Rita (Rita, 2023)

O conflito central de Rita, curta-metragem de Nat Mendes, é a relação da personagem homônima com Suely, colega de profissão com quem divide uma pequena moradia. Desde o início, percebemos que o convívio entre as duas garotas de programa não é muito fácil – e a situação se torna ainda mais complicada quando Rita descobre estar grávida. A partir daí, o roteiro constrói a oposição entre essas duas perspectivas: enquanto Rita, menos experiente, enxerga na maternidade (ainda que indesejada) uma oportunidade de recomeço, de reconstrução de sua própria história, Suely, mais racional, tenta advertir a amiga sobre as implicações de um filho naquelas condições.

Em um período em que a violência contra a mulher cresce assustadoramente no país, Rita aborda temas complexos abandonando o sensacionalismo barato – exceto pela sequência inicial que, particularmente, me soa um tanto desconexa do restante da obra (mas cuja escolha pode ser compreendida pela transição imageticamente interessante que faz com a cena seguinte). Talvez justamente pelo tempo de projeção, esses temas – como a maternidade, exclusão social ou a prostituição – não são explorados como elementos de choque; pelo contrário, é através deles que o roteiro traz à tona a humanidade desses personagens marginalizados, em suas dimensões de afeto e busca por dignidade. São as relações humanas que vemos emergir, sem julgamentos morais – o que, sob certo aspecto, leva o espectador a refletir sobre os preconceitos tão largamente expostos em nossa sociedade e endossados por um sistema que raramente oferece suporte a essas mulheres.

Em última análise, o curta de Nat Mendes não traz respostas óbvias às questões que levanta: não há uma história tradicional com começo, meio e fim, tampouco uma conclusão redentora – limitações impostas pela própria duração da obra. Ainda assim, Rita é um drama com poucas reviravoltas narrativas, mas com conflitos que deslocam a percepção do público dos estereótipos da marginalidade social para uma reflexão sobre a vulnerabilidade dessas figuras, principalmente a feminina.

Estou Aqui (I’m Here)

Uma das coisas que mais gosto de fazer é descobrir artistas. Quando vejo o trabalho de um ator ou diretor e esse trabalho me impressiona, lá vou eu correr para pesquisar sua filmografia e confirmar o talento daquele meu novo ídolo. Assim foi com Andrew Garfield, que conheci em O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, de 2010, e por quem caí de amores em Não Me Abandone Jamais, no mesmo ano. No entanto, um dos melhores títulos de sua carreira é o curta Estou Aqui.

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Patrocinado pela marca de marca de vodca Absolut, Estou Aqui é um curta de pouco menos de trinta minutos dirigido por Spike Jonze (de Quero Ser John Malkovich, Onde Vivem os Monstros e o mais recente e elogiado Ela). A história se passa em uma Los Angeles habitada por humanos e robôs e narra a trajetória de Sheldon, um tímido robô bibliotecário, que vive sua existência pacata e praticamente despercebida, cuja rotina metódica inclui apenas o caminho de casa para o trabalho. Em um determinado momento, Sheldon conhece Francesca, um robô com aparência feminina cujo espírito de liberdade acaba fascinando o bibliotecário. Aos poucos, a amizade entre os dois se transforma em amor – amor capaz dos maiores sacrifícios para fazer o outro feliz.

Uma das características dos trabalhos de Spike é contar algo de nosso universo dentro de um universo “à parte”. Para o cineasta, nossa sociedade é vazia – e é isso que ele recria em sua Los Angeles surreal. O próprio apartamento do protagonista reflete esse vazio: é opaco, sem decoração, quase sem cores ou nada que estimule maior interesse. Assim também é o convívio entre robôs e humanos, este último grupo que pouco aparece na história e, apesar das críticas que fazem aos seres robóticos, aparentemente convive pacificamente com Sheldon e os demais de sua espécie. Estou Aqui recria, com uma história simplória e até mesmo “boba”, uma metáfora sobre a solidão do homem dentro de uma sociedade cada vez mais individualista – onde não há mais espaços para sentimentos, ofuscados pela correria cotidiana e avanços tecnológicos, por exemplo.

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Estou Aqui possui uma bela fotografia que oscila entre a claridade do sol nos momentos mais alegres e românticos de Sheldon e seu par, e uma paleta mais acinzentada nas cenas mais solitárias, acentuando o vazio do protagonista. A delicada trilha sonora ajuda a tornar o filme ainda mais melancólico, assim como as atuações de Garfield – que mesmo caracterizado como um robô, consegue transmitir todo sentimento da personagem em seu retraído (mas exato) tom de voz. Muito bem recebido por onde passou, Estou Aqui é um projeto que funcionou devido sua estética cinematográfica latente e o primor com o qual foi concebido. Com Estou Aqui, Spike consegue recriar uma fábula sobre o amor – e, principalmente, o mais puro significado de “se doar por inteiro”.