A Fortaleza Escondida (Kakushi Toride No San-Akunin, 1958)

Embora costume receber menos atenção crítica do que outras produções do cineasta, A Fortaleza Escondida é compreendido por muitos como um dos melhores filmes de Akira Kurosawa – uma obra cuja narrativa dinâmica a torna uma mais acessíveis da filmografia do diretor japonês, além de ser um marco no cinema de aventura, exercendo influência sobre artistas posteriores.

A trama se passa na era Sengoku (que abrange a segunda metade do século XV ao início do século XVII), um período de intensos conflitos entre os clãs do Japão Feudal. Dois camponeses pobres, Tahei e Matashichi, buscam enriquecer aproveitando-se do caos da guerra até serem capturados e forçados a trabalhar para um desses clãs, os Yamana. Quando conseguem escapar, eles conhecem Rokurota Makabe, que os convence a transportar uma fortuna em ouro escondida sobre uma carga de gravetos aparentemente comum. No entanto, Rokurota esconde sua verdadeira identidade: ele é um habilidoso guerreiro e o mais fiel criado da Princesa Yuki, única herdeira do clã Akizuki, dizimado pelo clã Yamana.

Embora a missão consista sobretudo na garantia da sobrevivência de Yuki e do próprio clã Akizuki, Kurosawa narra boa parte dos acontecimentos a partir da perspectiva de Tahei e Matashichi – duas figuras frequentemente cômicas em sua covardia e ganância – em vez de acompanhar diretamente os heróis tradicionais, Rokurota e a princesa. Essa escolha é particularmente instigante, uma vez que desloca o centro da narrativa épica para personagens marginalizados; assim, a guerra é observada não apenas em sua dimensão política, na luta entre líderes e seus exércitos, mas principalmente no cotidiano de indivíduos comuns que são diretamente afetados por ela e nas estratégias que desenvolvem para sobreviver em meio às dificuldades.

Neste contexto, Kurosawa constrói um conjunto de personagens por meio dos quais explora diferentes dilemas humanos, intensificados pela experiência da guerra. Rokurota, por exemplo, representa o ideal samurai, em sua honra, lealdade e competência – encontrando na atuação de Toshiro Mifune uma presença física e um carisma que reforçam a imponência do guerreiro. O general Tadokoro, comandante do exército inimigo, tem um ato de profunda nobreza ao reconhecer a honra demonstrada por Rokurota e pela princesa, optando por libertá-los. Rokurota e Tadokoro entregam aquela que é, muito provavelmente, a cena mais marcante de A Fortaleza Escondida: o duelo de lanças, uma longa sequência coreografada que evoca os ideais de honra e lealdade tradicionalmente associados ao bushido, o código ético dos samurais. Quanto a Yuki, é uma das personagens femininas mais interessantes de Kurosawa: modelo de liderança feminina em uma época na qual mulheres raramente ocupavam posições de poder, sua autoridade é intimamente ligada à compaixão pelo seu povo. Líder forte, a jovem princesa também revela um lado profundamente humano, como na sequência em que, filmada centralizada e em primeiro plano, ela chora diante do sofrimento daqueles que pretende proteger, enquanto a imagem sobreposta do estandarte de seu clã reforça o peso simbólico de sua posição.

A Fortaleza Escondida foi lançado durante a fase mais profícua do diretor, iniciada após o reconhecimento internacional proporcionado por Rashomon, de 1950, até a segunda metade dos anos 1960, quando o cineasta passou a lançar seus filmes em intervalos maiores, em razão das crescentes dificuldades de financiamento. O longa serviu de influência direta a George Lucas na criação da saga Star Wars, quase duas décadas depois. O que não causa qualquer espanto: A Fortaleza Escondida é, definitivamente, um competente exemplar do gênero aventura que, nas mãos talentosas de Kurosawa, combina ação, humor e emoção em uma história de ritmo envolvente, trilha sonora vibrante e personagens memoráveis, reafirmando o domínio de Kurosawa sobre a linguagem cinematográfica.

Humanidade e Balões de Papel (Ninjō Kami Fūsen, 1937)

Mesmo aqueles que sabem pouco sobre o cinema japonês têm claras expectativas diante da expressão ‘filme de samurai’: cenas de ação hipnotizantes e coreografadas, com duelos de espadas e violência estilizada; conflitos em torno de dilemas morais, comumente relacionados à honra do indivíduo; a centralidade da espada, não apenas como arma, mas como símbolo de identidade; e, claro, o protagonista guerreiro, geralmente um samurai ou ronin (samurai sem mestre), que pode assumir tanto o papel de herói moralmente íntegro quanto de anti-herói. São elementos típicos do gênero chambara – este, por sua vez, um subgênero do jidai-geki, o drama histórico clássico do cinema nipônico –, cuja fórmula Sadao Yamanaka subverte em Humanidade e Balões de Papel.

Lançado em 1937, Humanidade e Balões de Papel foi o último trabalho de seu realizador – falecido precocemente, aos 28 anos, após ser enviado para a Manchúria. Em sua curta carreira, Sadao teria dirigido mais de 20 películas, das quais a maioria foi perdida devido a bombardeios ou negligência – somente 3 permaneceram intactos. Todavia, a obra segue como um dos títulos mais interessantes da cinematografia japonesa devido, sobretudo, à singularidade de seu argumento, que abandona os dispositivos tradicionais do gênero e concentra sua narrativa no lado menos glorioso deste universo, evitando o heroísmo, a redenção e, principalmente, a espada.

A história se passa em um subúrbio de Edo (atual Tóquio), no fim do século XVIII, onde samurais pobres vivem em iguais condições com os demais moradores, todos trabalhadores precarizados, vivendo à margem da sociedade. É nesse contexto que acompanhamos alguns personagens, entre eles um ronin que vive em extrema pobreza com sua esposa, buscando uma recomendação de um antigo senhor feudal; um artesão, que fabrica balões de papel; um trabalhador que, para escapar da miséria, planeja o sequestro da filha de um homem rico; entre outras figuras que ajudam a compor este ambiente coletivo, onde os destinos individuais estão claramente presos a uma estrutura social rígida e sufocante.

Sadao desmonta completamente o imaginário do “filme de samurai”, não unicamente em sua imagética (as cenas de combate são praticamente inexistentes), mas essencialmente na construção de uma narrativa que privilegia a desilusão, a frustração com um modelo de sociedade que condiciona o sujeito à extrema vulnerabilidade. Não há escolhas: a ordem social vigente corrói não apenas o homem, mas também sua identidade e dignidade – como é o caso do ronin: ao ser ignorado pelo mesmo senhor a quem seu pai servira, fica evidente que o código de honra guerreiro não tem mais qualquer valor prático para alguém como ele, preso a um passado idealizado (um contraponto à figura do artesão, que parece compreender o mundo como ele realmente é).

A trama se intensifica a partir do envolvimento (indireto) do ronin no sequestro: sua identidade como samurai se mostra vazia, já que sua busca por dignidade ou qualquer reconhecimento social fracassa completamente – levando-o a um desfecho brutal e pessimista, um gesto de desespero que expõe a violência desse sistema. É onde Humanidade e Balões de Papel revela sua grandeza: ao extrair poesia da vida comum (aproximando-o do realismo poético de Renoir ou Vigo), o filme reafirma a resistência desses indivíduos nas pequenas ações do cotidiano e não exclusivamente em seus grandes atos. Embora a profusão de personagens e núcleos possa, em alguns instantes, distanciar o espectador dessa espinha dorsal, Humanidade e Balões de Papel se reafirma como obra essencial do cinema japonês, um retrato frio e implacável de um mundo em que até os heróis estão sujeitos ao apagamento.