O Dono do Jogo (Pawn Sacrifice)

É comum ouvirmos por aí que a genialidade sempre vem carregada de uma dose de loucura. E, de fato, essa afirmação não é totalmente inválida – seja para o bem ou para o mal. E é essa ideia que podemos acompanhar em O Dono do Jogo, novo filme de Edward Zwick (de Lendas da Paixão e Diamante de Sangue) estrelado por Tobey Maguire. Na trama, baseada em acontecimentos reais e ambientada na década de 70 em plena Guerra Fria, conhecemos o jovem fenômeno Bobby Fischer, um enxadrista norte-americano que tenta levar seu país a conquistar o seu primeiro título no Campeonato Mundial, desafiando o então vencedor, o russo Boris Spassky.

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O Dono do Jogo é previsível do início ao fim. Talvez por se tratar de uma biografia, sabemos exatamente o que esperamos de sua narrativa e é justamente isso que o seu diretor nos entrega – com bastante sobriedade, sem grandes surpresas ao longo de sua projeção. Seu desenvolvimento é feito sem pressas e a condução é significativamente equilibrada. Todavia, isso não diminui esta produção. Pelo contrário: com isso, conseguimos construir (ou melhor, desconstruir) nosso protagonista: conforme o argumento se intensifica, os distúrbios psicológicos de Fischer se agravam. Seus ataques de insanidade se tornam frequentes à medida que sua lucidez se esvaece e o cineasta já consegue prender a atenção do espectador nos instantes iniciais do filme. Ainda que Tobey não tenha um desempenho tão satisfatório (é visível que o ator está desconfortável em algumas sequências), a tensão criada na história ganha traços de um thriller – mesmo com as escolhas “fáceis” ao qual seu diretor recorre.

O longa cresce ainda mais a partir de sua segunda parte, onde a disputa entre Fischer e Spassky fica cada vez mais acirrada. Porém, esta disputa entre eles é meramente simbólica – a batalha aqui é patriota: EUA e União Soviética conflitavam entre si para conquistar a hegemonia política, econômica e militar no mundo. O xadrez apenas disfarçou aquilo que todos já sabiam. Assim, O Dono do Jogo vai muito além de um thriller psicológico, indo muito mais a fundo e se tornando um filme que, definitivamente, merece ser conferido.

A Mão Que Balança o Berço (The Hand That Rocks The Cradle)

Rebecca De Mornay não faria nada tão expressivo em sua carreira após o sucesso de A Mão Que Balança o Berço, um thriller de Curtis Hanson (de Los Angeles – Cidade Proibida) que foi amplamente elogiado pelo público e crítica na época de seu lançamento. Na trama, Rebecca dá vida a Peyton Flanders, uma babá que passa a atormentar a vida de uma família para vingar a morte de seu esposo.

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Com um roteiro simples mas conciso, que vai nos dando pistas sobre os atos de Peyton mas sem se perder no meio-campo tentando explicar suas motivações, Hanson é competente ao transpor o argumento para a tela sem grandezas ou inventices. Do ponto de vista técnico, inclusive, A Mão que Balança o Berço é um filme que não chega a ser brilhante – na verdade, é bem mediano em diversos momentos. Porém é nítido o talento do cineasta para as sequências de suspense, que cresce à medida que a fita se desenrola e quase chega a alcançar o terror psicológico – não em nível tão requintado, é verdade, mas o suficiente para proporcionar um ótimo entretenimento.

Rebecca faz uma atuação coerente e bem articulada, sendo a escolha perfeita para o papel. Seu talento é imprescindível para a construção de Peyton, que ora é pura inocência, ora é pura maldade – o anjo e o demônio na mesma pessoa. As nuances de Peyton são bem delineadas por De Mornay, que recebeu bastante atenção na época. Soma-se ao elenco Annabella Sciorra, a dona de casa tranquila, porém frágil, alheia a todos atos da babá – a mocinha ideal, que ainda tem crises de asma, aumentando sua fraqueza diante das telas; e também uma Julianne Moore em início de carreira, com um tipo extravagante e esperto que chega a ter seu devido ponto alto na narrativa.

Apesar de a história não apresentar nada significativamente novo, A Mão que Balança o Berço nos traz personagens que são verossímeis – e isso é importante para que o público se identifique com o núcleo central. Trata-se de um filme bem feito e redondo, com um roteiro bem construído que pode até não marcar a vida do espectador, mas é suficiente para prender sua atenção durante a projeção.