Seria “La La Land: Cantando Estações” o Novo “Titanic”?

Comentei em uma conversa com amigos que, a meu ver, La La Land: Cantando Estações seria este ano o que Titanic, de James Cameron, foi há duas décadas atrás. A maioria não concordou muito, torcendo o nariz para o filme de Damien Chazelle, acusando-o de ser uma clara manobra hollywoodiana para padronizar o tipo de cinema que deve ser feito, como se para “monopolizar” o modus operandi e ditar as regras sobre o que é ou não aceitável na cinematografia contemporânea. E isso me indignou muito.

Uma das características mais tristes que vejo no ser humano é o fato de que sempre tentamos diminuir o outro. É muito mais fácil dizer, por exemplo, que a nossa colega de trabalho conseguiu uma promoção porque saiu com o chefe ou que o estagiário subiu de cargo porque puxou o saco do supervisor do que admitir que qualquer um deles possa ser competente em sua função dentro da empresa. Da mesma forma agem alguns cinéfilos e pseudo-críticos cinematográficos por aí. Em uma época onde tudo é muito “fácil”, onde o acesso a todo e qualquer tipo de informação está aí para quem quiser usufrui-la e artistas surgem e desaparecem da noite para o dia, é muito mais cômodo criticarmos uma obra do que tentar entende-la ou simplesmente respeita-la.

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E, me desculpem os chatos de plantão, mas La La Land sofre com isso. La La Land é um filme irretocável, com dois tipos de público: aqueles que o amam e aqueles que amam o odiar (e estes últimos, para mim, são os piores). É isso mesmo: não é o fato de a pessoa não gostar do filme; ela sente uma espécie de necessidade de não gostar simplesmente porque ele é bom e caiu no gosto popular. É o tipo de gente que, a todo custo, tenta diminuir uma produção que, em sua essência, já nasceu grandiosa. La La Land é um produto notável nos últimos anos e, independentemente se levar ou não os prêmios aos quais concorre no Oscar, será lembrado para sempre, assim como Titanic até hoje é um clássico marcante e inesquecível.

Curiosamente, os dois filmes, Titanic e La La Land, são muito parecidos. Não apenas pelas 14 indicações que cada um deles levou no Oscar. Ambos possuem tramas simples – para não dizer ‘medíocres’. Tanto Cameron quanto Chazelle pegaram uma história comum, inseriram os mais diversos clichês possíveis e formaram obras espetaculares. Enquanto o casal principal de Titanic vivia o maior clichê romântico de todos os tempos (uma tragédia shakespeariana para ninguém botar defeito), La La Land também aposta em dois tipos batidos como protagonistas: uma aspirante a atriz e um músico preso às suas convenções. Absolutamente nada novo. É exatamente por isso que muitos não entendem a indicação de La La Land ao prêmio de melhor roteiro original – já que, de fato, a trama não é muito original.

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Mas é aí que reside a grandeza dessas duas obras-primas: elas são narradas com paixão e grandiosidade. Titanic é um filme para os apaixonados; La La Land é um filme para os “tolos que sonham”. Roteiros repletos de clichês, nem um pouco originais, mas que são bem desenvolvidos e produzidos. Lembro do frisson por Titanic na época de seu lançamento – eu mesmo o assisti no cinema umas quatro vezes. Saía maravilhado da sala: aquilo era de outro mundo. Nunca havia visto um filme como este. Com La La Land, a situação foi a mesma: saí da sessão com um sorriso no rosto, o mesmo que me acompanhou durante as mais de duas horas de projeção. Cada cena mexeu comigo de uma forma especial e desejei ter participado deste projeto de alguma forma – nem que fosse como o entregador de sanduíche no set de filmagem, apenas para poder dizer “eu estive lá”.

Hoje, há muita gente que critica Titanic, assim como critica La La Land, mas minha opinião é a de que tanto um quanto o outro são excepcionais dentro de suas respectivas propostas. São filmes atemporais. Não importa quanto tempo passar: DiCaprio sempre será Jack, enquanto Kate Winslet será nossa eterna Rose. La La Land segue a mesma trilha: será um longa lembrado durante muito tempo. Particularmente, acho improvável que o filme de Chazelle seja tão bem sucedido no Oscar quanto o épico de Cameron, mas isso é um mero detalhe. Tanto Titanic quanto La La Land são a prova de que Hollywood ainda é tradicional e há um longo caminho a ser percorrido até que isso mude. Muitas outras produções também são excelentes também, é verdade. La La Land é praticamente um selo “padrão Hollywood” na indústria cinematográfica, mas nem por isso um filme ‘menor’. Pelo contrário: cada vez maior, La La Land já tem seu lugar no coração dos tolos, principalmente os que sonham…

“O Exterminador do Futuro: Gênesis”: Faltou James Cameron na Parada

Recentemente tive a oportunidade de assistir no cinema ao clássico O Exterminador do Futuro, filme originalmente lançado em 1984 e dirigido por James Cameron – na época, um sucesso de público, capaz de revitalizar a carreira do brutamontes Arnold Schwarzenegger e gerar uma continuação elogiada (na década seguinte, com O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final, um dos poucos casos em que a sequência é superior ao primeiro longa). A experiência que tive, apesar de não ser grandiosa, foi curiosamente satisfatória – uma vez que eu particularmente não sou um fã deste gênero -, mas me preparou para encarar a difícil empreitada de conferir a estreia de O Exterminador do Futuro: Gênesis.

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Já de cara adianto: O Exterminador do Futuro: Gênesis é uma produção que tende a agradar o espectador comum. Falo isso assim porque quero me eximir de quaisquer comentários que eu possa ser alvo ao questionar a qualidade do filme – porque a verdade é que Gênesis está longe de ser memorável. A trama nos leva ao ano de 2029, quando o líder da resistência humana John Connor envia o sargento Kyle Reese de volta a 1984 para proteger Sarah Connor e, consequentemente, salvaguardar o futuro (basicamente, a mesma premissa da primeira fita). No entanto, uma linha do tempo fragmentada é criada no meio deste percurso, transportando Kyle a uma versão desconhecida do passado e com uma nova missão nas costas: redefinir o futuro.

Gênesis se inicia razoavelmente bem, com uma sequência ótima de ação, devo admitir, que é visualmente empolgante e acerta em cheio ao recriar um futuro catastrófico e apocalíptico – a atmosfera apresentada é bastante convincente e consegue cumprir sua proposta. O problema é que a partir daí Gênesis gradualmente vai se perdendo, a narrativa vai ficando pouco crível e a única coisa realmente interessante são as referências aos dois primeiros filmes da franquia (apesar do visível esforço do roteiro em revisitar este universo). Com isso, é um vai-e-vem de timelines, personagens que ora são bons, ora são maus, muita história, muita enrolação… e Gênesis se enfraquece. E nem mesmo as cenas de adrenalina (com muito tiro, porrada e explosão) e os efeitos especiais bem aplicados (que geraram até mesmo um Schwarzenegger mais jovem, como há mais de trinta anos atrás) foram o suficiente para amenizar a barra que é engolir mais de duas horas de filme.

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Não que não haja alguns pequenos acertos isolados. O diretor Alan Taylor é competente nas cenas de ação (que não impressionam, mas sim, funcionam) e nos gags de humor – praticamente sob responsabilidade do carismático Arnold que, com quase setenta anos, mostra boa forma e desenvoltura diante das câmeras (apesar de sua personagem repetir exaustivamente a mesma piada, mas está valendo…). Emilia Clarke, com seu físico franzino, também consegue emular bem a saudosa Sarah Connor, mas nada que a faça competir com a eterna Linda Hamilton (ex-esposa de Cameron – que teria perdido os direitos da franquia junto com o divórcio). Mas uma coisa é certa: Alan Taylor não é James Cameron – e isso é crucial para o resultado final. O cineasta tem um currículo invejável na televisão: entre seus títulos, basta citar a oitava fase de Família Soprano e a primeira e segunda temporadas de Game of Thrones (provavelmente uma das melhores séries da atualidade). Porém, o cara ainda deixa a desejar no cinema. O Exterminador do Futuro: Gênesis tem lá suas qualidades, seus bons momentos – mas é nítido que uma direção mais experiente e segura fariam dele um filme melhor.

As Razões Para Assistir “Titanic 3D”

O trailer de Titanic 3D, que estreou essa semana no Brasil, apresenta o filme como “uma produção do visionário diretor de Avatar”. Entretanto, seria muito mais coerente apresentar o filme como uma produção própria, um marco na carreira de seu diretor e atribuir sua visão extraordinária ao próprio filme, lançado originalmente em 1997. Agora, 15 anos depois de seu lançamento e também para “comemorar” o centenário do navio – e, obviamente, para aproveitar a onda do cinema 3D e faturar um pouco – , o diretor James Cameron recria em terceira dimensão sua obra-prima nas telas de cinema de todo o mundo e traz à tona uma das histórias que mais encantaram os cinéfilos de plantão.

Imagens reais do navio, cujo naufrágio completa 100 anos em 2012.

Os mais jovens, que não tiverem a experiência em 1997 de assistir Titanic no cinema tem agora a oportunidade (imperdível) de conferir o romance de Jack e Rose, dois jovens de classes sociais bem distintas, que lutam por sua sobrevivência – e também pela sobrevivência de seu amor – dentro do horror que foi o naufrágio do famoso navio, em 1912. Com um roteiro arrojado, Titanic leva o espectador, ao longo de mais de 3 horas de filme, a se deixar levar por uma história de amor suave e ação de tirar o fôlego, prendendo seus olhos na tela sem se cansar.

Cena clássica do filme de James Cameron - que ganhou, inclusive, diversas paródias.

Qualquer elogio a Titanic, a princípio, pode parecer exagero. Mas não é. Titanic é um dos filmes mais queridos de todos os tempos e um dos mais prestigiados longas da história. Foi o filme que lançou Leonardo DiCaprio como ídolo teen e alavancou a carreira de Kate Winslet, os protagonistas da trama. Além disso, consagrou Cameron como um dos melhores diretores de todos os tempos. O cuidado exagerado na produção (na época, houve-se boatos de que Cameron era um perfeccionista excêntrico, que despendia atenção aos mínimos detalhes e submetia sua equipe a situações constrangedoras) e os efeitos especiais utilizados – que eram avançadíssimos para a época – fizeram de Titanic um dos filmes mais assistidos e com maior faturamento ao redor do mundo.

James Cameron, com Kate Winslet, no set de filmagem. Se o diretor é excêntrico não se sabe; mas se é verdade, valeu muito a pena...

Desde Ben-hur (1959), nenhum filme alcançou a marca de 11 Oscars. Se, entretanto, Titanic faturou praticamente todos os prêmios técnicos, é com as estatuetas de melhor diretor e melhor filme que Titanic se sobressai. Titanic é um filme, definitivamente, um bom filme. Seja nos aspectos técnicos, quer seja em sua direção e roteiro, o filme se tornou um mega sucesso não apenas por seus milhões gastos em efeitos especiais excepcionais. Em Titanic, esses efeitos servem apenas para abrilhantar um filme que já é uma obra-prima por excelência. Costumo ter certa aversão a filmes com efeitos especiais extravagantes – pois, no geral, escondem um roteiro fraco e uma direção frouxa. Mas temos que admitir que Cameron soube cativar o espectador não apenas com os milhões em efeitos, mas com uma trama envolvente que é ingerida por qualquer público – sem apelação, sem forçar a barra.

Kate Winslet, que concorreu ao Oscar de melhor atriz por sua Rose Dewitt Bukater, em uma das cenas mais eróticas do cinema.

Quinze anos depois do lançamento original do filme, Leonardo DiCaprio é um dos atores mais bem pagos de Hollywood, Kate Winslet já ganhou um Oscar de melhor atriz (por sua atuação magnífica em O Leitor, diga-se de passagem), Cameron lançou Avatar – outro marco na história do cinema – e Titanic ainda sobrevive. Se levarmos em conta seu faturamento, sua publicidade, sua projeção e tudo envolto à sua história, não seria exagero dizer que Titanic é, talvez a maior obra cinematográfica de todos os tempos (e não estou falando de sua duração, certo?). Em um período em que Hollywood vem lutando para se manter em pé, Titanic sobreviveu ao tempo e é atual em qualquer época. Se daqui há alguns anos surgir uma nova produção sobre o transatlântico, será difícil que ela tenha a mesma grandeza da versão de Cameron.

A cena em que o navio se parte ao meio, após sua colisão com um iceberg, justificam todo e qualquer centavo empregado por Cameron (e também sua possíveis extravagâncias).

Os chatos de plantão podem torcer o nariz para o filme dizendo que se trata de um filme qualquer, com roteiro cheio de clichês, trilha sonora melosa, atuações fracas e blá blá blá. Muitos podem simplesmente não gostar do filme, o que é aceitável e criticam abertamente a obra de Cameron, não reconhecendo as qualidades da produção apenas por admirarem filmes cults. O fato inegável, no entanto, é que Titanic sobreviveu a si mesmo. Dificilmente Hollywood presenteará o mundo novamente com um filme como esse, um blockbuster com qualidade real e com tamanha projeção. Titanic, definitivamente, é uma expressão magnífica do sentido da sétima arte.