Rita (Rita, 2023)

O conflito central de Rita, curta-metragem de Nat Mendes, é a relação da personagem homônima com Suely, colega de profissão com quem divide uma pequena moradia. Desde o início, percebemos que o convívio entre as duas garotas de programa não é muito fácil – e a situação se torna ainda mais complicada quando Rita descobre estar grávida. A partir daí, o roteiro constrói a oposição entre essas duas perspectivas: enquanto Rita, menos experiente, enxerga na maternidade (ainda que indesejada) uma oportunidade de recomeço, de reconstrução de sua própria história, Suely, mais racional, tenta advertir a amiga sobre as implicações de um filho naquelas condições.

Em um período em que a violência contra a mulher cresce assustadoramente no país, Rita aborda temas complexos abandonando o sensacionalismo barato – exceto pela sequência inicial que, particularmente, me soa um tanto desconexa do restante da obra (mas cuja escolha pode ser compreendida pela transição imageticamente interessante que faz com a cena seguinte). Talvez justamente pelo tempo de projeção, esses temas – como a maternidade, exclusão social ou a prostituição – não são explorados como elementos de choque; pelo contrário, é através deles que o roteiro traz à tona a humanidade desses personagens marginalizados, em suas dimensões de afeto e busca por dignidade. São as relações humanas que vemos emergir, sem julgamentos morais – o que, sob certo aspecto, leva o espectador a refletir sobre os preconceitos tão largamente expostos em nossa sociedade e endossados por um sistema que raramente oferece suporte a essas mulheres.

Em última análise, o curta de Nat Mendes não traz respostas óbvias às questões que levanta: não há uma história tradicional com começo, meio e fim, tampouco uma conclusão redentora – limitações impostas pela própria duração da obra. Ainda assim, Rita é um drama com poucas reviravoltas narrativas, mas com conflitos que deslocam a percepção do público dos estereótipos da marginalidade social para uma reflexão sobre a vulnerabilidade dessas figuras, principalmente a feminina.