Isolamento Social em “O Homem das Multidões”

01Juvenal é um condutor de trem no metrô de Belo Horizonte, cuja rotina consiste apenas em ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Mora sozinho em um pequeno apartamento na capital tão vazio quanto ele mesmo. Sem amigos, sem namorada ou qualquer outro vínculo humano (exceto as eventuais ocasiões em que recorre a uma prostituta), ele sofre de insônia e passa as noites em sua varanda observando a cidade ou falando sozinho. Margô, por sua vez, vive com o pai (apesar de ter um relacionamento distante com ele) e disfarça sua solidão na internet – o noivo que conheceu em redes sociais ou os “peixes de estimação” que alimenta na tela do computador.

Estes são os dois personagens principais do drama O Homem das Multidões, produção brasileira dirigida por Cao Guimarães e Marcelo Gomes e baseada em um conto homônimo de Edgar Allan Poe. O filme é a parte final de uma trilogia iniciada por Cao em 2004, com A Alma do Osso e seguida por Andarilho, de 2007, e que procura tratar a incomunicabilidade entre os homens. O longa, que foi elogiado na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2013, também foi o grande vencedor do 26º Festival de Cinema Latino-Americano de Toulouse, na França, no início deste ano.

O Homem das Multidões aborda através de seus personagens o isolamento social das grandes metrópoles, em um cenário urbano repleto de ruas, prédios, linhas de trem, carros, computadores – fazendo um retrato bastante sutil da sociedade brasileira contemporânea. No entanto, o protagonista da história é a própria solidão que rege a todo instante a vida de Juvenal e Margô. Cada um, a seu modo, é solitário e, sob certa forma, aprecia sua condição (Juvenal, na forma mais tradicional; enquanto Margô vive  uma solidão “virtual”, mantendo contato com outras pessoas através da rede).

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A sensação de isolamento fica ainda mais latente por conta do formato de tela, que deixou de lado o quadro panorâmico tradicional para utilizar um plano quadrado – o que, apesar de causar certo estranhamento de início, leva o espectador a experimentar a narrativa como se a observasse através de uma janela distante, perdida entre um dos inúmeros prédios da capital. Com uma bela fotografia, os diretores ainda apostam em uma arquitetura urbana moderna que, aliada ao formato e à luz, tornam o registro um ensaio agradável e apreciável do ponto de vista estético. No entanto, seu apelo pouco popular pode dificultar sua absorção pela grande massa – uma prova disso é que o filme está sendo veiculado em poucas salas de cinemas e em limitadas sessões.

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Ao final de pouco mais de uma hora e meia de O Homem das Multidões, o público sai do cinema com inúmeras reflexões. Em uma sociedade marcada cada vez mais pelo individualismo, onde pessoas conversam mais através de celulares ultramodernos ou por redes sociais do que pessoalmente, abandonando o contato físico pelo mundo digital, a sensação de isolamento, solidão, insegurança é iminente. Com muito mais imagens e silêncios do que através de diálogos longos e desgastantes, a narrativa de O Homem das Multidões proporciona uma rica experiência através do encontro de Juvenal e Margô, duas pessoas com personalidades distintas, mas ligadas intimamente pela solidão que as acompanha – assim como a todos nós.

“Cine Holliúdy”: Divertido, Mas Ordinário

O cinema brasileiro tem crescido nos últimos anos. Não apenas em quantidade, mas a qualidade das produções nacionais tem impressionado muita gente que antes torcia o nariz para as produções brasileiras. Cine Holliúdy, do diretor Halder Gomes (de As Mães de Chico Xavier), chegou aos cinemas há alguns dias e, contrariando as expectativas sobre o filme, tem recebido bons elogios do público e da crítica especializada.

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A trama gira em torno da incrível jornada de Francisgleydisson (o que o clássico personagem de Miguel Falabella falaria sobre isso, hein?), que parte rumo ao desconhecido junto com sua família para realizar o sonho de abrir novamente uma sala de cinema em alguma cidade de sua região – em uma época em que o cinema é ameaçado pela chegada da TV nas pequenas cidades do Brasil, nos anos 70. É em uma pequena comunidade do interior cearense, no entanto, que o personagem tem a chance trazer de volta a magia da sétima arte – já que lá, o cinema é uma lenda para o público.

Seria demasiada injustiça atribuir uma nota baixa para Cine Holliúdy. Costumo sempre dizer que há duas formas de se avaliar um filme: como obra de arte e como entretenimento. Avaliar Cine Holliúdy como obra de arte (como produto de “cinema”, digamos) é chover no molhado: o filme é abertamente brega. Não tem grandes elementos “técnicos” que justifiquem uma boa nota. Seja no figurino, nos cenários, na trilha sonora (que contém nomes como Fernando Mendes e Odair José, só para ter noção…) ou mesmo na composição de suas personagens, o longa tem um tom assumidamente brega, caricato – recorrendo totalmente à cultura local para fazer piada com aquele que seria seu público alvo.

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No entanto, se analisarmos Cine Holliúdy como entretenimento, chegaremos à uma conclusão fatídica: o filme funciona – e funciona bem. É uma das poucas comédias onde o espectador tem a possibilidade de não parar de rir em nenhum instante. Cine Holliúdy é um filme divertido e faz com que o espectador deixe a sala de cinema se sentindo bem. Boa parte deste mérito se deve ao protagonista da história, interpretado pelo ator Edmilson Filho – que rouba a cena a cada aparição. Com muito talento, o ator consegue criar um personagem carismático que deixa as cenas muito mais amistosas. Aliás, Francisgleydisson é um dos poucos personagens “bons”, em uma história recheada de tipos estereotipados e atores não muito competentes (Mirian Freeland, por exemplo, carrega na voz um pouco de seu sotaque carioca).

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Com piadas que são claramente derivadas de quadros e esquetes de programas de humor do tipo A Praça é Nossa ou Zorra Total (mas muito mais melhoradas), Cine Holliúdy serve bem como passatempo e promove alguns bons momentos de risadas. Com a pretensão de ser uma homenagem à sétima arte (Dilma Roussef, veja você, disse que o filme seria nosso Cinema Paradiso – o que é um insulto à obra de Giuseppe Tornatore…), a trama se perde em alguns momentos quando sai da linha do humor e tenta dar uma carga um pouco mais “dramática”. No entanto, o longa se destaca por trazer aquele ar inocente e maroto que tanto estava faltando para nossas falidas comédias (afinal, se eu quero ver artistas de stand-ups eu vou a um show de stand-up, certo?). Para fazer rir, Cine Holliúdy cumpre seu papel, ainda que com todas as deficiências que fazem com o que filme divirta, mas não apaixone.