Alphaville

É difícil imaginar um filme de ficção científica sem efeitos especiais soberbos, trilha sonora atordoante ou cenários exuberantes e excêntricos – mas é justamente isso que Godard, o cabeça da nouvelle vague francesa, consegue fazer em Alphaville, obra de 1965. Abandonando os aspectos técnicos mais clichês deste gênero, o cineasta sabiamente recorre às locações de sua velha conhecida Paris, criando em tela a visão futurística de um sistema totalitário e que fica acentuada pela ótima fotografia em preto-e-branco de seu parceiro Raoul Coutard – valorizando a frieza de prédios comerciais, cômodos de hotel e as luzes de neón que enfeitam a cidade.

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Rodado em um futuro não especificado e com sequências que poderiam ser consideradas atemporais, a trama se passa em Alphaville, uma cidade (ou um planeta) governada por um computador que tornou crime capital toda e qualquer emoção verdadeira. Esta ditadura é responsável ainda pelas execuções em massa, realizadas de forma quase ritualística à beira de uma instigante piscina – onde as vítimas são lá jogadas à mercê da própria sorte. Se passando por um repórter, o agente secreto Lemmy Caution tem a missão de encontrar o desaparecido cientista Von Braun e persuadi-lo a voltar aos “planetas exteriores” – mas neste meio tempo, Caution tenta destruir a super máquina (inserindo-lhe poesia, veja você…), enquanto seduz e desperta sentimentos adormecidos na frágil Natacha, a filha de Von Braun.

02Inicialmente, Alphaville seria uma espécie de sátira ou paródia à ficção científica da época – porém, é interessante notar como o filme de Godard é uma genuína produção do gênero, capaz inclusive de influenciar obras posteriores (como Fahrenheit 451, de Truffaut, ou o amplamente repercutido 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Kubrick). No entanto, Alphaville se estende ao longo de pouco mais de uma hora e meia de duração, como se a trama estivesse esgotada e nada mais nos restasse a não ser os arrastados diálogos – marca registrada da filmografia do diretor. O casal de protagonistas também não é dos mais carismáticos: Eddie Constantine é quase apático, enquanto Anna Karina perde muito de seu brilho natural na pele de Natacha Von Braun. Alphaville tem seus méritos quanto cinema devido, sobretudo, às sábias escolhas de Godard, mas está longe de ser algo memorável para o espectador comum. Em outras palavras, se há quem diga que a obra de Godard é chata, é fato que Alphaville se encontra nesta lista. Alphaville é indispensável para se conhecer o ótimo currículo de seu idealizador, mas nos dias de hoje é incapaz de enternecer o grande público.

De Olhos Bem Fechados

Quando lançado, em 1999, De Olhos Bem Fechados, a obra derradeira de Stanley Kubrick, dividiu opiniões. Houve quem considerasse o filme uma obra-prima, tamanho o esmero que Kubrick dispensou à produção; houve quem achasse o filme o grande fiasco da carreira do diretor. De fato, De Olhos Bem Fechados foi um fracasso de bilheteria e levantou debates intermináveis sobre a contribuição deste longa dentro da filmografia do cineasta.

Bem, deixemos claro desde o início: De Olhos Bem Fechados não é um filme ruim. Na verdade, seria um ótimo filme para qualquer cineasta – não para Stanley Kubrick. É praticamente uma unanimidade dizer que o filme é o mais fraco de Kubrick – o que é totalmente aceitável se analisarmos as demais obras do diretor (carinhosamente chamado por alguns de “deus”). Logo, é difícil analisar o filme sem se recordar a todo o momento de seu diretor e toda sua filmografia.

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Concebido ao longo de mais de três anos, De Olhos Bem Fechados está muito longe de se igualar a outros filmes de Kubrick – o que torna praticamente impossível a tarefa de compreendê-lo sem assisti-lo mais de uma vez. A história gira em torno do casal Bill e Alice (respectivamente, o casal da vez na época, Tom Cruise e Nicole Kidman); ele um médico respeitado, ela uma curadora de arte, que vivem uma relação aparentemente fora de qualquer suspeita. Uma noite após voltarem de uma festa, Alice revela ao esposo que já sentiu atraída por outro homem no passado e cogitou a hipótese de abandonar a família por este homem. Atordoado pela confissão da esposa, Bill sai pelas ruas de Nova York e acaba em uma festa dentro de uma mansão misteriosa, onde os participantes promovem orgias entre si.

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O maior problema no filme é o ritmo lento que Kubrick confere à sua narrativa. Ao longo de mais de duas horas e meia, é impossível não se revirar na poltrona de minuto em minuto. O filme simplesmente parece não rodar. Obviamente, esta talvez tenha sido uma estratégia de Kubrick para acentuar as personalidades de suas personagens – mas os personagens são tão pouco palpáveis que o filme se torna massante em diversos momentos. Isso talvez seja reflexo das atuações de seus protagonistas: Kidman (que é muito melhor que seu ex-marido) está muito abaixo das expectativas, chegando a irritar na cena em que está bêbada; Cruise, por quem não se pode esperar muita coisa, dá tom a um personagem cheio de ideias vazias e sem fundamentos.

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O trabalho de arte do filme é louvável – assim, como a trilha sonora, que é atordoante e fica na cabeça do espectador mesmo quando não executada. No entanto, o filme tem um ar “incompleto”, “inacabado”. O filme se perde ainda em diversos momentos: ora tende ao suspense, ora ao psicológico, ora sexual. No entanto, em nenhuma dessas vertentes o filme parece trilhar com os próprios pés. No contexto sexual, por exemplo, não há cenas de sexo que justifiquem a história (há cenas em O Iluminado, por exemplo, que são mais eloquentes do que aqui) – mesmo as orgias promovidas no grande salão, os famosos 65 segundos de sexo simulado que foram digitalmente reformulados para evitar uma classificação maior. Na segunda parte do filme, para completar, o foco principal fica no personagem de Cruise – e envolve mortes, assassinatos e perseguições que deixam o espectador com ar de inquietude.

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De Olhos Bem Fechados, como obra de um diretor do calibre de Kubrick, consegue ser um filme muito aquém dos demais trabalhos do cineasta. É um filme que tenta desvendar (bem superficialmente) os conceitos da monogamia e s diferenças entre “sonhar” e “fazer”. É um filme que nos permite diversas indagações: o simples fato de a esposa um dia pensar em abandona-lo justifica as ações de Bill ou é excessiva demais? Não seria este um tom meio “machista” que Kubrick, que foi casado durante anos com a mesma mulher, resolveu conceder à trama? De todas as formas, De Olhos Bem Fechados é um filme que merece ser conferido pois permite diversos questionamentos – inclusive se o filme é capaz ou não de agradar.