Drama com Nicole Kidman, “Terra Estranha” Estreia Sem Muitas Respostas

A família Parker acaba de se mudar para o deserto australiano de Nathgari. Eles não aparentam estar muito felizes com a nova casa, mas a princípio o espectador não enxerga ali nada fora do comum: um pai autoritário, uma mãe condescendente, a adolescente rebelde que implica com o irmão menor – enfim, a estrutura familiar “típica” de tantas outras histórias que vemos por aí. Aos poucos, no entanto, percebemos que algo estranho acontece entre eles – sensação que se potencializa quando os filhos do casal desaparecem subitamente e sem deixar rastros.

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Terra Estranha é a estreia de Kim Farrant na direção de um longa-metragem. Amparada pela boa fotografia de P.J. Dillon (responsável pela captação de ótimas panorâmicas) e a trilha perturbadora de Keefus Ciancia, Terra Estranha não chega, entretanto, a empolgar e despertar atenção. O argumento tenta escapar da tradicional narrativa que acompanha um desaparecimento, porém muito da trama é comprometido pelo fato de o roteiro não nos fornece respostas, mas insinuações acerca das personagens. Inúmeras pontas soltas surgem fazendo com que a história visivelmente perca seu fôlego e nem mesmo os protagonistas vividos por Nicole Kidman e Joseph Fiennes parecem ter qualquer sintonia. Para completar, o filme recorre a vários clichês para provocar um suspense que não convence (um objeto da pessoa desaparecida que é encontrado, uma ligação silenciosa, uma mão que bate no vidro do carro inesperadamente, etc.). Em uma única cena de maior comoção, vê-se a silhueta de Kidman na penumbra da noite, em meio ao deserto, ecoando aquele grito que só uma pessoa em desespero é capaz de ouvir. A mãe está em busca de uma solução – e é realmente frustrante ver que Terra Estranha se encerra sem fornecê-la.

… E Grace Kelly Mereceria Muito Mais do que o Infame “Grace de Mônaco”

Não há dúvidas de que Grace Kelly é uma das figuras mais celebradas do cinema em todos os tempos – o tipo perfeito cercado de inúmeras histórias e lendas. Faltava, no entanto, uma cinebiografia que fizesse jus a tudo aquilo que Grace realmente foi ao longo de sua curta existência (afinal, a bela faleceu precocemente aos 52 anos, em um trágico acidente automobilístico). Coube ao francês Olivier Dahan (do ótimo Piaf – Um Hino ao Amor) a árdua missão de transportar para as telas de cinema a biografia deste ícone mundial – e assim surge Grace de Mônaco, filme de abertura do 67º Festival de Cannes e que arrebatou as mais duras críticas da imprensa.

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Diferente de Piaf – Um Hino ao Amor, cuja protagonista era acompanhada da infância até sua morte, Grace de Mônaco concentra sua narrativa nos primeiros anos do casamento de Grace e o príncipe Rainier III (união considerada por muitos um “conto de fadas”), quando a artista abandonou sua próspera carreira de atriz para dedicar-se à realeza de Mônaco. Desiludida com o casório (em especial, com o distanciamento do esposo e o formalismo de seu novo mundo), a princesa aceita o convite do amigo e cineasta Alfred Hitchcock para estrelar seu novo projeto (Marnie – Confissão de uma Ladra, que mais tarde seria protagonizado por Tippi Hedren) – o que marcaria seu retorno triunfal a Hollywood, mesmo contra a vontade de Rainier. No entanto, Mônaco passa pela iminência de uma guerra e Grace fica dividida entre retomar sua carreira e lutar ao lado do esposo pelo Principado.

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Apesar do bom material disponível, o maior problema de Grace de Mônaco está em seu argumento, desenvolvido por Arash Amel, que se mostra medíocre ao longo de toda sua projeção. A ambição de Grace de Mônaco, ao que parece, desde o início é parecer “grandioso”, “épico”, recorrendo a frases de efeitos, mas que não criam nada alem de diálogos rasos e superficiais que poderiam ter sido tirados de qualquer livro de autoajuda. Ainda que Arash tente proporcionar alguns momentos mais inspiradores (o que poderia levar o espectador a um debate um tanto quanto “filosófico”, digamos), a maneira exagerada como o texto se coloca na narrativa torna o filme “piegas” e os discursos que poderiam ser emocionantes e causar impacto acabam mais fazendo o público ficar incomodado na poltrona. O tom mediano nos dá ainda a sensação de que não se trata necessariamente de um filme “sério”, pois há quase um certo apelo televisivo – a prova irrefutável é a de que na exibição do longa em Cannes, jornalistas e demais especialistas chegaram a rir em diversas sequências, conforme foi noticiado por alguns veículos.

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Alem das evidentes falhas na narrativa, o elenco não demonstrou o menor interesse pelo projeto. Se em Piaf – Um Hino ao Amor, Marion Cotillard foi, no mínimo, unânime, Nicole Kidman só consegue, no máximo, emprestar certa classe e sofisticação à sua personagem. Sua atuação é caricata, teatral e forçada, tornando sua personagem uma mulher insegura e dependente (em contrapartida da personalidade implacável de nossa Grace Kelly). É quase cômica (não fosse ruim) a cena em que Grace tem aulas de francês, com o péssimo sotaque de Kidman que, com tanto botox aplicado, está quase inexpressiva. Tim Roth também está quase no automático – aliás, não, Tim está muito abaixo de sua capacidade, pois até mesmo o modo “automático” do ator seria aceitável. Se o casal de protagonistas não impressiona, o restante do elenco não tem muito que fazer – e o único bom retrato dentro de um filme repleto de tipos insuportáveis é o do veterano Frank Langella, no papel do padre Tucker, confindente de Grace (e que demonstra ótima química com Kidman). De resto, tudo parece tão artificial que soa satírico – o que, obviamente, não era a proposta.

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Detonado pela crítica, Grace de Mônaco funcionou muito melhor fora do cinema: antes mesmo do filme ser lançado, a família de Grace Kelly já havia se manifestado, acusando a fita de ser “baseada em referências históricas erradas e dúbias”, conforme nota oficial. Apesar de até ser pontual tecnicamente falando (há uma boa fotografia, figurino e design de produção, em contrapartida da péssima e lastimosa trilha sonora), Grace de Mônaco peca na estrutura de seu roteiro – um grave erro que se sobrepõe a todo restante da obra. Mas não apenas isso: Olivier Dahan falha ao tentar retratar um nome tão importante com tamanha superficialidade, explorando pouco da vida de Grace e tendo como cenário o conturbado conflito diplomático entre Mônaco e a França. Dessa forma, falta credibilidade, falta respeito e, principalmente, falta amor. Grace Kelly, nossa eterna e queridíssima Grace Kelly, merecia algo infinitamente melhor.

De Olhos Bem Fechados

Quando lançado, em 1999, De Olhos Bem Fechados, a obra derradeira de Stanley Kubrick, dividiu opiniões. Houve quem considerasse o filme uma obra-prima, tamanho o esmero que Kubrick dispensou à produção; houve quem achasse o filme o grande fiasco da carreira do diretor. De fato, De Olhos Bem Fechados foi um fracasso de bilheteria e levantou debates intermináveis sobre a contribuição deste longa dentro da filmografia do cineasta.

Bem, deixemos claro desde o início: De Olhos Bem Fechados não é um filme ruim. Na verdade, seria um ótimo filme para qualquer cineasta – não para Stanley Kubrick. É praticamente uma unanimidade dizer que o filme é o mais fraco de Kubrick – o que é totalmente aceitável se analisarmos as demais obras do diretor (carinhosamente chamado por alguns de “deus”). Logo, é difícil analisar o filme sem se recordar a todo o momento de seu diretor e toda sua filmografia.

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Concebido ao longo de mais de três anos, De Olhos Bem Fechados está muito longe de se igualar a outros filmes de Kubrick – o que torna praticamente impossível a tarefa de compreendê-lo sem assisti-lo mais de uma vez. A história gira em torno do casal Bill e Alice (respectivamente, o casal da vez na época, Tom Cruise e Nicole Kidman); ele um médico respeitado, ela uma curadora de arte, que vivem uma relação aparentemente fora de qualquer suspeita. Uma noite após voltarem de uma festa, Alice revela ao esposo que já sentiu atraída por outro homem no passado e cogitou a hipótese de abandonar a família por este homem. Atordoado pela confissão da esposa, Bill sai pelas ruas de Nova York e acaba em uma festa dentro de uma mansão misteriosa, onde os participantes promovem orgias entre si.

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O maior problema no filme é o ritmo lento que Kubrick confere à sua narrativa. Ao longo de mais de duas horas e meia, é impossível não se revirar na poltrona de minuto em minuto. O filme simplesmente parece não rodar. Obviamente, esta talvez tenha sido uma estratégia de Kubrick para acentuar as personalidades de suas personagens – mas os personagens são tão pouco palpáveis que o filme se torna massante em diversos momentos. Isso talvez seja reflexo das atuações de seus protagonistas: Kidman (que é muito melhor que seu ex-marido) está muito abaixo das expectativas, chegando a irritar na cena em que está bêbada; Cruise, por quem não se pode esperar muita coisa, dá tom a um personagem cheio de ideias vazias e sem fundamentos.

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O trabalho de arte do filme é louvável – assim, como a trilha sonora, que é atordoante e fica na cabeça do espectador mesmo quando não executada. No entanto, o filme tem um ar “incompleto”, “inacabado”. O filme se perde ainda em diversos momentos: ora tende ao suspense, ora ao psicológico, ora sexual. No entanto, em nenhuma dessas vertentes o filme parece trilhar com os próprios pés. No contexto sexual, por exemplo, não há cenas de sexo que justifiquem a história (há cenas em O Iluminado, por exemplo, que são mais eloquentes do que aqui) – mesmo as orgias promovidas no grande salão, os famosos 65 segundos de sexo simulado que foram digitalmente reformulados para evitar uma classificação maior. Na segunda parte do filme, para completar, o foco principal fica no personagem de Cruise – e envolve mortes, assassinatos e perseguições que deixam o espectador com ar de inquietude.

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De Olhos Bem Fechados, como obra de um diretor do calibre de Kubrick, consegue ser um filme muito aquém dos demais trabalhos do cineasta. É um filme que tenta desvendar (bem superficialmente) os conceitos da monogamia e s diferenças entre “sonhar” e “fazer”. É um filme que nos permite diversas indagações: o simples fato de a esposa um dia pensar em abandona-lo justifica as ações de Bill ou é excessiva demais? Não seria este um tom meio “machista” que Kubrick, que foi casado durante anos com a mesma mulher, resolveu conceder à trama? De todas as formas, De Olhos Bem Fechados é um filme que merece ser conferido pois permite diversos questionamentos – inclusive se o filme é capaz ou não de agradar.

“Obsessão”: Tudo Errado Desde o Título…

Baseado no livro homônimo de Pete Dexter, Obsessão chega aos cinemas brasileiros no próximo mês – quase um ano após sua estréia mundial, em novembro de 2012. A história acompanha o jovem Jack James (filho W.W. James, editor do jornal Moat County Tribune), um jovem desnorteado que ajuda o irmão jornalista (e homossexual) em uma investigação sobre a possível condenação injusta de um homem que está aguardando sua sentença de morte. Durante a investigação, Jack se apaixona por Charlotte Bless, uma prostituta que troca correspondências amorosas com o condenado.

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Bom, fui bem assim, direto, porque não há muito a se falar sobre o filme. Com um orçamento modesto (a produção não custou nem U$ 13 milhões), Obsessão aposta na força de um elenco de estrelas. Zac Efron é o jovem Jack – e cada dia se distancia mais do garoto saltitante de High School Musical. Não imaginava que poderia dizer isso há cinco anos atrás, mas o fato é que é confortante ver o quanto o ator cresceu e como sua atuação ganhou peso. Matthey McConaughey interpreta muito bem Ward James, irmão de Jack, que esconde sua homossexualidade da família e tem uma estranha obsessão por provar a inocência de Hillary Van Wetter – nosso bom amigo John Cusack que, este sim, em um papel pequeno, consegue chamar a atenção a cada aparição. Na pele de um psicótico condenado, fica-se sempre a dúvida se Hillary é ou não o culpado pelo crime. Fechando o elenco, ainda temos Nicole Kidman que, após tantas plásticas e aplicações de toxina botulínica (vulgo botox), não consegue mais ter a mesma beleza do início de carreira. Okay, irão me criticar e é até compreensível, afinal Nicole é bela, mas nada comparado a Nicole dos primeiros anos. Além disso, há muito tempo não vemos Nicole em um grande papel e sua Charlotte é um belo exemplo. A personagem em si já não é lá essas coisas, não tem um motivo para nada e ainda por cima é… forçada. Definitivamente, não é das melhores atuações da atriz – que é e pode muito mais do que isso.

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Apesar do saldo positivo do elenco, o resultado final não é muito feliz. Obsessão não é um excelente filme, como pode parecer à primeira vista. Lee Daniels (do ótimo Preciosa – Uma História de Esperança) faz um belo trabalho na direção do elenco, mas fica faltando alguma coisa no restante. Talvez tenha sido o roteiro arrastado, escrito pelo próprio Pete, que faz com que o longa se torne massante. Tão pouco há momentos memoráveis – a não ser que você ache memorável ver Zac Efron de cueca em praticamente todas as cenas, nunca se sabe. Ah, e aquele papo de “mimimi fiquei sem graça quando minha mãe assistiu as minhas cenas de sexo com a Nicole e bla bla bla…” do Zac foi apenas pra levar as encalhadas ao cinema, ansiosas por uma tórrida cena de sexo do garotão que não aconteceu – ou pelo menos, se aconteceu, eu estava dormindo. A única cena onde há algum tipo de contato físico entre os dois é tão fraca quanto um episódio de Malhação.

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Obsessão ainda utiliza-se de um recurso que o ajudou a ficar ainda mais “vergonha alheia”: a narração, que faz tanta esforço para explicar a investigação que chega a ser quase didática em certos momentos e faz com que nos sintamos burros. Mesmo assim, Obsessão se torna confuso e sem o menor foco: ora em um personagem, ora em outra narrativa, ora em outra abordagem. É tanto tiro lançado que, no final, nada é atingido. Só o título já deixa margens do que está por vir: lançado em português como Obsessão, o título original do longa é The Paperboy, que, se traduzido corretamente, faria muito mais sentido. Os únicos pontos fortes do filme, além da atuação do elenco e da direção de Lee, ficam por conta da trilha sonora e da questão social abordada: preconceito. A trama se passa em um período turbulento da história norte-americana, onde qualquer minoria era tratada com indiferença. Os diálogos recheado de ódio proferidos aos personagens negros ou mesmo a cena em que Ward é espancado por um grupo dentro de seu quarto de hotel é uma das poucas experiências cinematográficas boas a serem tiradas de um filme cuja única obsessão é ser grande. Pena que não consegue…