Humanidade e Balões de Papel (Ninjō Kami Fūsen, 1937)

Mesmo aqueles que sabem pouco sobre o cinema japonês têm claras expectativas diante da expressão ‘filme de samurai’: cenas de ação hipnotizantes e coreografadas, com duelos de espadas e violência estilizada; conflitos em torno de dilemas morais, comumente relacionados à honra do indivíduo; a centralidade da espada, não apenas como arma, mas como símbolo de identidade; e, claro, o protagonista guerreiro, geralmente um samurai ou ronin (samurai sem mestre), que pode assumir tanto o papel de herói moralmente íntegro quanto de anti-herói. São elementos típicos do gênero chambara – este, por sua vez, um subgênero do jidai-geki, o drama histórico clássico do cinema nipônico –, cuja fórmula Sadao Yamanaka subverte em Humanidade e Balões de Papel.

Lançado em 1937, Humanidade e Balões de Papel foi o último trabalho de seu realizador – falecido precocemente, aos 28 anos, após ser enviado para a Manchúria. Em sua curta carreira, Sadao teria dirigido mais de 20 películas, das quais a maioria foi perdida devido a bombardeios ou negligência – somente 3 permaneceram intactos. Todavia, a obra segue como um dos títulos mais interessantes da cinematografia japonesa devido, sobretudo, à singularidade de seu argumento, que abandona os dispositivos tradicionais do gênero e concentra sua narrativa no lado menos glorioso deste universo, evitando o heroísmo, a redenção e, principalmente, a espada.

A história se passa em um subúrbio de Edo (atual Tóquio), no fim do século XVIII, onde samurais pobres vivem em iguais condições com os demais moradores, todos trabalhadores precarizados, vivendo à margem da sociedade. É nesse contexto que acompanhamos alguns personagens, entre eles um ronin que vive em extrema pobreza com sua esposa, buscando uma recomendação de um antigo senhor feudal; um artesão, que fabrica balões de papel; um trabalhador que, para escapar da miséria, planeja o sequestro da filha de um homem rico; entre outras figuras que ajudam a compor este ambiente coletivo, onde os destinos individuais estão claramente presos a uma estrutura social rígida e sufocante.

Sadao desmonta completamente o imaginário do “filme de samurai”, não unicamente em sua imagética (as cenas de combate são praticamente inexistentes), mas essencialmente na construção de uma narrativa que privilegia a desilusão, a frustração com um modelo de sociedade que condiciona o sujeito à extrema vulnerabilidade. Não há escolhas: a ordem social vigente corrói não apenas o homem, mas também sua identidade e dignidade – como é o caso do ronin: ao ser ignorado pelo mesmo senhor a quem seu pai servira, fica evidente que o código de honra guerreiro não tem mais qualquer valor prático para alguém como ele, preso a um passado idealizado (um contraponto à figura do artesão, que parece compreender o mundo como ele realmente é).

A trama se intensifica a partir do envolvimento (indireto) do ronin no sequestro: sua identidade como samurai se mostra vazia, já que sua busca por dignidade ou qualquer reconhecimento social fracassa completamente – levando-o a um desfecho brutal e pessimista, um gesto de desespero que expõe a violência desse sistema. É onde Humanidade e Balões de Papel revela sua grandeza: ao extrair poesia da vida comum (aproximando-o do realismo poético de Renoir ou Vigo), o filme reafirma a resistência desses indivíduos nas pequenas ações do cotidiano e não exclusivamente em seus grandes atos. Embora a profusão de personagens e núcleos possa, em alguns instantes, distanciar o espectador dessa espinha dorsal, Humanidade e Balões de Papel se reafirma como obra essencial do cinema japonês, um retrato frio e implacável de um mundo em que até os heróis estão sujeitos ao apagamento.

Assunto de Família (万引き家族)

O que é mais forte: o laço afetivo ou aquele de sangue? Este certamente é o questionamento que passa por nossas cabeças ao assistir Assunto de Família, drama do japonês Hirokasu Koreeda (de Pais e Filhos, 2013) sobre um núcleo familiar “informal”, formado às margens da sociedade.

Osamu (Lily Franky) é o chefe de uma família aparentemente tradicional, mas que aos poucos revela suas idiossincrasias. Sem trabalho fixo, ele vive de pequenos furtos ao lado do filho Shota (Jyo Kairi), enquanto sua esposa, Nobuyo (Sakura Andou), se reveza entre os afazeres domésticos e um emprego modesto. Eles dividem a humilde residência com a avó Hatsue (Kirin Kiki) e a jovem Aki (Mayu Matsuoka) e, apesar das dificuldades, estes membros rejeitados de outras famílias parecem viver em harmonia. A rotina do lar, no entanto, é afetada com a chegada de Yuri (Miyu Sasaki), uma garota resgatada das ruas com evidentes sinais de maus tratos.

Ao longo de suas duas horas de projeção, Assunto de Família  traça o cotidiano destas pessoas, fazendo com que o espectador se torne também parte da família. O cineasta (experiente em histórias sobre famílias) não presta julgamento moral algum aos seus personagens, o que permite ao público manter certa simpatia por eles. Mais do que isso: apesar de não concordarmos com suas atitudes, somos capazes de compreender suas motivações, algo que só é possível a partir do momento em que temos sensibilidade suficiente para nos colocar no lugar do outro.

O desfecho da narrativa, entretanto, pode parecer ambíguo à abordagem do diretor: curiosamente, o que afeta a paz desta família não são agentes externos a ela, mas o conflito pessoal do pequeno Shota, quando este passa a questionar o estilo de vida que levam. A partir daí, tudo no longa passa a acontecer rápido demais (em oposição à introdução um tanto lenta), o que não compromete o conjunto da obra, felizmente. Ainda que melancólico, Assunto de Família  é um filme que, sobretudo, nos possibilita olhar para o próximo com empatia e, assim, acreditar no outro e no poder do amor.