“Culpa”: Thriller Dinamarquês é Sucinto e Repleto de Tensão

Em uma delegacia dinamarquesa, o policial Asger Holm está cuidando das chamadas de emergência daquela noite. Prestes a encerrar seu turno, Asger recebe uma ligação: uma mulher acabara de ser sequestrada. Quando a chamada é subitamente interrompida, o policial inicia uma desenfreada corrida contra o tempo para descobrir a identidade dos envolvidos e salvar a vida daquela mulher. Tendo o telefone como seu único recurso, aos poucos Asger percebe que o crime que tem a resolver é muito maior do que parece.

Pré-indicado da Dinamarca ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Culpa  é um excepcional thriller  cujo maior triunfo está na precisão com o qual o estreante Gustav Möller utiliza pouquíssimos elementos para criar um clima de tensão surpreendente, sem que o filme soe repetitivo – isto porque só temos em tela praticamente um só personagem, além do fato de toda a narrativa se desenvolver em único ambiente: a delegacia de polícia. Diferente do que podemos esperar do gênero (onde a imagem é fundamental para inserir o espectador dentro da história), aqui somos estimulados a imaginar a ação, especialmente por conta do excelente trabalho de edição de som (diálogos, ruídos, silêncio), que sugere muito aquilo que está do outro lado da linha, mesmo que em cena não vejamos nada além da figura de Asger, um personagem com um conflito bem estabelecido e que é muito favorecido pela eficiente performance de Jakob Cedergren. A fotografia e edição também colaboram muito à atmosfera pretendida: a câmera do diretor aposta em inúmeros close-ups e planos detalhes, o que aumenta a tensão e faz com que o espectador, assim como Asger, queira desvendar o crime o mais rápido possível, com as diversas situações ocorrendo em tempo real. Todas essas características fazem de Culpa  uma obra ousada e provocante, daquelas que não deixam o espectador desgrudar os olhos da tela – e acreditar também que nem tudo é o que parece ser.

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10 Filmes Imperdíveis da 42ª Mostra Internacional de Cinema de SP

Já faz parte do calendário paulista: outubro é mês da Mostra Internacional de Cinema de SP! Neste ano, a edição acontece entre os dias 18 e 31 de outubro e abrangerá mais de 30 espaços, entre cinemas, museus e outros locais culturais da capital paulista. No total, serão mais de 300 títulos das mais variadas cinematografias e países – incluindo a seleção de 18 obras já indicadas por seus respectivos países para concorrerem a uma vaga ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Além disso, a Mostra trará mais de 20 filmes em realidade virtual. Entre os títulos, está o francês A Ilha dos Mortos, animação de Benjamin Nuel, premiada no Festival de Veneza 2018 com o Leão de Ouro pelo uso da técnica. No espaço, haverá também uma instalação para celebrar a obra Chalkroom, produzida em VR (virtual reality) pela artista multimídia Laurie Anderson (que assina o pôster e a vinheta do festival).

Para dar aquela forcinha, selecionei aqui 10 filmes imperdíveis desta Mostra:

A CASA QUE JACK CONSTRUIU (The House That Jack Built, de Lars Von Trier)
Este é o mais novo filme do controverso Lars Von Trier, que passou por diversos festivais mundiais e dividiu opiniões (em Cannes, por exemplo, o filme foi tanto vaiado quanto ovacionado).

Cena de “A Casa que Jack Construiu”, de Lars Von Trier.

AS FAVORITAS (The Favourite, de Yorgos Lanthimos)
As Favoritas  rendeu a Olivia Colman o premio de melhor atriz no Festival de Veneza, por sua atuação como a Rainha Anne durante a Inglaterra do século XVIII em guerra com a França.

ASSUNTO DE FAMÍLIA (Manbiki Kazoku, de Hirokasu Kore-eda)
Além de ser a aposta japonesa ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Assunto de Família levou a Palma de Ouro em Cannes nesta última edição.

EM CHAMAS (Beoning, de Chang-Dong Lee)
Em Chamas  não faturou a Palma de Ouro este ano, mas foi uma das obras mais elogiadas do festival e é o grande favorito ao Oscar de filme estrangeiro no próximo ano.

GUERRA FRIA (Zimma Wojna, de Pawel Pawlikovski)
Guerra Fria  também passou por Cannes este ano, onde arrancou elogios da crítica. Além disso, o filme é dirigido por Pawel Pawlikovski – que faturou a estatueta de melhor produção estrangeira com Ida.

IMAGEM E PALAVRA (Le Livre d’Image, de Jean-Luc Godard)
Uma das surpresas de Cannes foi Imagem e Palavra, novo trabalho da lenda viva do cinema Jean-Luc Godard. Não é preciso falar mais nada.

INFILTRADO NA KLAN (BlacKkKlansman, de Spike Lee)
Um dos grandes favoritos nas principais categorias do Oscar no próximo ano, Infiltrado na Klan foi um dos destaques de Cannes e traz Spike Lee na direção.

O GRANDE CIRCO MÍSTICO (O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues)
Apesar de não ter sido muito bem recebido nos festivais em que participou, O Grande Circo Místico  é o novo filme de Cacá Diegues – e representante oficial do Brasil ao Oscar.

Cena de “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues.

ROMA (Roma, de Alfonso Cuarón)
Dirigido pelo oscarizado Alfonso Cuarón, Roma  foi o primeiro filme produzido pela Netflix a levar o Leão de Ouro, em Veneza.

THE MAN WHO KILLED DON QUIXOTE (The Man Who Killed Don Quixote, de Terry Gilliam)
Após anos e inúmeras tentativas fracassadas, Terry Gilliam conseguiu finalizar sua obra (considerada “maldita” pelos mais supersticiosos) – cuja produção conturbada nos anos 90 virou até documentário.

“Silêncio Azul”: Um Filme de Pouco Alcance

Talvez o azul no título do filme de Bülent Öztürk se refira à sua fotografia inicial, que valoriza o uso de tons azulados e frios para acompanhar o soldado Hakan durante sua recuperação em um hospital psiquiátrico militar. O silêncio, por sua vez, pode fazer alusão ao vazio de sua própria existência neste período (ou mais à frente, a narrativa pode nos responder isso de forma um tanto óbvia), após passar por um trauma que mudaria seu destino. Não sabemos ao certo o que se passou até Hakan retornar para casa, encarando o desafio de resgatar vínculos e acertar as contas com seu passado aterrorizante.

A partir de então, Silêncio Azul abre algumas possibilidades, desdobrando camadas até aqui não exploradas, como se para revelar a história de seu protagonista aos poucos. Entretanto, essas linhas não parecem ter qualquer conexão e a jornada de nosso herói se torna cansativa e desestimulante. O que poderia ser um interessante conto sobre a tentativa de um homem em retomar sua vida comum acaba virando uma sucessão de fatos ininteligíveis à primeira vista e que não esclarecem nada a respeito do personagem principal. Percebe-se, no entanto, que Silêncio Azul tem muito a dizer: em alguns instantes, há a impressão de que o longa vai, enfim, engrenar. Mas é só impressão mesmo: apesar da evidente boa vontade, Silêncio Azul é um filme que muito quer e pouco alcança, reduzindo-se infelizmente a uma obra sem tanta relevância.