“De Canção em Canção”: Os Fragmentos que Formam a Vida

Por mais incomuns que sejam suas narrativas, assistir a um filme de Terrence Malick é sempre uma experiência interessante. De Canção em Canção, seu mais recente trabalho (e o melhor desde o irretocável A Árvore da Vida), nos apresenta um triângulo amoroso ambientado em Austin, no Texas – cidade popularmente conhecida como a capital mundial da música ao vivo e berço de importantes festivais que abrigam os mais variados estilos musicais. Neste cenário, um produtor bem sucedido (Michael Fassbender) mantém uma relação atípica com sua assistente (Rooney Mara), até a moça se apaixonar por um jovem compositor (Ryan Gosling). O namoro se intensifica à medida que a amizade entre os rapazes se fortalece – relacionamentos estes só abalados quando o passado de romance entre a mulher e o chefe vem à tona.

De Canção em Canção pode enganar pelo título, afinal apesar de a música ser muito presente (e praticamente uma personagem, dada sua importância no desenvolvimento da trama), não estamos diante de um filme musical tradicional, mas sim de uma obra com a incrível assinatura de Malick – um cineasta muito particular, daqueles que ou você ama ou você odeia. Após uma série de produções questionáveis, Malick retoma seu modus operandi: um cinema quase voyeurístico, onde a atenção do espectador é essencial para a compreensão da história (se é que há uma história a ser compreendida). Todo detalhe é importante: cada imagem, cada diálogo solto (aparentemente sem pretensão alguma), cada gesto auxiliam na construção da narrativa. Apesar do ritmo “lento”, Malick diz muito – seja com sua câmera na mão que desliza na captura do que bem entender; nas citações a princípio sem muita conexão; nos cortes rápidos que traduzem momentos isolados de cada um de seus protagonistas; enfim, é como se, de recorte em recorte, Malick construísse seu argumento, ainda que estes “fragmentos” possam parecer aleatórios, sem um período cronológico definido ou sem sentido algum.

Com a exuberante participação de seu velho companheiro, Emmanuel Lubezki (em minha opinião, o melhor diretor de fotografia da atualidade), Malick nos entrega uma espécie mais contemplativa de Closer – Perto Demais, conduzido por gestos, monólogos (há poucos diálogos diretos) e, principalmente, pensamentos de suas personagens – o que sugere a dificuldade que estes tipos tem em externar suas emoções. O roteiro, do próprio cineasta e feito durante o processo de edição (pós-produção), valoriza as angústias, incertezas e dúvidas de seus protagonistas: eles questionam não apenas suas relações uns com os outros, mas também a si mesmos, suas virtudes e vícios, fraquezas e culpas diante das situações que ocorrem. Eles são palpáveis a seu modo, já que são capazes de refletir sobre aquilo que fazem e as consequências de suas escolhas.

De Canção em Canção traz infindáveis teorias sobre o amor e a felicidade – temas recorrentes nos últimos trabalhos de Malick. Aqui, com sua já habitual narração em off e seus personagens rodando em volta da câmera citando frases de efeito, o diretor alcança um patamar maior ao nos proporcionar um debate sobre o que é realmente necessário para ser feliz. Apesar de ter como pano de fundo uma história de amor moderna, De Canção em Canção não é um romance comum: pelo contrário, é um drama existencialista que mostra o quão frágil é o ser humano e o quão dependente somos de nossas atitudes. São elas que nos moldam e nos tornam quem somos. Em certos instantes, um vazio permeia o longa, o que cria uma atmosfera intimista, propícia para aquilo que Terrence deseja nos oferecer – uma pena que nem todos serão capazes de alcançar este estado. De Canção em Canção pode não ser o filme mais fácil, mas vai na contramão daquilo que a indústria cinematográfica tem nos ofertado atualmente – daí sua experiência ser tão incrível.

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A Loucura do Universo Artístico de “Frank”

02Jon é um jovem comum, como tantos outros de sua idade: ligado nas redes sociais, é aspirante a músico e compositor, mas sua realidade se limita ao pacato trabalho no escritório e a volta para casa. Em um desses dias de rotina, Jon é casualmente convidado a substituir o tecladista de uma banda de rock que está em sua cidade – banda esta liderada por Frank, um doente mental que vive o tempo todo com uma cabeça de papel machê, escondendo sua verdadeira identidade. O grupo decide se refugiar no campo para a gravação de seu novo disco – e é aí que os poucos conflitos da trama passam a acontecer.

A narrativa de Frank é feita sob a perspectiva de Jon: é interessante ver como sua visão daquele meio influencia a percepção do público. Quanto mais Jon se aproxima de Frank, mais o espectador o faz; quanto maior a admiração de Jon por Frank, mas admiramos também essa personagem – que desde o início é tratado como um ser cativante, um gênio incompreendido, dentro de um grupo de loucos que não sabem muito bem como lidar com a fama e o reconhecimento. Já na primeira cena, sem esforço algum, é possível simpatizar-se com Frank, sem sabermos exatamente quem ele é e o porquê de sua condição – ou seja, compramos um ídolo sem conhecermos, de fato, sua obra.

Talvez isso se dê também por conta da atuação magnânima de Michael Fassbender, baseada quase inteiramente em seu tom de voz e, principalmente, em suas expressões e movimentos corporais. É quase possível ver o rosto de Fassbender por trás da cabeçona, identificando precisamente seu temperamento – se calmo, tenso, feliz, pensativo. E essa performance cresce de forma marcante no decorrer da fita, especialmente em sua segunda parte – quando Frank se mostra inseguro com relação ao seu talento e não sabe como conviver com o sucesso precoce. Arriscaria dizer que, em um ano em que Bradley Cooper ganhou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho regular em Sniper Americano, não me pareceria mal ver Michael concorrer na mesma categoria.

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Se Michael está ótimo, os demais nomes do elenco não deixam a desejar. Domhnall Gleeson é bastante competente na pele de Jon – o contraponto da banda, o mais “sensato” e ao mesmo tempo o menos “artista”, por assim dizer. Seu papel é claramente bem definido e delineado, ganhando as oscilações pertinentes à história. Ele é quem busca (e acredita) no sucesso de seu trabalho – acontece que Frank e seus amigos são muito indie para viver isso. Jon quer criar um público, mas a banda é muito alternativa para os sonhos do garoto. Maggie Gyllenhall também é eficiente como Clara, uma das musicistas cujo comportamento agressivo não tem sua origem muito bem levantada, mas ajuda a pontuar alguns conflitos na trama. Os outros integrantes estão em boa sintonia, mostrando o perfil sensível e, por vezes, fadado à loucura de muitos artistas mundo afora.

Com uma trilha sonora espetacular, Frank erra, talvez, na inconsistência de seu roteiro, que flerta com vários gêneros e, desta forma, traz uma certa imprevisibilidade na narrativa – que é particularmente ótima, mas pode não agradar a todos e, consequentemente, produzir trechos menos favoráveis. Em alguns momentos, isso torna o filme meio estagnado, sem saber exatamente para onde quer nos levar ou o que está querendo dizer. Há visíveis quebras de tom e ritmo, que não chegam a atrapalhar a obra, mas podem cansar quem não abraçar totalmente a ideia. De certa maneira, Frank retrata com delicadeza, humor sofisticado e bastante poesia o lado menos “glamouroso” do universo artístico – que muitas vezes é ignorado por simples mortais, como você e eu. Mas isso não importa: assim como seu personagem título, Frank consegue ser apaixonante, louco e memorável.