“Sete Vidas”: Trama de Lícia Manzo se Despede Deixando Saudades

Quando 2015 se iniciou, todas as atenções estavam voltadas a Babilônia, trama de Gilberto Braga (autor de Vale Tudo e Dancin’ Days) em parceria com Ricardo Linhares e João Ximenes Braga. Contrariando as expectativas, Babilônia foi rejeitada pelo público, tendo o pior desempenho do horário em todos os tempos. Foi quando Lícia Manzo chegou timidamente com Sete Vidas, surpreendendo com uma produção que já pode ser considerada uma das melhores telenovelas globais em anos.

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A sinopse de Sete Vidas foi inicialmente apresentada para o horário das 11, com apenas 50 episódios. Isto explica uma de suas qualidades mais notáveis: Sete Vidas teve uma narrativa “enxuta”. Com pouco mais de 100 capítulos, não houve muita correria ou enrolação (algo comum em trabalhos mais longos), o que contribuiu muito para o ritmo de Sete Vidas. Esta duração é bem menor que a média das produções globais, que sempre sofrem com aquela desconfortável sensação de “extensão” desnecessária. Na contramão, Sete Vidas ficou com aquele incrível gostinho de “quero mais”. Talvez esta é a hora da emissora apostar em folhetins mais curtos como este.

Lícia Manzo também tem se mostrado uma autora de talento. Muitos comparam seu estilo ao do veterano Manoel Carlos (de Por Amor, Laços de Família e Mulheres Apaixonadas) – e, sim, as semelhanças são evidentes. Ambos criam seus textos baseados em situações cotidianas. Apesar do foco ser obviamente famílias de classe média, os dramas levantados são universais, capazes de atingir os mais distintos públicos. Este humanismo provoca identificação e reflexão. Talvez a única diferença entre Lícia e Maneco é que enquanto o autor constrói suas personagens sob um olhar livre de julgamento, Lícia possui uma abordagem mais crítica. O tom de “DR” é quase predominante em toda sua obra, como se cada um de seus tipos estivessem debatendo suas ideias e sentimentos. Se para muitos isso pode soar “chato”, em Sete Vidas a escritora surpreendeu pela qualidade de seu texto, que nos proporcionou diálogos intensos, com bastante naturalidade e compromisso com a realidade.

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Com uma proposta original (que basicamente se estruturou a partir do atual conceito de família), Sete Vidas apresentou temas contemporâneos e importantes, como inseminação artificial, homossexualismo, adoção – todos tratados com total humanidade. Com conflitos plausíveis, a novela abandonou os exageros tão comuns nos folhetins e sequer trouxe os tradicionais vilões, até mesmo por conta de sua abordagem. Jayme Monjardim, diretor de núcleo, teria até abandonado o uso excessivo de maquiagem, buscando trazer maior realismo à história e ressaltando as expressões e atuações de um elenco inspirado. Bastante homogênea, a escalação de Sete Vidas foi elogiada, desde os rostos mais conhecidos (de Débora Bloch, Selma Egrei, Regina Duarte – esta última em um papel secundário que roubou a cena) até nomes mais novos e que merecem atenção, como os novatos Isabelle Drummond, Jayme Matarazzo e Thiago Rodrigues.

Com um desfecho que dispensou quaisquer clichês batidos em nossa teledramaturgia (não teve casamento, nem bebês nascendo ou gente má se dando mal), Sete Vidas se despede do espectador como uma das expressivas tramas globais dos últimos anos. Chegando de mansinho, a novela caiu no gosto popular, proporcionando debates necessários à hora do café, no happy hour com os amigos ou na sala com a família – o que não deixa de ser uma surpresa, haja visto seu formato. Apesar de não ter o melhor Ibope, Sete Vidas foi repleta de diálogos marcantes e cenas memoráveis, mostrando que o realismo pode ser muito mais interessante que o velho conflito entre mocinhos e vilões. Resta a nós torcermos para que a Globo olhe Lícia Manzo com mais carinho, concedendo-lhe logo um merecido espaço no horário nobre.

Novas Apostas na Teledramaturgia Brasileira

Quem tem o olhar mais atento, já deve ter notado que, nos últimos anos, a quantidade de novos autores de novelas e minisséries que nos são apresentados tem aumentado consideravelmente. A Rede Globo, definitivamente a mãe da teledramaturgia no país, por exemplo, tem apostado explicitamente em novas caras nos seus folhetins. Para se ter uma idéia, há um mês atrás todas as principais faixas teledramatúrgicas da emissora eram ocupadas por autores relativamente novos (que assinam, no máximo, sua terceira obra).

Motivo? Bom, há alguns. A começar, os autores da “velha guarda” (como são conhecidos os veteranos Benedito Ruy Barbosa, Manoel Carlos, Gilberto Braga, Aguinaldo Silva ou Silvio de Abreu, por exemplo) há muito tempo já demonstram certo desgaste em suas tramas. Isso é reflexo de vários fatores e um deles é a exaustiva carga horária de trabalho a qual são submetidos. Escrever uma novela é uma tarefa árdua que demanda, no mínimo, 10 horas por dia. Ou seja, uma mente mais jovem tende a trabalhar com muito mais facilidade.

Da esquerda para direita, de cima para baixo, os teledramaturgos Manoel Carlos, Gilberto Braga, Aguinaldo Silva, Silvio de Abreu e Benedito Ruy Barbosa: simplesmente os maiores nomes globais em atividade.

Além disso, essa nova geração, boa parte das vezes, traz idéias e soluções mais próximas ao público – que convenhamos, não é o mesmo que assistia, há algumas décadas atrás, os clássicos Escrava Isaura, Vale Tudo ou Mulheres de Areia. O público mudou – e, consequentemente, a forma como a arte teledramatúrgica é vista também mudou. Antigamente, um autor de novela tinha apenas o trabalho de escrever um folhetim para prender a atenção do telespectador, numa época em que a TV era a única opção de entretenimento para a maioria das famílias. Hoje, ele tem a missão de levar o telespectador à televisão, chamar sua atenção e aí sim prende-la, numa época em que as opções de programação são infinitamente maiores e mais acessíveis. Isso é algo que poucos autores dessa velha safra conseguem fazer com maestria (e aqui não é apenas questão de talento).

Glória Pires, como as gêmeas Rute e Raquel, no remake “Mulheres de Areia”, de Ivani Ribeiro.

Duvida disso? Então, vamos a algumas perguntas rápidas: qual foi a última grande novela de sucesso de Gilberto Braga? Você se recorda do último trabalho de Benedito Ruy Barbosa? E qual foi a última Helena memorável de Manoel Carlos? Demorou para responder, certo? Pensou bastante? Não que esses autores estejam ultrapassados ou não sejam bons. Seria uma desonra falar isso de nomes que mudaram a cara da teledramaturgia brasileira e tornaram o Brasil o país com as melhores produções mundiais deste tipo de arte. Mas o fato é que as coisas mudaram e estão cada vez mais rápidas. A cena de um assalto em um novela do Manoel Carlos, por exemplo, pode durar cerca de 4 ou 5 capítulos (taí um autor que sabe escrever drama como ninguém), enquanto a mesma cena contada por um autor como João Emanuel Carneiro (a grande descoberta global na última década) pode durar menos de um quadro. Se você levantar para beber água, perde todo o enredo.

Essa renovação no quadro de autores globais não é nova. Entre as décadas de 1980 e 2000, a emissora foi apostando, aos poucos, em alguns profissionais que, se não são os grandes nomes da casa, tem rendido boas produções, como Carlos Lombardi (rei dos pastelões, como Uga Uga, Quatro por Quatro e Bebê a Bordo e recentemente contratado pela Record), Glória Perez (das saudosas Barriga de Aluguel, De Corpo e Alma e O Clone) Miguel Falabella (que oscila entre fiascos e sucessos) ou Antonio Calmon (de Vamp ou O Beijo do Vampiro).

Da esquerda para a direita: os teledramaturgos Carlos Lombardi, Glória Perez, Miguel Falabella e Antonio Calmon.

Atualmente, os novos nomes estão à solta por aí. Dois excelentes exemplos são Walcyr Carrasco e João Emanuel Carneiro. Walcyr Carrasco conheceu o sucesso com a polêmica novela Xica da Silva, na extinta Rede Manchete, e mais tarde com Fascinação, no SBT. Depois que se mudou para a Globo, em 2000, quando escreveu O Cravo e a Rosa, foi sucesso atrás de sucesso: Chocolate com Pimenta, Alma Gêmea e, recentemente, o remake de Gabriela. Em 2013, Walcyr passará a fazer parte do restrito time de autores do horário nobre da Globo, substituindo (dizem as más línguas) o veterano Manoel Carlos, que vai se dedicar a trabalhos mais curtos (como a provável próxima minissérie da casa).

E o que dizer de João Emanuel Carneiro? O autor conseguiu, com suas duas primeiras tramas próprias, criar as duas novelas com as maiores audiências da década no horário das 19 horas, Da Cor do Pecado e Cobras e Lagartos. Este sucesso inesperado foi o trampolim que levou o autor ao horário nobre em seu terceiro trabalho, A Favorita, grande sucesso de público e crítica. Recentemente, ele entrega à Rede Globo o megasucesso Avenida Brasil, que chega à sua reta final com uma das maiores audiências do horário.

Há outros autores que tem garantido a supremacia global em teledramaturgia. A novela A Vida da Gente, sucesso no horário das seis em 2011, revelou Lícia Manzo como a provável sucessora do estilo “Maneco” de fazer novela (tomara que siga os passos do mestre). Cordel Encantado, exibida em 2011, foi um marco do horário das seis ao apostar na temática da literatura de cordel, ganhando diversos prêmios e colocando os holofotes nos autores Duca Rachid e Thelma Guedes. Filipe Miguez e Izabel de Oliveira criaram a elogiada Cheias de Charme, novela atualíssima que abusou dos recursos mais distintos para agradar ao público, como cultura pop, internet ou o culto às celebridades.

As “empreguetes” Isabelle Drummond, Leandra Leal e Taís Araújo em “Cheias de Charme”.

Não se pode dizer aqui que estes novos autores serão, no futuro, nomes como foram Janete Clair, Dias Gomes, Ivani Ribeiro, Cassiano Gabus Mendes e outros, que com suas obras inovadoras criaram um novo padrão de teledramaturgia no país. Tampouco podemos afirmar que eles não poderão sofrer o gosto amargo de uma trama de pouco sucesso. Muito menos podemos dizer que os mais veteranos não são capazes de criar novos e grandes sucessos (taí Manoel Carlos com sua Laços de Família, Silvio de Abreu com sua Belíssima ou Aguinaldo Silva com seu clássico Senhora do Destino). Entretanto, uma coisa é certa: o brasileiro reclama e fala mal dizendo que novela é tudo igual, mas o maior produto televisivo do país ainda são nossos folhetins. E enquanto tiver público para isso, o que não vai faltar é autor talentoso para escrever boas tramas. Ou não…

Insensata Apelação

O escritor Gilberto Braga, autor de sucessos como Vale Tudo e Celebridade, definiu seu atual trabalho, Insensato Coração, como “a melhor novela de sua carreira”. Pois eis que a produção chega à sua reta final e deixa uma dúvida no ar: foi sério o que Gilberto Braga disse? Pois a julgar pela audiência mediana da trama, podemos concluir que não é bem essa a impressão que público e crítica tem da obra do veterano autor.

A novela, na época de seu lançamento, causou grandes debates. A princípio, foi oficialmente considerada como “a nova novela das oito” – quando, até então, todas as tramas que estreavam no horário eram referidas como “a próxima” atração no horário. Isso despertou a audiência – mas só por alguns instantes. Com o tempo, ficou claro que se tratava de uma narrativa como todas as outras: relações familiares, alguns temas sociais, uma certa dose de humor e, em se tratando dos trabalhos de Gilberto Braga, muita polêmica.

As polêmicas de Insensato Coração se devem, sobretudo, às constantes apelações a que o autor recorre para alavancar a audiência. Em Celebridade, por exemplo, logo nos capítulos iniciais a personagem de Juliana Paes tirou a roupa na praia na frente de fotógrafos sensacionalistas – em uma cena completamente desnecessária. Ali, naquele momento, ficou claro o talento nato de Gilberto para escrever sequências capazes de aumentar a audiência – ainda que o respeito pelo público diminua.


Em Insensato Coração, o vocabulário chega a ser baixo: não há um capítulo em que não se escute as palavras vagabunda, desgraçado ou derivados. A insinuação sexual também tem sido bastante criticada na obra – afinal, não seria diferente em uma novela em que falta bons textos e diálogos. Aliás, a falta de ritmo na trama é tamanha que chega a ser cansativa a quantidade de flashes em que o personagem de Jonatas Faro aparece ao som da música “Talking To The Moon”, de Bruno Mars.

Que a telenovela em si sempre foi um produto questionável, não é novidade para ninguém. Mas o que não podemos entender é a razão pela qual ela ainda continua a ser o principal produto da televisão brasileira. Apesar da audiência das produções ter diminuído consideravelmente nos últimos anos, as histórias das personagens retratadas nas nossas novelas ainda é assunto de discussão na mesa dos brasileiros. Mas Insensato Coração é um caso incomum: o produto é criticado, tem imensos pontos negativos – mas ainda há quem a assista.

Há pontos a serem considerados? Bom, talvez. A coragem de Gilberto Braga em abordar o tema da homofobia (inédito em produções nacionais) foi digna – e, de certa forma, contraria todas as expectativas da emissora. Enquanto o SBT largou na frente e já mostrou o primeiro beijo gay da história da TV moderna, a Globo ainda resiste firmemente. Segundo a cúpula da emissora carioca, o público ainda não estaria preparado para um beijo homossexual na TV. A pergunta que fica no ar, entretanto, é: o público não está preparando para assistir a um beijo gay na TV (apesar do grande número de personagens gays da história, um dos maiores de todos os tempos), mas está preparada para ver um homossexual ser agredido até a morte em horário nobre, como aconteceu em uma cena dessa semana? PS.: com essa, já se somam 22 mortes na trama.

Gilberto, homossexual assumido, tem pisado no freio ao abordar esse tema. A Globo teria vetado diversas cenas do autor que fariam apologia ao homossexualismo. Ou seja, Gilberto sofre com seu texto fraco e com os vetos de sua emissora (ou seria por conta disso que sua criatividade tem se mostrado baixa?). Já foi anunciado que o casal gay da novela iria morrer nos últimos capítulos – o que tem causado furor na comunidade simpatizante.

O autor Gilberto Braga, um dos maiores nomes da nossa teledramaturgia: “Insensato é minha melhor novela.”

Faltando pouco menos de um mês para ter seu final fechado, Insensato Coração não emplacou – e certamente não o fará agora. Com um texto sem teor e histórias pífias, a novela só se sustenta com seus atores. Glória Pires, como sempre, rouba a cena a cada aparição. Sua Norma é impecável. Deborah Secco, apesar de mais um personagem clichê, mostra a razão de ser considerada uma das atrizes mais promissoras de sua geração. Gabriel Braga Nunes substituiu bem Fábio Assunção e nos fez entender porque a Globo fez tanta questão de trazer o ator de volta ao seu elenco. Mas se há boas atuações, há aquelas que envergonham nossa teledramaturgia: Maria Clara Gueiros, engraçadíssima em outros trabalhos, é decepcionante; o casal de protagonistas interpretados por Paola Oliveira e Eriberto Leão é humilhante; Jonatas Faro, então, só sabe chorar e… bom, melhor parar por aqui.

Insensato Coração pode ser para Gilberto a melhor obra do autor. Para o público, certamente não. Para alguns, a trama pode ser considerada como revolucionária e visionária; para outros, uma página manchada na história da TV brasileira. Qualquer que seja a situação, Insensato Coração jamais trará para Gilberto a glória que o autor alcançou com Vale Tudo. Também pudera: já não se fazem mais novelas como antigamente…