“…Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23:43b) é a promessa do Cristo crucificado ao ladrão que lhe pede para ser lembrado ao entrar em seu reino. É semelhante à promessa que recebem Said e Khaled, dois jovens palestinos e amigos de longa data, ao serem intimados a cumprir uma missão suicida como homens-bomba, durante um atentado a uma região de Tel-Aviv.
Embora o conflito entre Israel e Palestina tenha se intensificado nos últimos anos, é preciso esclarecer que essa luta trágica entre judeus e palestinos se estende há décadas. Paradise Now, longa-metragem dirigido por Hany Abu-Assad, acompanha esses protagonistas cujas vidas são igualmente marcadas pela pobreza, pela falta de perspectivas e pela experiência diária da ocupação israelense. Nesse contexto, a missão recebida não representa algo a se fazer apenas por impulso (e que o nosso olhar ocidentalizado tende a crer) mas, principalmente, uma forma de transformar uma existência que julgam incontornável em um ato que, dentro da lógica da organização militante, tem um profundo significado político e religioso.
O ponto de virada na história ocorre quando o atentado não sai como o planejado, forçando os amigos a se separarem momentaneamente. A dupla, que antes mostrava-se determinada, passa a questionar suas próprias motivações, revelando que a convicção que antes os conduzia não é tão inabalável quanto parecia. A distância entre os dois permite que cada um deles confronte, à luz de suas próprias biografias, os motivos que o levaram a tal ponto: enquanto Khaled começa a hesitar diante da possibilidade de tirar a própria vida e a de outras pessoas, Said parece encontrar aí uma reafirmação de seu propósito – tanto por sua relação com a fé quanto pela possibilidade de recuperar a dignidade que acredita ter sido perdida pela família com a execução de seu pai, acusado de colaborar com os israelenses. Sua decisão, portanto, atravessa também uma questão íntima de honra, culpa e memória familiar, o que torna seu dilema ainda mais complexo.
Assim como o ladrão crucificado na passagem bíblica, o Paraíso também está ligado a Said a uma promessa de redenção. Diferentemente do que ocorre na maioria dos filmes de grandes circuitos – que comumente reduzem essas figuras à alcunha simples de “terroristas” – , o cineasta parece manter sua posição mais à distância. Não que ela não exista: pelo contrário, o diretor traz sua mensagem e permite que o espectador tire suas próprias conclusões a partir dela. Mas ao deslocar o eixo narrativo para além do suposto ódio que levam essas pessoas a cometerem tais atos, tratando-os como pessoas comuns – portanto, que têm sonhos, medos, limitações, incertezas – diante de um cenário desolador, Paradise Now se mostra mais interessado em compreender o ser humano por trás do rótulo, explorando as contradições, os afetos e as circunstancias que podem levar alguém a enxergar a própria morte como um único caminho possível.
