A Loucura do Universo Artístico de “Frank”

02Jon é um jovem comum, como tantos outros de sua idade: ligado nas redes sociais, é aspirante a músico e compositor, mas sua realidade se limita ao pacato trabalho no escritório e a volta para casa. Em um desses dias de rotina, Jon é casualmente convidado a substituir o tecladista de uma banda de rock que está em sua cidade – banda esta liderada por Frank, um doente mental que vive o tempo todo com uma cabeça de papel machê, escondendo sua verdadeira identidade. O grupo decide se refugiar no campo para a gravação de seu novo disco – e é aí que os poucos conflitos da trama passam a acontecer.

A narrativa de Frank é feita sob a perspectiva de Jon: é interessante ver como sua visão daquele meio influencia a percepção do público. Quanto mais Jon se aproxima de Frank, mais o espectador o faz; quanto maior a admiração de Jon por Frank, mas admiramos também essa personagem – que desde o início é tratado como um ser cativante, um gênio incompreendido, dentro de um grupo de loucos que não sabem muito bem como lidar com a fama e o reconhecimento. Já na primeira cena, sem esforço algum, é possível simpatizar-se com Frank, sem sabermos exatamente quem ele é e o porquê de sua condição – ou seja, compramos um ídolo sem conhecermos, de fato, sua obra.

Talvez isso se dê também por conta da atuação magnânima de Michael Fassbender, baseada quase inteiramente em seu tom de voz e, principalmente, em suas expressões e movimentos corporais. É quase possível ver o rosto de Fassbender por trás da cabeçona, identificando precisamente seu temperamento – se calmo, tenso, feliz, pensativo. E essa performance cresce de forma marcante no decorrer da fita, especialmente em sua segunda parte – quando Frank se mostra inseguro com relação ao seu talento e não sabe como conviver com o sucesso precoce. Arriscaria dizer que, em um ano em que Bradley Cooper ganhou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho regular em Sniper Americano, não me pareceria mal ver Michael concorrer na mesma categoria.

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Se Michael está ótimo, os demais nomes do elenco não deixam a desejar. Domhnall Gleeson é bastante competente na pele de Jon – o contraponto da banda, o mais “sensato” e ao mesmo tempo o menos “artista”, por assim dizer. Seu papel é claramente bem definido e delineado, ganhando as oscilações pertinentes à história. Ele é quem busca (e acredita) no sucesso de seu trabalho – acontece que Frank e seus amigos são muito indie para viver isso. Jon quer criar um público, mas a banda é muito alternativa para os sonhos do garoto. Maggie Gyllenhall também é eficiente como Clara, uma das musicistas cujo comportamento agressivo não tem sua origem muito bem levantada, mas ajuda a pontuar alguns conflitos na trama. Os outros integrantes estão em boa sintonia, mostrando o perfil sensível e, por vezes, fadado à loucura de muitos artistas mundo afora.

Com uma trilha sonora espetacular, Frank erra, talvez, na inconsistência de seu roteiro, que flerta com vários gêneros e, desta forma, traz uma certa imprevisibilidade na narrativa – que é particularmente ótima, mas pode não agradar a todos e, consequentemente, produzir trechos menos favoráveis. Em alguns momentos, isso torna o filme meio estagnado, sem saber exatamente para onde quer nos levar ou o que está querendo dizer. Há visíveis quebras de tom e ritmo, que não chegam a atrapalhar a obra, mas podem cansar quem não abraçar totalmente a ideia. De certa maneira, Frank retrata com delicadeza, humor sofisticado e bastante poesia o lado menos “glamouroso” do universo artístico – que muitas vezes é ignorado por simples mortais, como você e eu. Mas isso não importa: assim como seu personagem título, Frank consegue ser apaixonante, louco e memorável.

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