Prepare o Vinho e o Croissant: Vem Aí o Festival Varilux de Cinema Francês 2017

Junho já está quase aí – e com ele chega também um dos eventos mais esperados pelos cinéfilos de carteirinha: o Festival Varilux de Cinema Francês. A edição deste ano, que ocorre entre os dias 07 e 21 de junho, abrangerá 55 cidades de 21 estados e o Distrito Federal.

Ao todo, serão 19 títulos exibidos, todos inéditos no país, incluindo o documentário Amanhã, de Cyril Dion e Melanie Laurent, e o musical Duas Garotas Românticas, de Jacques Demy – o clássico do ano, estrelado pelas irmãs Catherine Deneuve e Françoise Dorléac (esta última falecida em 1942, aos 25 anos, em um trágico acidente automobilístico).

Além destes, outros filmes ganham destaque e são muito aguardados pelo público. Julliete Binoche, que estampa o cartaz desta edição, é a protagonista de Tal Mãe, Tal Filha, comédia de Noèmie Saglio (um dos nomes responsáveis pelo irresistível Beijei Uma Garota, exibido no festival em 2015). Deneuve também estrela O Reencontro, filme de Martin Provost, ao lado da igualmente musa francesa Catherine Frot (que protagonizou Marguerite, de Xavier Gianolli, no ano anterior). A oscarizada Marion Cotillard aparece nas telonas do evento em duas produções: em Rock’n Roll – Por Trás da Fama, de Guillaume Canet; e Um Instante de Amor, de Nicole Garcia, onde divide as atenções com ninguém menos que Louis Garrel. Omar Sy dá as caras por aqui com Uma Família de Dois, assim como o cineasta François Ozon, que apresenta seu mais novo trabalho, o elogiado drama pós-guerra Frantz.

Além dos títulos, o Varilux também contará com sua já tradicional oficina de roteiros, que acontecerá no Rio de Janeiro entre os dias 05 a 09 de junho. Marcam presença ainda na abertura do Festival os realizadores e intérpretes de Perdidos em Paris, Dominique Abel e Fiona Gordon; o rapper e ator Sadek, que contracena ao lado de Gérard Depardieu em Tour de France; o ator Ramzy Bedia e o diretor Olivier Peyon, de O Filho Uruguaio; a cineasta Noèmie Saglio e a atriz Camille Cottin.

Confira abaixo os filmes desta edição:

A VIAGEM DE FANNY (Le Voyage de Fanny), de Lola Doillon
A VIDA DE UMA MULHER (Une Vie), Stéphane Brizé
AMANHÃ (Demain), de Cyril Dion e Mélanie Laurent
CORAÇÃO E ALMA (Réparer les Vivants), de Katell Quillévéré
DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS (Les Demoiselles de Rochefort), de Jacques Demy
FRANTZ (Frantz), de François Ozon
NA CAMA COM VICTORIA (Victoria), de Justine Triet
NA VERTICAL (Rester Vertical), Alain Guiraudie
O FILHO URUGUAIO (Une Vie Ailleurs), de Olivier Peyon
O REENCONTRO (Sage Femme), de Martin Provost
PERDIDOS EM PARIS (Paris Pieds Nus), de Dominique Abel e Fiona Gordon
ROCK’N ROLL – POR TRÁS DA FAMA (Rock’n’Roll), de Guillaume Canet
RODIN (Rodin), de Jacques Doillon
TAL MÃE, TAL FILHA (Telle Mére, Telle Fille), de Noémie Saglio
TOUR DE FRANCE (Tour de France), de Rachid Djaidani
UM INSTANTE DE AMOR (Mal de Pierres), de Nicole Garcia
UM PERFIL PARA DOIS (Un Profil Pour Deux), de Stéphane Robelin
UMA AGENTE MUITO LOUCA (Raid Dingue), de Dany Boon
UMA FAMÍLIA DE DOIS (Demain Tout Commence), de Hugo Gélin

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FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS 2017

Data: de 07/06/2017 a 21/06/2017
Informações: http://variluxcinefrances.com

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Discussões e Escolhas em “Mil Vezes Boa Noite”

Ainda há poucos dias atrás, conversava com alguns amigos sobre carreiras, empregos, vocações e coisas do gênero. Na ocasião, comentei que acredito firmemente que toda pessoa nasce para fazer alguma coisa, todos tem um dom particular que, na maioria das vezes, nunca é descoberto ao longo da vida (devido a inúmeras situações ou problemas que não vou explorar aqui). Argumentei ainda que admiro muito as pessoas que conseguem seguir uma boa carreira fazendo aquilo que realmente gostam – afinal, existe um grande abismo entre gostar do que se faz e se acostumar a fazer. Mais ainda: às vezes, deixamos de lado nossos sonhos para nos lançarmos em projetos que, apesar de não nos satisfazer por completo, garantem o nosso sustento ou nosso padrão de vida elevado – ou por várias razões, tentamos conciliar as duas coisas mas acabamos sempre optando por uma e abandonando a outra.

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Todos estes pensamentos, veja você, me vieram à tona ao assistir Mil Vezes Boa Noite, novo filme de Erik Poppe (elogiado por seu longa anterior, Águas Turvas, de 2008) que chega aos cinemas nacionais nesta semana. Na trama, acompanhamos o drama da fotógrafa de guerra Rebecca, uma das mais renomadas profissionais neste ramo no mundo, que após sobreviver a um ataque durante um conflito em alguma região perigosa em que trabalhava, volta para casa e reencontra sua família. O dilema da artista começa quando ela tem de decidir continuar seu bem sucedido trabalho ou dedicar-se apenas aos seus familiares (esposo e as duas filhas), que vivem cada dia temendo perdê-la devido aos riscos de sua profissão.

Juliette Binoche dá vida à nossa protagonista, através de uma atuação segura, sóbria e intensa, oscilando de forma tocante cada nuance de sua personagem. Sua dor é latente; seu sentimento é real e o turbilhão de emoções de Rebecca atinge o espectador em cheio, nos aproximando cada vez mais da narrativa. O roteiro (parceria do cineasta com Harald Rosenløw-Eeg) também apresenta alguns momentos de silêncio e outros mais conturbados, onde o diretor faz uso de uma sonoplastia poderosa, marcada principalmente por sua trilha pontual – que acentua, sob certo ângulo, o sofrimento de Rebecca. Dessa forma, Mil Vezes Boa Noite se torna, por vezes, um filme angustiante, dolorido – e o espectador sofre junto com nossa anti-heroína (que divide o amor entre a família e sua profissão).

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Mil Vezes Boa Noite escancara, ainda, uma realidade cruel que muitos ignoram ao mostrar a situação de milhares de pessoas residentes em áreas em constantes conflitos mundo afora – e que, muitas vezes, são ignoradas pelos demais. Alem desta crítica social, o filme toca na ferida ao mostrar o drama da mulher moderna, que mesmo no século XXI ainda tem de escolher entre carreira e família (e, quase sempre, é apenas um dos lados que sai vencedor) – ser uma profissional brilhante ou escolher cuidar da casa e da família, uma tradição cultural que ainda domina muitos países ocidentais. Levanta também um profundo debate sobre a ética da profissão, ao questionar quais são os limites a que deve se expor um trabalhador para conseguir bons resultados, assim como o papel da imprensa diante da censura governamental (se é que podemos chamar dessa forma), que tem o poder de selecionar aquilo que vai ou não ser repassado. Com tantas reflexões, Mil Vezes Boa Noite é um filme que vale a pena até mesmo para pautas e conversas posteriores. Apesar de não ser totalmente marcante, o longa de Erik Poppe cumpre muito mais do que sua proposta, se tornando uma obra indispensável para quem curte o cinema e todas as suas discussões.