é, necessariamente, um problema. Hitchcock, inspiradíssimo, uma vez afirmou que, no cinema, não faz mal partir do clichê – o ruim é ficar nele, como o próprio Garrel teria citado. Garrel parece ter seguido a receita à risca: parte de um tema recorrente, mas cria uma narrativa, no mínimo, instigante. A trama gira em torno de um complicado triângulo amoroso formado por Mona (Golshifteh Farahani), uma presidiária que trabalha durante o dia em uma cafeteria para reduzir sua pena, e os melhores amigos Clément (Vincent Macaigne) e Abel (o próprio Louis). Quando o primeiro é “dispensado” por Mona, ele recorre ao companheiro para reconquistar a amada.

Conhecido por atuar em filmes de caráter cult (e também por suas aparições como veio ao mundo na maior parte de seus trabalhos), Garrel não faz aqui uma obra tão sofisticada, cinematograficamente falando. Na verdade, sob o ponto de vista cinematográfico, Dois Amigos é um longa relativamente “simples”, sem grandes surpresas e até mesmo previsível em alguns momentos. O roteiro de Garrel em parceria com seu amigo Christophe Honoré (com quem Louis já trabalhou em diversas ocasiões) é uma espécie de “bromance à francesa”, arrancando risadas do público com algumas situações inusitadas de seus protagonistas, apesar de não ser necessariamente uma “comédia” convencional com muito escracho. É na leveza da condução de sua mise-en-scène que Dois Amigos tem méritos, sobretudo nas escolhas estéticas de Garrel, como na excelente trilha sonora e na fotografia modesta mas enquadrada na proposta, bem como o figurino urbano que aposta na casualidade e agrega certo charme ao todo.

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É talvez na construção de suas personagens, entretanto, que Garrel ganha maiores créditos como cineasta. Logo de cara é possível identificar bem cada um dos tipos, pois Louis acerta no tempo certo que concede a cada um deles. Clément é o típico “último romântico”: acredita no amor e, consequentemente, sempre se frustra diante de um acontecimento que o impeça de alcançá-lo – além de sua insegurança natural que o faz admirar ainda mais Abel, o amigo bon vivant que arranca suspiros das mulheres (e alguns homens). Juntos, no entanto, eles não passam de dois indivíduos imaturos que não fazem a menor questão de se tornarem maduros. Frágeis, esses dois personagens precisam um do outro a todo instante, mesmo que não se deem conta disso – e são reflexos de uma geração que se recusa a assumir responsabilidades. Mona, por sua vez, é sempre retratada com certo ar de mistério: nunca descobrimos qual o motivo de sua prisão ou qual ato reprovável ela possa ter feito – e a beleza exótica de sua intérprete aguça nossa curiosidade. É ela a responsável por protagonista um número de dança que, em minha opinião, é uma das melhores cenas do cinema francês nesta temporada.

Dois Amigos, em determinadas ocasiões, até nos remete a Truffaut (Jules e Jim) ou Godard (Uma Mulher é Uma Mulher) – especialmente este último, no tom leve da narrativa. Não, não há intenção aqui de comparar Louis Garrel a qualquer um desses grandes cineastas. No entanto, Dois Amigos é um excelente debut para um artista que, injustamente, ficou marcado sobretudo por sua beleza irradiante ou por ser filho de quem é – e não pelo talento (e muito) que possui. Dois Amigos é o princípio da libertação de Garrel – e a julgar por seu desempenho aqui e em outros curtas, tudo nos leva a crer que Garrel ainda vai dar muito que falar…

Uma Mulher é Uma Mulher (Une Femme Est Une Femme)

Uma Mulher é Uma Mulher é, de longe, um dos momentos mais agradáveis da obra de um cineasta cujo nome é comumente acompanhado dos adjetivos “genial” e “chato”. Segundo filme de Jean-Luc Godard, lançado após o unânime Acossado, de 1960, Uma Mulher é Uma Mulher é uma comédia deliciosa onde o diretor abusa das experimentações técnicas enquanto critica a supervalorização das atrizes no cinema (o tipo femme fatale) – revelando a clara intensão de cutucar os valores da estética cinematográfica daquela época. Iniciando sua próspera e bem sucedida parceria com Godard, a modelo Anna Karina (que, na ocasião, já era companheira do artista) é a personificação da jovialidade e beleza na pele de Angela, uma inocente e sonhadora stripper que vive pressionada por dois homens: seu noivo Émile e o amigo de seu companheiro, Alfred, apaixonado pela jovem.

Apesar de não ser necessariamente “engraçado”, o tom leve e pastelão do excelente roteiro do próprio Godard faz com que Uma Mulher é Uma Mulher seja um de seus filmes mais “digeríveis”. A narrativa (com algumas sequências puramente nonsenses) se desdobra de forma bastante natural: isso fica bem perceptível, por exemplo, nas tomadas externas, onde o público tem a nítida sensação de que as cenas são gravadas sem prévio ensaio, como se Godard colocasse a câmera nas mãos, escolhesse o lugar e dissesse: “É aqui! Vamos filmar!”. Isso torna muito mais crível a proposta de despersonificar a imagem feminina no cinema da época (no ápice desta desconstrução, Angela quer engravidar, mas fica em dúvida sobre qual dos dois homens deve escolher).

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Godard brinca com a montagem do longa: o filme possui algumas sequências mais extensas, mas para também com cortes secos e ágeis, onde é visível a intensão do cineasta de produzir um efeito humorístico, ou através dos diversos instantes em que os atores fazem seus discursos com os olhares fixos na câmera, como se falando diretamente ao espectador. Da mesma forma, a fotografia merece seu destaque, com o bom uso de cores e uma cenografia inteligente que realça os tons, especialmente nos ambientes internos, como no apartamento do casal principal. Aliás, o elenco é primoroso: se por um lado temos a musa godardiana Anna Karina como um furacão em cena, temos um Jean-Claude Brialy irresistivelmente atraente como Émile – franzino, com certo charme másculo sem parecer ogro. Já Jean-Paul Belmondo cumpre bem a tarefa de antagonista, mostrando boa sintonia com os protagonistas da trama. Já a trilha sonora, é um caso à parte: totalmente descontinuada e inusitada, uma marca registrada das produções do diretor.

Em determinado momento, os personagens se questionam: seria essa história uma comédia ou uma tragédia? Com um desfecho inteligente, Uma Mulher é Uma Mulher não fez tanto alarde em seu lançamento, principalmente na França. Por questões que podem parecer pouco óbvias, o filme foi um sucesso fora de seu país de origem, mas hoje é saudado como uma das melhores amostras do cinema de Godard, praticamente obrigatório para os que desejam conhecer sua vasta filmografia. Jean-Luc faz aqui um trabalho experimental, abusando de tudo o que tem à sua disposição para contar as aventuras deste incomum triângulo amoroso. Não à toa, essa película influenciou (e muito) autores dessa nova e atual fase do cinema francês, como François Ozon ou Christophe Honoré (repare o quanto Bem Amadas, deste último, tem traços evidentemente inspirados no filme godardiano). Uma Mulher é Uma Mulher é ousado, inovador e artisticamente belo – como tudo aquilo que Godard vem fazendo durante sua carreira.

Canções de Amor (Les Chansons D’amour)

Já em 2006, com seu belíssimo Em Paris, o cineasta Christophe Honoré (uma das maiores revelações do novo cinema francês) flertava com o gênero musical na cena em que um casal separado dialoga musicalmente ao telefone. Aparentemente, essa cena era uma espécie de prévia do que estava por vir em seu filme seguinte, Canções de Amor, um musical inspirado repleto de romantismo e tragédia.

Antes de mais nada: abandone os preconceitos com o gênero: sempre podemos ser surpreendidos com bons musicais. E aqui, o estereótipo de musical norte-americano (com suas personagens cantando, pulando, dançando alegres e saltitantes e tudo mais…) passa longe. As músicas se adequam à proposta do longa – o que não deixa o filme se tornar cansativo ou que sua trama soe surreal como em muitos produtos do gênero. O filme apresenta o cotidiano de Ismael (o galã francês Louis Garrel) e sua namorada Julie (a ótima Ludivine Sagnier) que vivem um romance a três com Alice (vivida por Clothilde Hesme). No entanto, essa relação é interrompida por uma tragédia: a morte de Alice. No decorrer da história, Ismael conhece o jovem Erwann, que se apaixona pelo jornalista e tenta seduzi-lo.

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As músicas são o grande ponto forte da obra, pois conseguem transmitir os sentimentos honestos e espontâneos de suas personagens – o que Honoré sabe bem como capturar com sua lente. Interpretadas pelos próprios atores (que mais sussurram do que necessariamente cantam), as canções escritas por Alex Beaupain tornam Canções de Amor um “filme popular com canções”, como sugeriu o próprio diretor na época de lançamento. Beaupain (que perdeu a namorada na vida real antes de escrever as canções para o filme) conseguiu traduzir em poemas as experiências turbulentas sobre o amor dentro de um estilo pop moderno que torna Canções de Amor apaixonante.

Rodado na capital francesa, Honoré ainda consegue criar mais um personagem: sua própria Paris que, em pleno outono e recheado de cores cinzentas, chuvas e devaneios, é o cenário ideal para a história desse grupo de amantes que tudo o que mais desejam é simplesmente amar. O amor na visão de Honoré é tratado sem condicionalismos, sem falsos moralismos. O amor não deve ser pensado, racionalizado ou colocado dentro de uma caixinha e ser exibido como um prêmio. Na proposta do diretor, as pessoas simplesmente amam – e isso basta. Talvez essa visão possa incomodar a platéia um pouco mais conservadora, afinal o musical ganha um tom abertamente homoerótico a partir de sua segunda metade – e curiosamente, a melhor sequência do longa advém da noite de amor entre dois personagens masculinos. Esse divisor de águas na história trará os melhores conflitos da trama e as mais conturbadas experiências aos personagens. Aliás, após a morte de Julie, o filme é dividido em três partes: a partida, a ausência e o regresso – referência explícita ao processo pela qual Ismael irá passar a partir daí.

Canções de Amor é, dessa forma, um filme onde nada é gratuito. Honoré diz, ainda que de forma não direta, que as relações foram feitas para ser vividas e não explicadas. Não há julgamentos, não há certo ou errado – há apenas as expressões do amor em sua mais pura forma. Assim, Canções de Amor não é apenas um belo produto de entretenimento aos olhos e ouvidos, mas também uma reflexão moderna sobre o amor romântico em nossa sociedade.