A Jovem de Branco (The Girl in White, 1952)

A jovem de branco é um título relativamente discreto dentro da filmografia de John Sturges – e também um filme bastante distante dos westerns e thrillers de ação pelos quais se tornaria famoso anos mais tarde. Ainda assim, este drama biográfico de 1952 revela-se competente ao acompanhar a trajetória de Emily Dunning, uma das pioneiras entre as mulheres na medicina dos Estados Unidos.

Vivida por June Allyson (em sua segunda parceria com o diretor, mostrando versatilidade para além das comédias musicais que protagonizara até então), Emily, ainda jovem, presencia uma cena que a marcaria profundamente: sua mãe, grávida, passa mal e é socorrida pela dra. Marie Yeomans que, ao realizar uma cesariana, salva a vida da mãe e do bebê. A partir daí, Emily passa a enxergar a medicina como vocação, encontrando na médica uma de suas principais inspirações e apoio.

Todavia, a trama se passa no início do século XX – portanto, estamos falando de um período em que mulheres exercendo a medicina eram raras. A resistência dos homens, que dominavam a profissão, era forte – e, com Emily, não é diferente: desde o início, a protagonista encontra um ambiente hostil, onde todos à sua volta põem à prova sua competência, deixando explícito que a medicina, para eles, não é uma carreira apropriada para mulheres. Emily, contudo, é extremamente dedicada e acaba se destacando academicamente, o que não torna seu caminho mais fácil: nenhum hospital quer aceitá-la como interna simplesmente porque ela é mulher. É sua mentora, Yeomans, quem se mobiliza para lhe conseguir uma vaga no Gouverneur Hospital, o que faz de sua nomeação um acontecimento de grande repercussão.

A jovem de branco, para os padrões da Hollywood clássica, é uma biografia convencional; quando posta ao lado das cinebiografias atuais – que comumente priorizam o trabalho individual do ator visando premiações –, ela pode parecer ainda menos significativa. E, de fato, sob certo aspecto esta produção é consideravelmente genérica. E é aí talvez que reside seu charme: o roteiro não parece interessado em transformar a trajetória de Emily em um espetáculo de superação, mas em narrar, com relativa simplicidade, os obstáculos que ela precisou enfrentar para conquistar um espaço que lhe era sistematicamente negado. Não temos aqui a construção de uma heroína extraordinária; pelo contrário, o filme mostra justamente como a competência profissional, quando aliada à persistência cotidiana, pode ser suficiente para desafiar uma estrutura arraigada no preconceito e resistente à mudança. Neste aspecto, A jovem de branco funciona justamente por não ser panfletário, muito menos óbvio em seu propósito.

Não que leituras mais tradicionais não possam ser extraídas daí; tampouco é possível afirmar que o cineasta tenha sido completamente alheio à dimensão progressista de sua história (inspirada na autobiografia Bowery to Bellevue, publicada em 1950) – afinal, o próprio percurso de Emily já carrega um discurso sobre emancipação feminina e igualdade profissional em uma época em que isso era fortemente combatido. Mas, no filme de Sturges, essas questões surgem mais nas situações vividas por Emily do que em declarações de princípios explícitas. Quando aqueles que inicialmente duvidavam de sua capacidade gradualmente se veem obrigados a reconhecer seus méritos, isso não ocorre porque a resistência à presença feminina na medicina tenha desaparecido, mas porque Emily demonstra, na prática, que não há razões para excluí-la.

É na ação – e menos no discurso – que vemos a maior qualidade de A jovem de branco, um filme que é nitidamente coerente com o trajeto de sua protagonista: não precisa ser algo excepcional, nem fazer muito barulho para transmitir sua mensagem, demonstrando que certos lugares, antes considerados inacessíveis, podem ser ocupados por aqueles que foram historicamente impedidos de ali estar.