“Gutland”: Muita Expectativa, Pouco Resultado

O alemão Jens Fauser é um misterioso forasteiro que acaba de chegar a uma pequena aldeia em Luxemburgo, onde tenta recomeçar sua vida (e se esconder das autoridades) após participar de um assalto. Embora haja uma resistência inicial dos moradores, Jens consegue um emprego na colheita local, onde conhece Lucy, a filha do prefeito da cidade. À medida que aprofunda sua relação com a garota e se integra à comunidade, Jens descobre que não é o único com um passado tenebroso a esconder.

Dirigido por Govinda Van Maele e representante oficial de Luxemburgo ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Gutland  é uma obra de suspense cujo suspense não chega necessariamente a ser seu grande triunfo. Na verdade, o roteiro do cineasta, em parceria com Razvan Radulescu, busca evocar um clima de mistério mas, apesar da boa tentativa (favorecida pela fotografia campestre, bucólica, idílica, que capta os costumes daquela região tanto nos planos gerais externos quanto nas tomadas internas) não consegue, de fato, chegar a um resultado conclusivo. Tudo é muito vago – e não sabemos dizer se é devido à falta de desenvolvimento do argumento ou simples intenção do diretor em apresentar uma proposta que estimulasse mais o espectador (o que só funciona até certo ponto da história). Apesar da competência do protagonista de Frederick Lau, do carisma de Vicky Krieps (de Trama Fantasma  e O Jovem Karl Marx) e do aspecto noir  da fita, Gutland  é um filme do qual se espera muito, mas se entrega pouco, não obtendo tanta relevância dentro da produção luxemburguesa atual.

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“O Jovem Karl Marx”: A Origem de um Mito

Dirigido pelo haitiano Raoul Peck, um cineasta já bastante conhecido por sua militância na sétima arte (ele é o nome por trás de filmes como Lumumba, Abril Sangrento e o recente Eu Não Sou Seu Negro – este último que concorreu ao Oscar de melhor documentário em 2017), O Jovem Karl Marx concentra sua narrativa ao final da primeira metade do século XIX, seguindo os passos do personagem título no curto (e intenso) período que antecedeu a publicação de O Manifesto Comunista, em 1848. Após o fim da Gazeta Renana (jornal alemão para o qual colaborou durante um tempo), Karl (August Diehl) muda-se para Paris acompanhado de sua mulher, Jenny Von Westphalen (Vicky Krieps), e acaba conhecendo Friedrich Engels (Stefan Konarske), filho de um industrial da época e habitual colaborador de Marx nos anos seguintes.

O filme esboça a amizade entre Marx e Engels; no entanto, foi ao lado de Jenny que os dois filósofos desenvolveram o Manifesto. Aliás, Jenny foi uma figura importantíssima para a formação de Marx como pensador: ela incentivou sua luta, sendo uma grande aliada à causa. Engels, por sua vez, foi o amigo responsável por lhe apresentar inúmeros autores que moldariam seu pensamento (além de costumeiramente ajuda-lo financeiramente). O longa acerta ao não tratar Marx como o “mito” que ele se tornaria no futuro: visto como um homem comum (gente como a gente), Marx talvez jamais seria quem foi se seu caminho não cruzasse com essas pessoas.

A direção de Peck, entretanto, é deveras “tradicional”, “clássica”: buscando fugir de qualquer viés propagandístico, o idealizador nos entrega um filme com apelo estético irretocável, especialmente por sua ambientação (a Europa do período de industrialização é recriada aqui com excelência – da pobreza e miséria das ruas inglesas ao luxo da França de então). As ideias de seu protagonista, por sua vez, são abordadas superficialmente. Talvez justamente para não cansar o espectador com infinitas teorias, o roteiro é direto e prático ao falar sobre a obra de Marx – o que até pode ajudar aqueles que não tem tanta familiaridade com o assunto, mas também impede que O Jovem Karl Marx seja um registro histórico mais interessante.