Me Chame Pelo Seu Nome (Call me by Your Name)

Aclamado pela crítica e público, Me Chame Pelo Seu Nome desponta como um dos grandes favoritos nas principais categorias do Oscar em 2018. De fato, o longa dirigido por Luca Guadagnino, para além de sua excepcional cinematografia (o que, em minha opinião, já o configura como um dos melhores títulos do gênero neste aspecto), trata com sensibilidade o despertar da paixão adolescente, tendo como cenário a idílica paisagem italiana no início dos anos 80.

É mais um verão na vida do jovem Elio (Timothée Chalamet), de 17 anos, filho único de uma família norte-americana com ascendência europeia. Tudo muda, no entanto, com a chegada de Oliver (Armie Hammer), um acadêmico convidado pelo pai do adolescente a passar as férias com a família e ajuda-lo em suas pesquisas sobre cultura greco-romana. Aos poucos, as afinidades entre Elio e Oliver se tornam mais vigorosas, fazendo vir à tona novos sentimentos que marcarão para sempre a vida do garoto.

Baseado no livro homônimo de André Aciman, o argumento de Me Chame Pelo Seu Nome acompanha o crescimento de seu personagem principal e a evolução de seus sentimentos pelo hóspede tão desejado. Há quem reclame do ritmo da narrativa (provavelmente aqueles que esperam calorosas sequências de sexo entre os protagonistas, algo que – sinto informar – felizmente não acontece), alegando que a fita custa a engrenar. Com efeito, a atração entre Elio e Oliver pode até parecer imediata, logo à primeira cena, na troca de olhares do casal; mas sim, o envolvimento entre eles ocorre aos poucos, em meio a diálogos soltos, encontros casuais, toques inesperados – entre outros momentos propícios ao florescer de uma paixão.

Entretanto, quando os sentimentos são revelados, o filme ganha uma intensidade monstruosa, muito estimulada pela incrível química entre Chalamet e Hammer. Enquanto o mais velho (que nunca fora reconhecido necessariamente por seu talento, mas sobretudo por sua beleza clássica) consegue manter a distância narrativa apropriada a seu personagem (ele nunca ofusca, mas também nunca é ofuscado), Timothée tem uma atuação irretocável, conseguindo transmitir todas as ânsias, angústias, medos do tímido Elio. A menos que surja outra grande performance nesta temporada, o Oscar de melhor ator “precisa” ser dele – os últimos 15 minutos de película são arrebatadores e é ele quem faz toda a diferença para que isto ocorra.

A fotografia iluminada de Sayombhu Mukdeeprom é a responsável pelo clima de veraneio da fita, capturando com precisão a paisagem campestre da Itália da década de 80. A câmera passeia com naturalidade, nos colocando como observadores da história do plano mais conveniente possível. O design de produção contribui muito para a ambientação, que nos remete ao período em questão já nos instantes iniciais. A trilha sonora, no entanto, favorece muito o filme, uma vez alocada de forma irrepreensível. Ela é tímida, mas não imperceptível e funciona como um poderoso agente na trama – senti particularmente uma certa influência das trilhas “quebradas” da nouvelle vague (como em inúmeras obras de Godard ou Truffaut, por exemplo).

É interessante perceber o quanto o cinema gay (uma definição a qual não gosto de recorrer) tem crescido ao longo dos anos: se antes, essas histórias ficavam muito restritas às produções baratas ou alternativas, elas vem alcançando o “mainstream” e ganhando destaque em inúmeras premiações – não apenas por sua temática, que fique claro, mas pela qualidade inegável destas produções. É o caso de Me Chame Pelo Seu Nome: talvez ele possa não trazer nada necessariamente novo (há até mesmo alguns clichês, sejamos honestos); mas sua cinematografia é, até aqui, uma das melhores no gênero, transformando este em um filme indiscutivelmente importante. Visual e tecnicamente belo, Me Chame Pelo Seu Nome é uma história de amor convencional, sim, mas narrada com a sensibilidade e excelência necessários para transforma-lo em um “cinema gay” de primeiro escalão.

Amante Por um Dia (L’Amant d’un Jour)

A nouvelle vague foi um dos mais intensos e frutíferos momentos da história do cinema, mas ela ficou lá atrás, não há dúvidas. Philippe Garrel, entretanto, está entre nós, fiel a um movimento tão singular e rico quanto sua filmografia – infelizmente pouco conhecida pelo grande público brasileiro, que só passou a (re)conhecer Garrel através de seu filho, Louis, o astro francês de Os Sonhadores. Ainda que o cineasta tenha iniciado sua carreira quando a “nova anda” já não era tão nova assim, sobram títulos marcados por características da nouvelle vague na obra de Garrel (pai) – e Amante Por um Dia, seu mais novo longa-metragem, é um desses trabalhos.

Jeanne (Esther Garrel) acaba de terminar o noivado com um homem por quem fora (e ainda é) perdidamente apaixonada. À beira do colapso total, ela vai buscar abrigo no pequeno apartamento do pai, Gilles (Eric Caravaca), um professor universitário que acabara de engatar um namoro às escondidas com Ariane (Louise Chevilotte), sua aluna de mesma idade da filha. Jeanne e Ariane se aproximam e tornam-se amigas, mas não demora muito para que os problemas comecem a surgir.

Já nos minutos iniciais, é possível observar o contraste existente entre as duas personagens femininas: enquanto uma corre de euforia ao encontro de seu amado, a outra chora a perda de seu par. Céu e inferno, alegria e tristeza, sorrisos e lágrimas. O contraste, todavia, é alimentado durante toda a narrativa até que, ao final, a situação se inverta. A relação entre os três protagonistas, por sua vez, se constrói em meio às crises nervosas de Jeanne, ataques de ciúmes, infidelidade, descaso – em um emaranhado de sentimentos que acabará corrompendo esse trio tão incomum.

Segundo o próprio idealizador, O Amante de um Dia é a terceira parte de uma trilogia precedida por O Ciúme (2013) e À Sombra das Mulheres (2015). Compõem este conjunto tanto por sua temática (romances que falam sobre relacionamentos amorosos) quanto por sua estética, que evoca o cinema clássico francês nos recursos que utiliza: a fotografia em preto e branco, de um granulado sutil; os diálogos habituais entre os personagens (muitas vezes fora de quadro); as caminhadas nas ruas, que exploram os ambientes externos; a narração off; a trilha sonora irregular – entre outros artifícios que, ainda que não tão habituais no cinema atual, dão identidade à filmografia de seu diretor. Há planos, por exemplo, que parecem ser retirados de fotografias antigas: em um deles, o rosto limpo de Chevillote é captado com tamanha delicadeza, que é impossível não nos recordarmos dos filmes franceses de outrora.

Dizem por aí que o amor é como duas pessoas segurando a ponta de um elástico: o primeiro que soltar machuca o outro. Todos estamos, no entanto, invariavelmente propensos a sofrer, a nos deixar sofrer ou a fazer sofrer – assim é o amor. As relações amorosas tendem a ser conturbadas em suas inúmeras camadas e é constantemente explorada no cinema. Poucos cineastas, entretanto, conseguem tratar este tema infinito de forma tão interessante – e um deles é Philippe Garrel.

À Sombra de Duas Mulheres (L’Ombre des Femmes)

Um dos cineastas franceses mais inquietantes, Philippe Garrel chega aos cinemas com À Sombra de Duas Mulheres, um drama romântico que acompanha a dupla Pierre (Stanislas Merhar) e Manon (Clotilde Courau), um casal de documentaristas que sobrevive de pequenos trabalhos temporários. Enquanto executam um novo projeto sobre um dos membros da Resistência Francesa, Pierre conhece Elizabeth (Lena Paugam), com quem acaba se envolvendo. Ainda apaixonado por Manon, Pierre mantém o relacionamento com as duas mulheres até provar do mesmo veneno: a esposa também tem um amante.

À Sombra de Duas Mulheres é competente ao tratar a tensão de um tema tão controverso: a infidelidade. Existe um contraponto entre as traições de Pierre e Manon: enquanto o adultério masculino é restrito aos cômodos de um apartamento, Manon desfila com seu amante pelas ruas da cidade, entre cafés, sorrisos e carícias. Ao descobrir o adultério, a relação entre eles já não é a mesma: ainda que se “recuse” a terminar com Elizabeth, Pierre já não suporta estar ao lado de Manon, já que entre eles paira um sentimento constante de desconfiança. Em suma, o encanto se acaba. Entretanto, o argumento é sábio ao não vilanizar nenhum dos personagens: pelo contrário, Garrel é sábio ao explorar a relação entre eles com um viés de esperança. Há uma ruptura clara em À Sombra de Duas Mulheres quando comparado aos títulos anteriores do cineasta: aqui, enxerga-se uma chance de redenção para seus protagonistas.

Garrel retorna à película tradicional e à fotografia em preto e branco – o que traz todo o ar de nostalgia, assim como em seu longa anterior, O Ciúme. A trilha sonora de Jean-Louis Auber bem como a narração da fita (a cargo de Louis Garrel) também contribuem bastante à atmosfera de filmes antigos – algo que, por si só, já torna À Sombra de Duas Mulheres uma obra, no mínimo, interessante. Curiosamente, entre idas e vindas, Garrel entrega aqui uma espécie de Closer – Perto Demais da nouvelle vague: a infidelidade pode ser encarada de várias formas; algo encorajador para alguns ou o fim do mundo para outros. Apesar de ser apenas mais um filme sobre o tema, À Sombra de Duas Mulheres é um drama cru e cotidiano, que discute a moral duvidosa de suas personagens diante de situações que fazem parte da natureza humana. Garrel pai, mais uma vez, é feliz em sua proposta.

Frantz (Frantz)

Françoiz Ozon é um cineasta que transita por qualquer gênero, porém sempre com um estilo instigante, com uma certa dose de tensão e suspense que tornam seus filmes, no mínimo, agradáveis. Com isso, é muito comum ouvirmos por aí que Ozon é um diretor “confiável”, que mesmo em seus momentos menos inspirados erra pouco. Todavia, ao acertar, o realizador francês entrega obras interessantíssimas, como 8 Mulheres, Dentro da Casa e seu mais recente trabalho, Frantz.

Ambientado em uma pequena cidade alemã após a Primeira Guerra Mundial, Frantz narra inicialmente o luto de Anna (Paula Beer) após a perda de seu noivo, morto em uma batalha na França. Um dia, ao levar flores ao túmulo de seu amado, Anna percebe a presença de um jovem francês, Adrien (Pierre Niney), soldado que se apresenta como amigo de Frantz durante o período em que este esteve na capital francesa. No entanto, qual seria a real natureza do relacionamento de Frantz e Adrien?

A rivalidade entre Alemanha e França é o pano de fundo deste conto – e também é fundamental para o desenvolvimento da película. Adrien, como francês, se torna cada vez mais íntimo de Anna e da família de Frantz, estes alemães. Aos poucos, porém, as revelações (e algumas reviravoltas no roteiro) acabam modificando a relação inicial entre estes personagens – algo que Ozon consegue manipular muito bem, fazendo com que o espectador pense uma coisa quando mais a frente a situação tomará outro rumo.

Com total controle em sua mise-en-scène, Ozon constrói sua trama adequadamente, com uma estética visual impecável que recria a época e é primordial para a imersão do público. Direção de arte e design de produção são responsáveis pelo contraste entre a fria e quieta cidadezinha alemã e a efervescência parisiense do início do século XX (que acentua, inclusive, o conflito de Anna com relação à sua terra natal). A fotografia, por sua vez, desempenha um papel importante na narrativa: predominantemente em preto e branco, ela recorre a alguns artifícios pontuais como a mudança brusca para o colorido – onde Ozon ignora algumas regras do cinema tradicional para trazer maior destaque para os acontecimentos.

Frantz, apesar disso, é um dos filmes mais “formais” de Ozon. Sério, econômico porém elegante, o longa acaba cansando em sua segunda metade, muito prejudicada pela extensão da fita. Ainda assim, dado sua rica cinematografia, Frantz é um trabalho de apreço, uma obra incisiva que trata sobre a culpa do indivíduo e a omissão da verdade, temas contemporâneos que promovem discussões necessárias.

O Ciúme (La Jalousie)

03É difícil compreender as escolhas de Philippe Garrel. O diretor é talvez o mais próximo que temos na atualidade da nouvelle vague – uma das mais interessantes estéticas cinematográficas, que muitos tentam recriar, mas raros o conseguem. Mais do que isso: Philippe é um dos poucos que conseguem exprimir a tradição do amor no cinema francês, que se converte em filmes introspectivos que retratam relacionamentos amorosos e conflitos humanos. Seu mais novo longa, O Ciúme, segue esta linha e mantém este clima delicioso das tradicionais produções francesas – se tornando uma das melhores obras de Garrel.

Com 77 minutos de duração, o filme foge do óbvio e se sustenta na visão de que o homem (como um todo) é um ser complicado e as relações entre eles mais ainda (algo que não é necessariamente novo, porém o cinema carece de uma abordagem mais direta, simples, adulta – contrariando os clichês romantizados hollywoodianos de hoje). Na narrativa, acompanhamos a derrocada amorosa de Louis (Louis Garrel), um ator por volta dos trinta anos que tenta arranjar um emprego para sua nova companheira, a também atriz Claudia (Anna Mouglalis). A filha de Louis (Olga Milshtein) tem um relacionamento saudável com os dois, o que acaba provocando certo ciúmes na mãe da garota, que foi abandonada por Louis tempos atrás. Mais tarde, decepcionada com o fracasso do amante, Claudia o trai com um homem que pode lhe dar a independência financeira que tanto precisa.

O ponto alto de O Ciúme é, obviamente, sua fotografia em preto e branco, que cria uma atmosfera melancólica capaz de acentuar os conflitos de suas personagens. Aqui, é importante citar a ótima escolha de Garrel por filmar a película manualmente (o que justifica alguns momentos tremidos) e também o brilhante trabalho do diretor de fotografia Willy Kurant (que já colaborara com o cineasta anteriormente e também foi parceiro do gênio Godard). A trilha de Jean-Louis Aubert é bem executada e variada, indo do íntimo ao eloquente com muita naturalidade. Quanto às atuações, todo o elenco é razoavelmente suficiente e sem grandes destaques – exceto pela atriz mirim Olga Milshtein, encantadora como a filha do protagonista. Aliás, protagonista que já é nosso velho conhecido Louis Garrel – filho do Philippe e que é capaz de levar no rosto todo o ar descompromissado de sua personagem. É engraçado, no entanto, quando dizem que Garrel (filho) tem a mesma cara em suas atuações. Eu vou um pouco mais alem: Louis parece sempre fazer o mesmo papel, como se ele mesmo fosse uma personagem e seus filmes fossem apenas continuações de seus trabalhos anteriores. Ainda assim, Louis consegue ser arrebatador em cena.

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O Ciúme foge do título clichê e se revela uma obra inspirada cuja poesia não reside apenas nas imagens, mas também em seu argumento que, antes de tudo, trata sobre relações: pais e filhos, irmãos, homem e mulher, amigos. Não há um modelo perfeito de relacionamento, não existe uma receita pronta – e talvez por isso, o título do filme pode confundir a percepção por parte do público. Com cenas inquietantes (que demonstram que a felicidade pode ser encontrada nos simples momentos da vida, como uma conversa com o professor ou um passeio ao parque), O Ciúme leva o espectador a confrontar as complexidades da interação entre os homens.