Love (Love)

Em uma cena de Love, o estudante de cinema Murphy disserta sobre suas ambições na carreira: fã de Stanley Kubrick (ao ponto de ficar abismado ao descobrir que sua paquera nunca assistiu 2001 – Uma Odisséia no Espaço), ele argumenta que o cinema “tradicional” é estranhamente dividido em dois gêneros. De um lado, os “romances” convencionais, filmes de amor sem sexo; do outro, o pornô, filmes de sexo sem amor. Sua maior aspiração como cineasta é, portanto, criar um filme de “amor e sexo” – uma clara mensagem do que é o novo trabalho de Gaspar Noé.

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Sim, porque Love é justamente isso: uma obra que se vendeu com a “promessa” das sequências de sexo explícito em 3D, mas que, em seu contexto geral, não é simplesmente isso. E o título não engana: amor. O amor que Murphy só reconhece quando recebe uma ligação da mãe de sua ex-namorada, Electra, dizendo que está sem notícias da filha há meses. Desconfiado que a garota possa ter cometido suicídio, Murphy resgata seu passado com Electra – e entre as lembranças carregadas de remorsos, devaneios e frustrações, vamos conhecendo de forma não-linear a vida (sobretudo sexual) do casal.

Apesar de o sexo poder ser encarado na história quase como um novo personagem – ora traduz a idealização do amor ou sua concretização, ora visto de forma animalesca, apenas pelo prazer do ato – , ele não é a “causa” de tudo o que se acompanha na tela. O relacionamento dos protagonistas vai ladeira abaixo por conta dos ciúmes da mulher e das atitudes descontroladas do homem. Em suma, Love é muito mais um filme sobre “discutir a relação” do que “sexo por sexo”, revelando um tom ligeiramente conservador, moralista.

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Há ainda um problema: a extensa duração da fita. Narrado quase completamente em flashbacks, Gaspar Noé parece querer tornar sua obra maior do que é. Resultado: é difícil segurar o espectador na poltrona ao longo de mais de duas horas de projeção – ainda mais quando o elenco, cá entre nós, não colabora. O que vale a pena, então? A boa experiência em 3D que, sob certo aspecto, denota bem o isolamento de Murphy ou a eficiente trilha sonora, especialmente nas sequências de sexo.  No geral, faltou um pouco da ousadia prometida – afinal, se o sexo em si ainda é um tabu, não vamos tratá-lo como tal, certo? Love é até razoável – mas é o tipo de filme cuja propaganda é mais interessante do que o produto em si.

De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut)

Quando lançado, em 1999, De Olhos Bem Fechados, a obra derradeira de Stanley Kubrick, dividiu opiniões. Houve quem o considerasse uma obra-prima, tamanho o esmero que Kubrick dispensou à produção; houve quem o achasse o maior fiasco da carreira do diretor. De fato, De Olhos Bem Fechados foi um fracasso de bilheteria e levantou debates intermináveis sobre a contribuição deste longa dentro da filmografia do cineasta. Bem, deixemos claro desde o início: De Olhos Bem Fechados não é ruim. Na verdade, seria um ótimo filme para qualquer idealizador – mas não para Stanley Kubrick.

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Concebido ao longo de mais de três anos, De Olhos Bem Fechados está muito longe de se igualar a outros filmes de Kubrick – o que torna praticamente impossível a tarefa de compreendê-lo sem assisti-lo mais de uma vez. A história gira em torno da dupla Bill e Alice (respectivamente, o casal da vez na época, Tom Cruise e Nicole Kidman); ele um médico respeitado, ela uma curadora de arte, que vivem uma relação aparentemente fora de qualquer suspeita. Uma noite após voltarem de uma festa, Alice revela ao esposo que já sentiu atraída por outro homem no passado e cogitou a hipótese de abandonar a família por este homem. Atordoado pela confissão da esposa, Bill sai pelas ruas de Nova York, esbarrando em uma festa dentro de uma mansão misteriosa.

O maior problema de De Olhos Bem Fechados é o ritmo lento que Kubrick confere à sua narrativa. Ao longo de mais de duas horas e meia, é impossível não se revirar na poltrona de minuto em minuto. O filme simplesmente parece não rodar. Obviamente, isso possa ser proposital, como se para um melhor desenvolvimento da trama ou a construção da personalidade de cada um de seus personagens – mas é fato que a história se mostra entediante em diversos momentos. Por sua vez, a dupla de protagonistas não colabora: Kidman (que é muito melhor que seu ex-marido, diga-se de passagem) está muito abaixo das expectativas, chegando a irritar em algumas cenas (como quando está bêbada, por exemplo); já Cruise dá um tom nada interessante a um personagem cheio de ideias vazias e sem fundamentos.

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O trabalho de arte do é louvável – assim, como a trilha sonora, que é atordoante e fica na cabeça do espectador mesmo quando não executada. No entanto, De Olhos Bem Fechados tem um ar “incompleto”, “inacabado”. O filme se perde ainda em diversos momentos: ora tende ao suspense, ora ao psicológico, ora apela para o sexual – mas em nenhum se sai tão bem. Em sua segunda metade, para completar, o foco principal passa a ser o personagem de Cruise – e envolve mortes, assassinatos e perseguições que deixam não chega a empolgar o público. De Olhos Bem Fechados, como obra de um diretor do calibre de Kubrick, é muito aquém dos seus demais trabalhos. É um filme que tenta desvendar (bem superficialmente) os conceitos da monogamia e as diferenças entre “sonhar” e “fazer”, nos permitindo algumas indagações: o simples fato de a esposa um dia pensar em abandona-lo justifica as ações de Bill ou é excessiva demais? De todas as formas, De Olhos Bem Fechados não deixa de ser necessário – principalmente aos que são fãs de Kubrick, um cineasta tão complexo quanto sua obra.