“Silêncio Azul”: Um Filme de Pouco Alcance

Talvez o azul no título do filme de Bülent Öztürk se refira à sua fotografia inicial, que valoriza o uso de tons azulados e frios para acompanhar o soldado Hakan durante sua recuperação em um hospital psiquiátrico militar. O silêncio, por sua vez, pode fazer alusão ao vazio de sua própria existência neste período (ou mais à frente, a narrativa pode nos responder isso de forma um tanto óbvia), após passar por um trauma que mudaria seu destino. Não sabemos ao certo o que se passou até Hakan retornar para casa, encarando o desafio de resgatar vínculos e acertar as contas com seu passado aterrorizante.

A partir de então, Silêncio Azul abre algumas possibilidades, desdobrando camadas até aqui não exploradas, como se para revelar a história de seu protagonista aos poucos. Entretanto, essas linhas não parecem ter qualquer conexão e a jornada de nosso herói se torna cansativa e desestimulante. O que poderia ser um interessante conto sobre a tentativa de um homem em retomar sua vida comum acaba virando uma sucessão de fatos ininteligíveis à primeira vista e que não esclarecem nada a respeito do personagem principal. Percebe-se, no entanto, que Silêncio Azul tem muito a dizer: em alguns instantes, há a impressão de que o longa vai, enfim, engrenar. Mas é só impressão mesmo: apesar da evidente boa vontade, Silêncio Azul é um filme que muito quer e pouco alcança, reduzindo-se infelizmente a uma obra sem tanta relevância.

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“O Vendedor de Orquídeas”: Documentário em Road Movie Sobre Oswaldo Vigas e Sua Obra Perdida

Aos 80 anos, Oswaldo Vigas foi tema de exposição “Vigas Los Comienzos”, contendo as obras que o artista plástico venezuelano produziu no início de sua bem sucedida carreira. Dias antes, ele pega a estrada ao lado de sua esposa Jeannine, à procura de um trabalho feito quando ainda jovem, em 1945 – o tal “O Vendedor de Orquídeas” que dá título ao documentário. Nessa busca pela pintura perdida, Vigas retorna aos locais onde cresceu e recorda momentos marcantes de sua trajetória.

Escolher sempre quer dizer renunciar…

Muito mais do que uma simples peça que faltava para completar o acervo, “O Vendedor de Orquídeas” tinha também um forte valor sentimental: a tela trazia à memória um momento da juventude de Vigas que o marcaria para sempre e o definiria como artista e, principalmente, como pessoa. Foi a última vez que Reynaldo, seu irmão que desenvolveu um quadro de esquizofrenia, serviu-lhe como modelo. Tomado por um sentimento de culpa ao abandonar a família por conta de sua carreira, Vigas conta trechos de sua vida, desde a infância pobre em uma zona periférica à renúncia da medicina para se dedicar às artes.

O mais interessante em O Vendedor de Orquídeas, no entanto, é a sensação acolhedora que transmite. Sabe quando você senta no sofá com seus avós e eles começam a contar histórias antigas, naquele clima de intensa nostalgia? É exatamente assim que você se sente ao assistir a O Vendedor de Orquídeas – e isto não é difícil de entender: dirigido por Lorenzo Vigas, filho de Oswaldo, este road movie possui uma narrativa que carrega um agradável espirito familiar (como se o diretor houvesse posto a câmera na mão para filmar casualmente seu “velho” ao longo de sua odisseia, como se um mero registro de família). Além disso, O Vendedor de Orquídeas possui um protagonista extremamente carismático, sensível e humano – fugindo do estereotipo do artista cheio de firulas e estrelismo. Isso faz com que a identificação com o público ocorra de forma gratuita e natural. Daí para se apaixonar por esta grande figura, é rapidinho…

O Homem Mosca

Citar Charles Chaplin ou Buster Keaton quando falamos de cinema mudo é obrigatório, mas é injusto que pouco se lembrem de Harold Lloyd – justamente quando este último é, sem sombra de dúvidas, tão genial quanto os dois primeiros. De fato, o tipo de Chaplin é lendário, enquanto a contribuição de Keaton à arte cinematográfica é inegável; Lloyd, no entanto, pode ser considerado o terceiro elemento de uma tríade que popularizou o gênero cômico na sétima arte, sendo responsável por inúmeros títulos impagáveis – entre eles, uma das melhores comédias da história do cinema: O Homem Mosca.

“The Boy” (como é chamado até certa altura da fita) é um jovem comum que abandona sua família no interior com o objetivo de trabalhar em Nova York e ganhar dinheiro suficiente para buscar sua noiva e casar-se com ela. As coisas, todavia, não saem como o planejado: ele é um mero atendente em uma loja de tecidos, mal ganhando para sobreviver e pagar o próprio aluguel. Não demora muito para que sua futura esposa parta também para a cidade grande ao encontro do amado, que terá que se desdobrar para fazer seu par acreditar que ele está bem de vida, ao mesmo tempo em que fará de tudo para não ser demitido.

Obviamente, o clímax de O Homem Mosca é a icônica cena de seu personagem principal escalando um arranha-céu (para faturar uma bolada e concretizar seu matrimônio), sendo surpreendido por inúmeros obstáculos até acabar pendurado no ponteiro do gigantesco relógio do prédio. Até aí, o segundo longa-metragem de Lloyd não foge da cartilha das comédias mudas de então: temos um protagonista atrapalhado que se safa dos maiores problemas, mas tem dificuldades para resolver questões simples. Apesar de não ser direta e necessariamente uma criação do próprio Harold, esta dinâmica influenciou centenas de outros comediantes (o herói Chapolin, de Roberto Bolaños, por exemplo, seguiu muito esta linha nos episódios da série). No final, tudo dá certo.

Apesar da trama aparentemente simples, O Homem Mosca se sustenta exclusivamente nas várias trapalhadas de seu protagonista, muito favorecido pela atuação de altíssimo nível de Lloyd. Sem um figurino extravagante, um andar desajeitado ou um bigodinho marcante (que já o associem a um tipo cômico), o intérprete mantem uma incrível docilidade e uma certa dose de equilíbrio na construção de Harold. Talvez exatamente por isso, o efeito de comicidade pode parecer maior (afinal, um homem de terno e gravata fazendo piruetas é infinitamente mais chamativo do que um palhaço de nariz pintado nas mesmas condições).

O Homem Mosca tornou-se uma das comédias mais interessantes do cinema em todos os tempos e a obra-prima de Harold Lloyd – um gênio do cinema mudo, infelizmente subestimado nos dias atuais pelo brilho de outros artistas da época (ainda que a popularidade de Lloyd durante a década de 20 tenha sido até maior de que a de seus “concorrentes”). Único, O Homem Mosca é entretenimento de máxima qualidade, atemporal e a certeza de que grandes talentos não morrem jamais.