Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron)

03Quando a Disney anunciou que compraria a Marvel, lá no final da década passada, muita gente ficou com uma pulga atrás da orelha com relação ao futuro de ambas as empresas – o que era justificável. E aí, quando menos esperávamos, o estúdio do ratinho Mickey nos surpreendeu de forma insana com Os Vingadores, um sucesso de público e crítica, considerado por muitos na época como “o melhor filme de heróis de todos os tempos”. Não é tão difícil, dessa forma, explicar o frisson causado pela estreia da continuação da série, o aguardado Vingadores: Era de Ultron, que chegou aos cinemas brasileiros nesta semana.

Na gênese de Era de Ultron, encontramos o primeiro filme da saga, lançado em 2012 – e nada além disso. Se você, quando criança, acompanhava os desenhos de Tom e Jerry, vai entender bem o que quero dizer. A ideia era sempre a mesma: um gato que perseguia um rato incansavelmente – mudava-se apenas os meios, talvez o cenário, adicionava-se um ou outro personagem na trama (um cão valentão, uma passarinho amedrontado, uma gatinha charmosa), eventualmente eles se uniam para derrotar um inimigo em comum… Mas a premissa era a mesma. Assim é Vingadores: Era de Ultron: não uma continuação, mas um capítulo ligeiramente mais sombrio de tudo aquilo já assistimos anteriormente, sem absolutamente nada de inovador.

Não que isso seja ruim – afinal, foi justamente isso que encantou plateias no mundo inteiro e é exatamente o que esperamos ver em um filme de heróis: explosões de tirar o fôlego, a velha luta do bem contra o mal, batalhas épicas, efeitos especiais mirabolantes. E nestes quesitos, Era de Ultron é um prato cheio para os aficionados da série. Nesta aventura, no entanto, o grupo de heróis terá de salvar o planeta das ameaças de Ultron, um programa de inteligência artificial mantenedor da paz mundial (“criado” pelo próprio Tony Stark) que tomou a forma de um robô. Viu só? A mesma e passada história de sempre. Mas os problemas de Era de Ultron podem ser claramente percebidos ao longo de suas quase duas horas e meia de duração.

02

O filme se estende demais, com cenas que poderiam muito bem ser eliminadas sem prejudicar o produto final. E, estranhamente, as sequências que não fariam muita falta foram aquelas que mais envolviam pancadaria e explosão – como o desfecho da narrativa, que é pura enrolação e computação, sem um clímax à sua altura. Outra situação questionável: o vilão Ultron, apesar de até despertar certa curiosidade no início, não consegue muito bem deixar claro para qual finalidade veio e nem quais são suas reais motivações – isso sem mencionar a ausência de carisma que encontrávamos de sobra em Tom Hiddleston, como Loki. Ultron só tem um grande mérito: é ele quem praticamente faz oscilar o tom do filme, alternando as batalhas catastróficas com momentos em que os dramas pessoais de nossos heróis são devidamente tratados (como o Gavião Arqueiro, que está em crise familiar, ou a Viúva Negra que já não esconde seu interesse pelo doutor Banner).

01

Mas Vingadores: Era de Ultron está longe de ser um fiasco – e talvez muito da minha opinião seja influência do fato de que eu não gosto de filmes de heróis. Mas também devemos concordar que, como cinema, Era de Ultron tem suas falhas, sim, que talvez não fiquem tão evidentes porque a produção nos compensa com outros pontos favoravéis, como os ótimos efeitos especiais, a trilha sonora elétrica de Danny Elfman e até as piadinhas bem sacadas – que na verdade é mérito exclusivo de um elenco carismático (com exceção de um ou outro, como Aaron Taylor-Johnson que, na pele de Mercúrio, entrou mudo e saiu calado). Talvez o melhor de Vingadores: Era de Ultron é ver como a Marvel consolidou de vez seu universo, através de um roteiro de ação amarrado que é capaz de agradar mesmo aqueles que não conhecem muito de HQs. Era de Ultron é um filme que se sustenta sozinho, com um desfecho que, apesar de individual, abre pequenas pontas para futuras tramas, além de introduzir novos personagens e aposentar outros. Perde, todavia, em permanecer na mesma – nos dando a impressão de que nossos heróis já não tem o mesmo pique de antigamente…

Sin City: A Dama Faltal (Sin City: A Dame to Kill For)

E lá se foram quase dez anos desde que Sin City – A Cidade do Pecado chegava às salas de cinema ao redor do mundo. Na época, o longa se tornou uma febre e virou, digamos, uma espécie de clássico instantâneo. Não que seja uma obra imaculada – a bem da verdade, Sin City é um filme como outro qualquer, com algumas peculiaridades, sim (como sua excepcional fotografia em preto e branco e suas inúmeras tramas irresistíveis), mas que não apresentava nada muito grandioso. Enfim, era uma novidade naquele momento – mas nada muito eloquente.

Mas se em 2005 Sin City – A Cidade do Pecado causou certo burburinho entre os cinéfilos, o mesmo não se pode dizer sobre Sin City: A Dama Fatal, segundo filme da série baseada nas HQs do artista Frank Miller (que divide os créditos de direção com Robert Rodriguez) e que chega hoje aos cinemas brasileiros. Não que esta continuação não tenha sido aguardada – principalmente depois dos inúmeros adiamentos, que deixaram os fãs dos quadrinhos de Miller apreensivos. Mas talvez esse hiato entre os dois filmes tenha diminuído um pouco o frisson deste universo – e como consequência inevitável, Sin City: A Dama Fatal vem tendo um desempenho satisfatório, mas levemente inferior ao seu predecessor. Em outras palavras, este Sin City mantém o bom visual e apelo técnico, mas perde aquele impacto causado anteriormente.

03

O cenário ainda é Basin City e segue, basicamente, a linha de Sin City – A Cidade do Pecado: narrativas independentes que se cruzam e se passam nas ruas, becos e vielas de uma cidade dominada pela corrupção, violência e impunidade (e qualquer semelhança com nossa realidade é mera coincidência). Aqui, temos o encontro de velhos conhecidos (como a stripper Nancy, o brutamontes Marv, o detetive Hartigan e o anti-herói Dwight) com novos rostos (como o ambicioso jogador de pôquer Johnny, o empresário Joey e a sensualíssima Ava Lord – a tal dama fatal do título), que se misturam ao longo de três contos, alguns inéditos.

A primeira das três histórias centrais é estrelada por Joseph-Gordon Levitt na pele de Johnny, um jovem que desafia o poderoso senador Roark em uma partida de pôquer com o evidente interesse de humilha-lo – o que coloca sua vida em risco. Na segunda (e melhor) parte, temos Eva Green como a sedutora Ava, uma mulher ambiciosa e que faz uso de todo seu charme (e suas belas curvas) para colocar as mãos na fortuna do marido – recorrendo até mesmo a Dwight, seu antigo e ressentido amor. Com menos força, a última trama apresentada é a de Nancy (protagonista de sensuais danças sobre o balcão de um dos bares mais badalados de Sin City), que, totalmente atormentada, busca se vingar da morte de seu amado Hartigan – que se suicidara no filme anterior.

05

Sin City: A Dama Fatal não apresenta nada novo em relação ao primeiro da série. Se em 2005 tudo era novidade (inclusive o uso constante de tela verde – algo inédito na época e que se tornou moda nos anos seguintes, sendo utilizado até os dias atuais), hoje é certo dizer que este projeto é apenas mais do mesmo e inova pouco – inclusive na criação dos ótimos cenários digitais. Mas isso, por incrível que pareça, já é um mérito: o visual de Sin City: A Dama Fatal é impecável. A fotografia em preto e branco é impressionante e fica ainda melhor quando os diretores apostam em alguns pontos específicos para destacar outras cores (como o “acinturado” casaco azul de Ava, o sangue vermelhíssimo que escorre ou o púrpura vivo de um veículo em movimento). Esse recurso é imprescindível para deixar o filme muito mais apreciável a aproxima-lo a um estilo meio neo-noir, que é acentuado ainda mais pelo tom escuro e as constantes utilizações de sombra e luz. A tórrida cena de sexo entre Ava e Dwight, por exemplo, é de uma plasticidade ímpar – arriscaria dizer uma das mais bem dirigidas sequências de sexo que já assisti. A fotografia é essencial para emular os quadrinhos de Miller.

04

O elenco desta fita também foi muito bem escalado. Mickey Rourke, apesar de não ser um personagem “chave” em nenhuma das histórias, é sempre um alívio quando aparece na tela devido, sobretudo, à sua frieza que o torna, até mesmo, cômico (um perfeito tipo tarantinesco). Joseph empresta todo seu perfil cativante para Johnny – e isso faz com que fiquemos indignados quando Roark o esnoba. Josh Brolin, por sua vez, é infinitamente melhor que Clive Owen no papel de Dwight – um autêntico morador de Sin City. Já Eva Green, claro, é quem brilha verdadeiramente aqui. A escolha de Green foi a mais correta – e chega a ser ultrajante pensar que, em algum momento, a insossa Angelina Jolie foi cotada para o papel de Ava Lord. Eva ofusca qualquer um a cada aparição não apenas pelo belo corpo (aliás, fica a dica: Green está nua em quase 80% do tempo em que aparece), mas principalmente por sua ótima atuação, totalmente segura e natural.

Sin City: A Dama Fatal é equilibrado e, a meu ver, totalmente nivelado ao primeiro filme da franquia – ou seja, tecnicamente bem produzido (fotografia, edição, design, figurino, maquiagem) e visualmente arrebatador. O único “porém” é que, como mencionado, hoje nada do que se vê é uma novidade (com exceção do 3D, mas que também não chega a impressionar). Há, obviamente, de se reconhecer que desde 2005 também pouca coisa realmente do gênero foi feita (ou bem feita, melhor dizendo), mas a verdade é que Sin City: A Dama Fatal é mais daquilo que já tínhamos visto e tanto gostamos de ver – e, por essa razão, se torna um programa indispensável para quem curte cinema e também para os fãs de HQs (afinal, como adaptação, deve-se mencionar que todo o universo dos quadrinhos de Miller foi brilhantemente transportado para as telonas). Em outras palavras, Sin City: A Dama Fatal é apenas mais uma noite escura, fria e solitária nos cantos dessa cidade que tanto amamos: diverte, vale a pena mas, ainda assim, é apenas mais uma noite. Apenas mais uma noite…