O Homem Mosca

Citar Charles Chaplin ou Buster Keaton quando falamos de cinema mudo é obrigatório, mas é injusto que pouco se lembrem de Harold Lloyd – justamente quando este último é, sem sombra de dúvidas, tão genial quanto os dois primeiros. De fato, o tipo de Chaplin é lendário, enquanto a contribuição de Keaton à arte cinematográfica é inegável; Lloyd, no entanto, pode ser considerado o terceiro elemento de uma tríade que popularizou o gênero cômico na sétima arte, sendo responsável por inúmeros títulos impagáveis – entre eles, uma das melhores comédias da história do cinema: O Homem Mosca.

“The Boy” (como é chamado até certa altura da fita) é um jovem comum que abandona sua família no interior com o objetivo de trabalhar em Nova York e ganhar dinheiro suficiente para buscar sua noiva e casar-se com ela. As coisas, todavia, não saem como o planejado: ele é um mero atendente em uma loja de tecidos, mal ganhando para sobreviver e pagar o próprio aluguel. Não demora muito para que sua futura esposa parta também para a cidade grande ao encontro do amado, que terá que se desdobrar para fazer seu par acreditar que ele está bem de vida, ao mesmo tempo em que fará de tudo para não ser demitido.

Obviamente, o clímax de O Homem Mosca é a icônica cena de seu personagem principal escalando um arranha-céu (para faturar uma bolada e concretizar seu matrimônio), sendo surpreendido por inúmeros obstáculos até acabar pendurado no ponteiro do gigantesco relógio do prédio. Até aí, o segundo longa-metragem de Lloyd não foge da cartilha das comédias mudas de então: temos um protagonista atrapalhado que se safa dos maiores problemas, mas tem dificuldades para resolver questões simples. Apesar de não ser direta e necessariamente uma criação do próprio Harold, esta dinâmica influenciou centenas de outros comediantes (o herói Chapolin, de Roberto Bolaños, por exemplo, seguiu muito esta linha nos episódios da série). No final, tudo dá certo.

Apesar da trama aparentemente simples, O Homem Mosca se sustenta exclusivamente nas várias trapalhadas de seu protagonista, muito favorecido pela atuação de altíssimo nível de Lloyd. Sem um figurino extravagante, um andar desajeitado ou um bigodinho marcante (que já o associem a um tipo cômico), o intérprete mantem uma incrível docilidade e uma certa dose de equilíbrio na construção de Harold. Talvez exatamente por isso, o efeito de comicidade pode parecer maior (afinal, um homem de terno e gravata fazendo piruetas é infinitamente mais chamativo do que um palhaço de nariz pintado nas mesmas condições).

O Homem Mosca tornou-se uma das comédias mais interessantes do cinema em todos os tempos e a obra-prima de Harold Lloyd – um gênio do cinema mudo, infelizmente subestimado nos dias atuais pelo brilho de outros artistas da época (ainda que a popularidade de Lloyd durante a década de 20 tenha sido até maior de que a de seus “concorrentes”). Único, O Homem Mosca é entretenimento de máxima qualidade, atemporal e a certeza de que grandes talentos não morrem jamais.

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“Shaun: O Carneiro – O Filme”: Animação Muda Diverte e Homenageia o Cinema Clássico

Shaun: O Carneiro – O Filme é um longa de animação britânico em stop-motion, baseado na série homônima produzida pela Aardman Animations (de A Fuga das Galinhas e Wallace e Gromit) e criada por Nick Park. Com um tom de comédia pastelão, o filme narra as aventuras do personagem título, um carneiro que vive em uma fazenda com seu dono (simplesmente o Fazendeiro) e Bitzer, um cachorro que participa das tarefas cotidianas. Cansado da rotina do local, tudo o que Shaun mais deseja é um dia de descanso. Com a ajuda de seus companheiros, Shaun distrai Bitzer e adormece o Fazendeiro, mas algo não sai como o planejado: devido a um acidente, o Fazendeiro vai parar na cidade grande e, para complicar, acaba perdendo a memória. Sem muitas opções, Shaun, Bitzer e os outros animais juntam forças para enfrentar o caos urbano e salvar seu dono.

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O que chama a atenção em Shaun: O Carneiro é sua objetividade. O filme é direto, sem enrolação ou aquele senso de repetição comum em produções voltadas para o público infantil (a fita dura menos de uma hora e meia). A animação também é muito eficiente – e eu fico me perguntando a todo instante porque o stop-motion é uma técnica quase em desuso na atualidade, já que o resultado final costuma ser satisfatório. O roteiro, por sua vez, é redondo, com suas doses de humor infantil, ação e drama, o que traz um equilíbrio bastante agradável. Por não apresentar falas “concretas”, é incrível como sua linguagem funciona de forma genial: os personagens só se comunicam através de ruídos ininteligíveis ou murmurinhos – o que acentua a ótima trilha sonora e mostra aquilo em que o filme mais se destaca: suas referências cinematográficas.

Shaun: O Carneiro é sutil em sua homenagem à arte do cinema, desde as “bobagens” cômicas da década de 1920 até o cinema mudo de Buster Keaton ou Charles Chaplin. Até mesmo O Silêncio dos Inocentes é referenciado em uma das sequências em que os animais estão na prisão – e é hilária! Exatamente por isso e por ser tão bem executado em sua proposta, Shaun: O Carneiro é um filme que não decepciona – e apesar de utilizar muito da estrutura original da série, pode ser visto como um versão estendida dela ou um simples produto avulso (e isso não o diminui em nenhum sentido). Delicioso de se acompanhar, Shaun: O Carneiro vai agradar tanto as crianças mais novas como os pais – principalmente aqueles apaixonados por cinema. A diversão está garantida!